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O Santos FC precisa das bets para existir?

As apostas movimentam bilhões, enquanto pesquisas apontam impactos no orçamento das famílias, endividamento e problemas relacionados ao jogo

Tempo de leitura: 10 minutos

Nos idos de 1962, quando o Santos Futebol Clube ergueu a Copa Intercontinental pela primeira vez, a camisa alvinegra não carregava nenhuma casa de apostas. Era só Pelé e o futebol de um time talentoso que encantava o mundo quando entrava em campo.

Quem diria que o Peixe, décadas depois, apostaria boa parte da própria sobrevivência financeira em contratos com sites de jogo?

Mais de seis décadas depois, o Santos se vê diante de uma encruzilhada: o mesmo clube que ajudou a escrever uma das histórias mais gloriosas do futebol brasileiro hoje discute até que ponto sua sobrevivência financeira pode depender de uma indústria que deixa dívidas e faz sofrer quem a sustenta.

Essa contradição ficou escancarada quando a Federação Paulista de Futebol, Federação do Rio de Janeiro, Sindicato dos Atletas, Fenapaf e equipes como o próprio Santos, Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo e Cruzeiro assinaram um manifesto conjunto em uma quinta-feira, dia 17 de setembro de 2026.

www.juicysantos.com.br - O Santos FC precisa das bets para existir?Foto: Reprodução

O documento alerta que a proibição dos cassinos on-line pode significar o fim do futebol brasileiro.

É raro ver essas entidades concordando em algo. Por isso, a união chamou tanta atenção. O governo brasileiro, aliás, deve anunciar em breve a Medida Provisória que motivou essa reação.

O que a MP realmente propõe

A proposta em análise não proíbe apostas esportivas, ela mira os cassinos virtuais, caça-níqueis, roletas digitais e o já famoso jogo do tigrinho.

Juntas, essas modalidades respondem por 70% a 80% do faturamento das operadoras de apostas no país.

www.juicysantos.com.br - tigrinho

Portanto, é esse dinheiro específico que sustenta boa parte dos patrocínios master do futebol brasileiro. Assim, fica mais fácil entender por que a reação dos clubes veio tão rápida e tão coordenada.

O valor das bets

O clube rompeu antecipadamente, em janeiro, um contrato de R$ 105 milhões por dois anos com a 7K Bet.

Depois, assinou com a Novibet um acordo de R$ 35 milhões fixos por temporada, podendo chegar a R$ 95 milhões caso metas sejam batidas.

www.juicysantos.com.br - Santos FC Bet

Para efeito de comparação, em 2019, antes do boom das apostas, o Corinthians recebia R$ 12 milhões anuais da BMG.

O Flamengo, por sua vez, recebia R$ 15 milhões do BS2, os dois maiores patrocínios master da época. Hoje, tem contrato estimado em R$ 268 milhões por ano com a Betano.

O salto não é crescimento natural do mercado publicitário esportivo e mostra uma bolha concentrada em um único setor.

A conta que o manifesto não mostrou

Enquanto os clubes calculam o que podem perder, existe outro lado dessa equação. As bets tiraram R$ 62,5 bilhões das famílias brasileiras em 2025.

Além disso, uma pesquisa do Made/USP estimou que as apostas podem ter reduzido em até R$ 141 bilhões o PIB nacional no mesmo ano, pela queda no consumo das famílias apostadoras, sendo que 75% dos apostadores ganham até cinco salários mínimos. Desses, 43% vivem com até dois.

Ou seja, quem sustenta boa parte da receita que hoje paga salários milionários no futebol é justamente quem menos pode perder dinheiro nesse processo.

Um rastro que vai mais fundo do que o bolso

Segundo o Instituto Clarice, quase uma em cada quatro pessoas já presenciou episódios de violência doméstica ligados a apostas. Mulheres com filhos têm 1,5 vez mais chance de apostar, pois acreditam que essa seria uma forma de ajudar em casa.

Entre adolescentes, 10,5% já apostaram, segundo o Ministério da Justiça. Desse grupo, mais da metade já está em zona de risco ou desenvolveu algum transtorno relacionado ao jogo.

Pesquisas recentes também associam esse transtorno, quando combinado a endividamento severo, a um risco de comportamento suicida bem mais alto.

Não é acaso que a ludopatia já ocupe o terceiro lugar entre as compulsões mais comuns do Brasil, atrás apenas do álcool e das drogas ilícitas.

Virou até tema de novela das 21 horas. Em Quem Ama Cuida, atualmente no ar, Ulisses (interpretado pelo santista Alexandre Borges), perdeu parte de sua empresa e foi expulso de casa pela esposa por seu vício em cassinos.

Um consenso raro no Brasil

Pesquisas recentes mostram algo incomum num país tão dividido. Um levantamento Atlas/Bloomberg aponta que 75% dos brasileiros defendem a proibição das apostas online. Além disso, 79% acreditam que a propaganda de bets deveria ser limitada. Já 88% discordam que apostar possa ser uma forma legítima de complementar renda.

Outro levantamento, do More In Common com Ipsos-Ipec, mostrou que 68% dos brasileiros acham que o patrocínio de bets no futebol deveria acabar.

Por outro lado, representantes da Associação Nacional de Jogos e Loterias e do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável discordam da proibição total. Eles defendem que a publicidade, dentro de um mercado fiscalizado, também cumpre função educativa. Assim, proibir apenas empurraria o consumidor para plataformas clandestinas sem qualquer controle.

O espaço publicitário que não sobrou para mais ninguém

Existe ainda um efeito colateral pouco discutido fora do círculo econômico. Em poucos anos, a publicidade das bets ocupou o espaço comercial que antes pertencia a farmácias, montadoras e empresas de alimentos. Essas operadoras pagam valores que nenhum outro setor consegue acompanhar. Isso não representa dinheiro novo circulando na economia.

Pequenos e médios negócios perdem espaço de divulgação, seja em uniformes de clubes, seja em parcerias com criadores de conteúdo. Nenhum orçamento tradicional compete com o que uma operadora de apostas está disposta a pagar.

O resultado é uma cadeia inteira de setores perdendo visibilidade para uma indústria que, na prática, não fabrica nem vende produto físico algum. Ela apenas realoca o dinheiro que sai direto do bolso de quem aposta.

Times grandes vão sentir o troco

Boa parte dos grandes clubes já carregava dívidas relevantes antes da chegada maciça das bets. O dinheiro das apostas não resolveu esse problema estrutural. Ele apenas adiou o ajuste, ao mesmo tempo em que inflou folhas salariais para patamares difíceis de sustentar sem esse aporte específico.

Se o modelo de patrocínio realmente encolher, a tendência é que a média salarial do futebol brasileiro caia junto. Esse processo não deve ser simples, principalmente para clubes que assumiram compromissos plurianuais com atletas e comissões técnicas.

Paradoxalmente, os clubes grandes podem sofrer mais nesse ajuste do que equipes menores, pois cresceram de custo na mesma velocidade em que o dinheiro das apostas entrou.

O mundo já passou por isso e seguiu de pé

Mas o futebol não vai acabar. A Premier League é o exemplo mais recente e mais direto. Nesta temporada, nenhum clube da elite inglesa pode exibir marca de apostas na parte frontal da camisa.

A decisão foi aprovada voluntariamente pelos próprios 20 clubes ainda em 2023. A mudança deve custar até 80 milhões de libras ao conjunto da liga, e obrigou metade das equipes a buscar novos parceiros às pressas. Seis clubes, inclusive, chegaram a estrear a temporada com o peito da camisa em branco.

Só que o espaço vazio não durou muito. Bancos, empresas de tecnologia e até marcas de turismo entraram para anunciar. Em alguns casos, pagaram mais do que as antigas patrocinadoras de apostas pagavam.

O caso inglês não é o único.

A Itália proíbe publicidade de apostas no esporte desde 2018.

A Espanha proibiu patrocínio em camisas e competições em 2020.

Os Países Baixos foram além e desde julho de 2025, operadoras simplesmente não podem mais patrocinar clubes, equipes ou competições esportivas.

A Bélgica, por sua vez, caminha para proibição total do patrocínio esportivo em 2028.

Em nenhum desses países o futebol profissional deixou de existir. Ele apenas se reorganizou.

O Santos que existia antes de qualquer bet

E é exatamente aqui que a memória do próprio manifesto pisa em falso. O Santos construiu a trajetória mais vitoriosa do futebol mundial em número de gols décadas antes de qualquer aposta esportiva ser regulamentada no Brasil.

Foram dois Mundiais de Clubes, três Libertadores, oito Campeonatos Brasileiros e vinte e dois Paulistas. A maioria desses títulos veio de estruturas de formação de base, não de patrocínio de cassino virtual. Afinal, o clube revelou Pelé, Robinho, Neymar, Rodrygo e tantos outros muito antes de soltarem o tigrinho.

Aliás, foi justamente em 2023, já com patrocínio máster de uma casa de apostas na camisa, que o Santos caiu para a Série B pela primeira vez em sua história centenária.

O dinheiro entrou e o rebaixamento aconteceu do mesmo jeito. Não significa que as bets causaram a queda, só que elas não garantiram a solidez esportiva nem financeira para o clube que mais depende delas na Baixada Santista hoje.

Dificuldade não é sentença final

Times menores, categorias de base e o futebol feminino de fato dependem hoje de receitas que dificilmente outro setor reporia com a mesma velocidade. Esse é um problema concreto para milhares de profissionais que vivem do esporte fora dos holofotes dos grandes contratos.

Ainda assim, tratar uma regulamentação mais rigorosa como sinônimo de extinção do futebol ignora a história. Santos, Corinthians e Flamengo construíram tudo isso sem depender de aposta nenhuma. Além disso, ligas inteiras, da Inglaterra à Holanda, já atravessaram essa mesma transição sem desaparecer do mapa esportivo mundial.

O desafio real, portanto, não é sobreviver sem bets. É reaprender a se sustentar com outras fontes de receita, sem terceirizar esse ajuste para quem menos pode pagar por ele.

Se a sobrevivência do futebol depender da destruição de famílias, do endividamento de torcedores, dos prejuízos ao comércio e de riscos de manipulação de resultados, talvez seja hora de perguntar que tipo de negócio o esporte está disposto a ser.

O Brasil vai continuar sendo o país do futebol. Só não precisa virar o país do tigrinho.

Onde procurar ajuda para o vício em jogos

Quem sente que perdeu o controle em Santos pode procurar as Unidades Básicas de Saúde e os Centros de Atenção Psicossocial espalhados pelos bairros. Também é possível começar de forma mais discreta pelo aplicativo Meu SUS Digital, que oferece autoteste, teleatendimento e bloqueio do próprio CPF em plataformas de apostas.

Santos ainda abriga um grupo de Jogadores Anônimos, que se reúne semanalmente na Avenida Dr. Pedro Lessa, sem taxas e sem vínculo religioso.

O Juicy Santos faz parte do movimento “Aqui não tem propaganda de bets” junto a veículos de todo o Brasil e não aceita anúncios de bets e casas de apostas. 

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