A epidemia das bets e onde procurar ajuda em Santos
Enquanto o Brasil perdia na copa, as bets ganharam mais do que nunca
A Copa do Mundo deveria ter sido só sobre futebol, mas em meio às comemorações de gol, um outro assunto disputou espaço nos comentários: as bets. Enquanto a seleção brasileira corria atrás da taça, milhões de pessoas corriam atrás de outra vitória, dentro dos aplicativos de apostas.
O mercado de apostas online brasileiro já é o quinto maior do mundo e faturou R$ 37 bilhões só em 2025, segundo estudo da Tendências Consultoria em parceria com a Peers Consulting. Mais de 25 milhões de brasileiros apostaram em pelo menos uma das quase 80 plataformas autorizadas pelo Governo Federal. Portanto, quando o Brasil joga, duas partidas acontecem ao mesmo tempo, e nem todo mundo sai ileso da segunda.
O nome técnico para um problema que mora perto de você
Existe um nome para quando a aposta deixa de ser diversão de fim de semana e passa a comandar a rotina. Chama-se ludopatia e ela é classificada como uma doença comportamental.
No Brasil, essa compulsão já ocupa o terceiro lugar entre as mais comuns, atrás apenas do álcool e das drogas ilícitas.

A linha entre o jogo recreativo e o problemático costuma ser sutil.
Irritação quando não é possível apostar, gastos que ultrapassam o planejado, mentiras contadas à família e pedidos de empréstimo cada vez mais frequentes são sinais de que o controle começou a escapar das mãos.
Estima-se que 12,8 milhões de brasileiros estejam hoje em algum nível de risco e cerca de 1,4 milhão já tenham diagnóstico clínico de Transtorno de Jogo, segundo pesquisa feita pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde.
O impacto atinge quem está mais próximo. Cada apostador em situação problemática costuma afetar negativamente pelo menos outras seis pessoas ao seu redor, entre família, amigos e colegas de trabalho.
E as mulheres, apesar de serem a minoria entre apostadores, sofrem as consequências de maneira contundente. São elas que precisam segurar as pontas – financeira e emocionalmente – nos lares devastados quando o companheiro coloca o dinheiro nos jogos. Isso sem falar nas situações de violência física que precisam enfrentar em caso de derrota. Vídeos e mais vídeos de homens que perderam apostas nos aplicativos quebrando celulares, televisões e socando paredes são comuns nas redes sociais.
Onde o dinheiro das famílias está indo parar
As apostas online já disputam abertamente o orçamento doméstico, principalmente nas classes C, D e E. Em 2024, as famílias brasileiras movimentaram R$ 240 bilhões em bets, drenando R$ 103 bilhões que poderiam ter ido para o comércio local. Parte considerável desse dinheiro sai direto do prato: as apostas já consomem 13% do orçamento destinado à alimentação.
O aluguel também sente o efeito. 13% dos inquilinos relataram atraso ou falta de pagamento por causa dos jogos. Entre os jovens de 18 a 35 anos que planejavam entrar na faculdade, 34% adiaram os estudos por conta dos gastos com apostas. Assim, uma decisão tomada na tela do celular termina interferindo em projetos de vida inteiros.
A publicidade agressiva ajuda a explicar a velocidade dessa expansão. Levantamento de outubro de 2025 mostrou que 53% das crianças e adolescentes brasileiros já haviam visto anúncios de apostas na internet, número que sobe para 63% entre os de 15 a 17 anos.
Influenciadores e jogadores de futebol (um deles é aquele ex-jogador em atividade) emprestam credibilidade a promessas de dinheiro fácil e o público mais jovem é justamente o mais exposto a esse discurso.
O buraco que o próprio setor cava
O custo social gerado pelas apostas chegou a R$ 38,8 bilhões por ano. A maior fatia, R$ 30,6 bilhões, recai sobre a saúde mental: R$ 17 bilhões relacionados a mortes por suicídio, R$ 10,4 bilhões por perda de qualidade de vida ligada à depressão e R$ 3 bilhões em tratamentos médicos.
A busca por atendimento no SUS relacionada ao vício em bets cresceu quase 140% em cinco anos, segundo dados apresentados em audiência na Câmara dos Deputados no fim de maio.
Para dar conta da demanda, o Ministério da Saúde lançou em março um teleatendimento em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, acessado pelo aplicativo Meu SUS Digital. A resposta ainda é pequena diante do tamanho do problema, mas mostra que o poder público começa a tratar as bets como questão de saúde pública, não apenas de mercado. Foi essa mesma lógica que levou quase 300 mil pessoas a pedirem autoexclusão das plataformas nos últimos meses.
O que o resto do mundo já aprendeu (e o Brasil ainda não)
O Reino Unido oferece uma pista de como equilibrar mercado regulado e proteção ao apostador.
Por lá, metade de uma taxa específica cobrada do setor vai direto para o sistema público de saúde, que hoje conta com mais de 15 clínicas especializadas em tratar dependência de jogo.
Já a Itália seguiu outro caminho, banindo quase toda publicidade de apostas em 2018. O resultado, no entanto, não foi o esperado. O vício não diminuiu e os apostadores simplesmente migraram para plataformas ilegais. O que funcionou por lá foi outra coisa: um registro único de autoexclusão que bloqueia o acesso a todos os sites ao mesmo tempo.
O Brasil ainda caminha para decidir qual desses modelos, ou qual combinação entre eles, fará mais sentido por aqui.
Ajuda tem endereço em Santos
A boa notícia é que ninguém precisa enfrentar isso sozinho e a rede de apoio já existe na cidade.
A porta de entrada do SUS para quem sofre com ludopatia são as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), espalhados pelos bairros de Santos. Quem prefere começar de forma mais discreta pode usar o aplicativo Meu SUS Digital, que oferece autoteste e teleatendimento por videochamada, além da opção de bloquear o próprio CPF em plataformas de apostas.
Santos também conta com um grupo local de Jogadores Anônimos, irmandade sem vínculo religioso ou político voltada exclusivamente a quem quer parar de jogar. O único requisito para participar é o desejo de largar a aposta e as reuniões acontecem semanalmente na cidade.
A família de quem enfrenta o vício também tem um papel importante nesse processo. Acolher sem julgar, mas sem assumir as dívidas do apostador, ajuda a devolver a ele a responsabilidade pelas próprias escolhas, um passo essencial para o tratamento funcionar.
A cada notificação de um app de apostas, vale lembrar que o problema raramente aparece de uma vez. Ele se instala aos poucos, entre uma aposta “só pra testar” e a próxima. Reconhecer o momento em que o jogo deixou de ser diversão pode ser o primeiro passo para pedir ajuda antes que a conta fique grande demais para fechar.
SERVIÇO
Jogadores Anônimos Santos
Avenida Dr. Pedro Lessa, 2262, sala 11
Reuniões aos sábados, das 10h às 12h
Sem taxas ou mensalidades. Basta o desejo de parar de jogar.
Rede pública de saúde (SUS)
Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) de Santos: porta de entrada para acompanhamento presencial.
Aplicativo Meu SUS Digital: autoteste, teleatendimento por videochamada e bloqueio de CPF em plataformas de apostas.
Ouvidoria do SUS: 136 (telefone, WhatsApp ou chatbot).