O que esperar de 2026 nos negócios? 8 pessoas que empreendem em Santos contam suas expectativas
2026 não é para amadores. De um lado, o grito de gols da Copa em junho; do outro, a tensão das eleições em outubro. No meio disso, um tabuleiro global agitado e o lembrete constante de que o clima ficou ainda mais quente. E que os negócios precisam mudar junto.
Mas, para além das manchetes e das grandes potências, existe o “Brasil real”. Para além do sobe e desce da bolsa de valores, existe o caixa e as decisões. Aquelas pessoas que não param, independente da instabilidade externa.
É no comércio do nosso bairro e na prestação de serviço local que a economia ganha rosto, nome e faz história. Para entender os desafios e as apostas de quem está na linha de frente do empreendedorismo de Santos, conversamos com 8 empreendedores que estão fazendo a diferença por aqui.

A pergunta é simples, mas as respostas revelam muito sobre como pensar o ano que acaba de começar: como empreendedor(a), o que você espera de 2026?
Empreender perto do mar
Cristiana Ventura, fundadora do Searamics Studio, é uma daquelas mulheres que rodaram o mundo.
Depois de anos morando na Europa e Ásia, voltou para Santos para empreender. Começou por aqui seu ateliê, onde além de fazer suas obras, dá aulas de ofício de ceramista. 2026 para ela já começa com expansão, mudando para um imóvel maior para abrigar seus alunos, em um prédio pé na areia, na Av Presidente Wilson, 1935 (sala 15), com vista para a Ilha Urubuqueçaba.
“Com copa e eleições, não será um ano fácil e será necessário muita sabedoria para navegar com maestria e inteireza de agora até dezembro. Que possamos ver a beleza que reside na imperfeição e abraçar o desconhecido com calma, leveza, sabedoria e desapego”.

O trabalho de Cris faz parte de um setor importante no Brasil, principalmente para as mulheres.
O setor de manualidades movimenta hoje cerca de R$50 bilhões no país.
Dados do Sebrae mostram que o número de artesãos registrados no país mais que dobrou desde 2023, refletindo a profissionalização do hobby. Ela coloca este como uma das suas expectativas para o ano, para o bem da saúde mental das pessoas:
“Eu espero que em 2026 as pessoas se voltem ainda mais por fazer manual, aprendam a ter pausas na sua semana para contemplar o fazer pelo fazer e não o fazer para produzir. Que possam desligar por algumas poucas horas do seu celular e estarem presente naquilo que estão fazendo sem a cobrança da perfeição e respeitando o tempo natural das coisas.”, reforça Cris.
Sonhar no próprio quintal
Assim como Cristiana, Rogério Rabbit foi outro santista que rodou o mundo e voltou para casa. Foram 35 anos fora de Santos, morando em várias cidades do Brasil e fora dele. Ele conta que voltou no final da pandemia sem grandes planos, com a ideia de descansar.
Abrir um quiosque na praia não estava no script, mas ele confessa que chegou a desejar isso em um momento da vida. Um sonho que ficou adormecido – e até esquecido, conta Rabbit com um sorriso no rosto.
“Quando surgiu o projeto, pensei: por que não? Sou tão grato por tudo, que sinceramente eu estou feliz como as coisas estão indo. É muito leve, eu tento passar para as pessoas que a ideia é que elas se conectem com a natureza – a gente está diante do maior jardim de praia do mundo, um quintal que são sete quilômetros de praia. Estou realizado e muito feliz de voltar para a minha cidade”, conta Rogério.
Rabbit conta que, com o sucesso, é natural as pessoas perguntarem sobre crescimento. Porém, ele reforça que é importante não se guiar pelo que os outros acham que é o modelo “correto” de mostrar resultados.
“No meu caso específico, que somos um quiosque de caipirinhas, vejo que as pessoas estão valorizando cada vez mais, a nossa entrega, o que a gente faz, como a gente faz que é o mais legal e mais importante. Estamos indo para o terceiro ano e não tenho grandes expectativas. O pessoal quer saber se eu vou aumentar minha equipe, se eu vou expandir, se eu vou abrir o Rabbit quiosque em outro lugar aqui em Santos. As pessoas vêm fazer propostas diversas para mim, para fazer quiosques e outros projetos. Eu não tenho essa pretensão. Toda semana encosta alguém querendo fazer negócios, mas eu não acho que é bem assim”, reflete.

“Para quem está no espaço público, no calçadão da praia, como eu, gostaria que a gente tivesse mais atenção e apoio do poder público. Eu sei que a prefeitura já faz um trabalho excelente nos jardins da orla e que isso é bem bacana. Mas, especificamente falando dos quiosques, cada um se vira por si. Seria legal se a gente tivesse um olhar e um apoio”, completa Rabbit.
Pessoas no centro, reforma tributária no horizonte
Um dos restaurantes mais queridos da cidade, a Cantina Babbo Américo, é hoje comandado por Américo Vieira Júnior. Depois de um ano desafiador, com a perda de seu pai, Meco, como os amigos carinhosamente o chamam, é o principal responsável pelo empreendimento que está na cidade desde 1967.
“Já começo 2026 com algumas adaptações na fase mais operacional da reforma tributária. Sempre que mexe nessa parte cria mais uma ansiedade”, relata.
“Algo que tem sido um desafio é a mão de obra, por uma questão de escassez. Não acredito que seja um reflexo de pleno emprego, mas há a competição com os aplicativos, que acabam pegando as pessoas que não querem ficar fixas em algum lugar”.
Meco conta que não apenas pelos desafios de contratação, mas também por uma questão ideológica e de seus valores, vem buscando melhorias para qualidade de vida dos colaboradores, como a instituição de folgas duplas mais frequentes e organizar melhor a escala – um grande desafio no setor de alimentação.

Nesse aspecto, ele conta que tem usado a tecnologia e a IA para ajudar nesse planejamento. É um foco para esse ano, segundo ele.
“Temos um carinho imenso pela equipe. Buscar sempre ser melhor pra eles é prioridade. E, por sermos uma empresa antiga, essa evolução constante é importante. Tenho projetos ambiciosos de uma nova cozinha, mas sempre com o pé no chão, não um crescimento alavancado que exponha a muitos riscos.”, finaliza Meco.
Adaptação gradual
Se do lado do empreendedor existe uma ansiedade, há quem enxergue a reforma tributária como uma oportunidade. Mesmo sendo um desafio, existem setores e negócios que podem se beneficiar com ela.
“Encaramos 2026 como um marco de desafios e oportunidades. Inicia-se agora um período de transição de oito anos para os novos tributos, com a convivência temporária entre regimes antigos e novos e a necessária adaptação dos sistemas empresariais. Estou confiante de que será um ano bastante produtivo, independentemente do cenário externo”, explica Leonardo Cursino, da Cursino & Teodoro da Silva Advogados Associados.
Com escritórios em Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo – e desde 2024 em Santos -, atua com uma abordagem do direito focada em inovação, incluindo cases na área do direito digital, tributário e aduaneiro, contratual e startups. Para Cursino, ampliar a atuação em Santos é uma das estratégias do escritório.

“Será um ano marcante para a Cursino & Teodoro da Silva: um período de intenso trabalho, mas também de expansão estratégica. Pretendemos fortalecer nossa atuação no mercado de Santos, aproveitando nossa expertise na área tributária. O porto de Santos oferece oportunidades significativas e queremos apoiar as lideranças locais na preparação para a reforma tributária e nas pautas de inovação. A reforma tributária tende a ampliar a demanda por assessoria jurídica especializada, impulsionando a necessidade de planejamentos tributários estratégicos e a reestruturação de arranjos societários. A revisão de contratos e relações comerciais será essencial, o que abre um campo promissor de oportunidades para nosso escritório”, completa.
Novos produtos e serviços
Olhar para novos serviços e produtos é a expectativa da arquiteta Thamyris Albuquerque, fundadora da Taed Arquitetura, e de Dani Junco, CEO da B2Mamy.
A tecnologia, a inserção da IA nas rotinas e um olhar para reduzir a fricção dos clientes permeia as visões das duas empreendedoras, mesmo atuando em segmentos muito diferentes.

“Minha expectativa é que será um ano de muito movimento para todos os setores. Na minha área, arquitetura e interiores, acredito que tenhamos diversos projetos sendo desenvolvidos, ainda mais com a entrega de diversos empreendimentos imobiliários que estão programados. Além disso, acredito que, nos últimos anos, muitas pessoas já vem empreendendo, então teremos esse ano um número maior de serviços e produtos sendo lançados em diversas áreas. Por exemplo, introduzimos IA na rotina da nossa equipe do escritório e identificamos a possibilidade de novos serviços e produtos que serão oferecidos ainda neste ano através da Taed”, conta Thamyris.
Com a IA, a multiplicação de conteúdo sintético, ou seja, aquele conteúdo 100% gerado pela inteligência artificial, vai disputar cada vez mais a atenção do público. E também mais startups vão nascer, com a possibilidade de soluções digitais, aplicativos e serviços serem colocados no mercado sem a necessidade de grandes equipes técnicas.
A eficiência dessas soluções – e seu foco na solução de problemas reais – será um ponto-chave para que elas ganhem tração.

“Em um ano instável, as minhas palavras da vez são simples e genial. Vamos investir em produtos que não necessitem de muita explicação de conceito para acelerar os processos de decisão e, assim, manter a sustentabilidade de caixa. Vamos crescer 17% em 2026, isso será inegociável”, resume Dani.
Eventos em alta
Com um ano desafiador devido ao calendário que mexerão nos eventos sociais e corporativos ao longo de 2026, a dupla Brenno Lucena e Eduardo Spessoto, da SB7 Som & Luz, começou a se preparar bem antes.
Desde 2022, a SB7 começou um forte investimento na qualificação do time de colaboradores, que hoje soma mais de 30 pessoas.
“Não é sobre a parte técnica, e sim sobre o relacionamento, sobre o ser humano que existe atrás daquela mesa de som. Nosso retorno está sendo altamente positivo. Medimos isso com o crescimento de 240% em 2025, pela procura para trabalhar em nossa empresa, sendo tudo de forma orgânica. É desta forma que reforçamos nosso compromisso com a entrega de excelência com a equipe técnica e aplicamos nossa estratégia de crescimento para 2026”, comemora Brenno.
Mesmo com o aumento, Brenno e Eduardo acompanham tendências do mercado com rigor, incluindo a baixa nos últimos três anos, principalmente no setor de casamentos.

“Ao longo dos nossos 25 anos de trabalho com eventos, entendo que vivemos de fases – e estamos na era das super festas de 15 anos e também das comemorações de 50, 60, 70 anos de idade”, diz Brenno.
A SB7 vem crescendo devido à sua capilaridade de atuação, do relacionamento e da entrega técnica. Em 2025, foi responsável pelos grandes eventos de conteúdo de inovação, empreendedorismo e de criatividade da cidade, entre eles o Festival GOMO de Criatividade e Inovação, o Festival CHAI de Vida e Carreira e o Santos Digital Week.
“Não acreditamos que os eventos corporativos irão diminuir por causa do calendário, mas sim serão alocados em novas datas”, prevê Eduardo Spessoto.
Quem acompanha a SB7 no Instagram pode ver os bastidores acontecendo em tempo real, inclusive o carinho com que os fundadores conduzem o dia a dia com a equipe. Eles projetam um crescimento de 17% para a SB7 em 2026, tendo como base 2025 que, segundo eles, já foi um ano muito positivo para a empresa.
“Crescer financeiramente não é apenas sobre faturar mais, mas saber administrar melhor o nosso negócio. Estamos prontos para entregar os eventos com equipe que está crescendo junto ao nosso plano de contratações e com o aumento exponencial de investimento para 2026, para acompanharmos as novas tecnologias em equipamentos de som, luz e LED e também nosso poder de atendimento em larga escala”, afirma Eduardo.
Brasil de verdade
O que fica claro nas palavras desses líderes é que 2026 não será vencido por quem apenas sobreviver às mudanças e ao calendário, mas por quem escolher enxergar as oportunidades entre a agitação de uma Copa do Mundo e a tensão da polarização eleitoral.
Esses empreendedores nos lembram da beleza de fazer pausas e de que sucesso não precisa ser sinônimo de expansão desenfreada. E que o simples e o genial são dois bons norteadores para decisões.
Que cuidar das pessoas nunca deve sair do foco. E que os desafios, inclusive tributários, podem ser portas de entrada para novos caminhos.
Em 2026, Santos completa 480 anos sendo exatamente isso: um lugar inspirador para quem, todos os dias, escreve a sua história, seja para quem empreende ou para quem compra desses CNPJs.
A cidade segue sendo palco de quem constrói o Brasil real, do seu jeito.