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O Agente Secreto e a memória de Santos: o navio Raul Soares

O filme premiado de Kleber Mendonça Filho dialoga diretamente com uma das páginas mais sombrias da história santista

Tempo de leitura: 6 minutos

O Brasil acordou em festa depois do Globo de Ouro 2026. O Agente Secreto levou o prêmio de melhor filme em língua não-inglesa, e Wagner Moura fez história ao se tornar o primeiro brasileiro a vencer como melhor ator em filme de drama. Com a vitória recente de Fernanda Torres, quatro estatuetas douradas reafirmam o poder da nossa cinematografia de contar histórias necessárias.

www.juicysantos.com.br - O agente secreto

Foto: Divulgação

E é justamente sobre histórias que precisamos contar que falamos aqui. Afinal, enquanto celebramos nosso soft power cultural no mundo, O Agente Secreto nos convida a olhar para dentro, para memórias que insistimos em esquecer ou que alguém apagou deliberadamente.

Um filme sobre memórias apagadas

No longa de Kleber Mendonça Filho, acompanhamos Marcelo, um professor de tecnologia que, em pleno 1977, se vê perseguido pela ditadura militar após se envolver em uma confusão com um empresário ligado ao regime. Buscando refúgio em Recife durante o Carnaval, ele descobre que a cidade não será o abrigo seguro que imaginava. Os vizinhos espionam, a paranoia cresce, e o caos que ele tentava evitar o encontra mesmo assim.

Diferente de Ainda Estou Aqui, que conta com registros e memórias preservadas da família Paiva, O Agente Secreto fala das histórias que nunca foram documentadas, das vidas interrompidas sem deixar rastro, dos traumas silenciados. É um filme sobre o que a ditadura conseguiu esconder.

E Santos sabe muito bem o que isso significa.

A Moscouzinha Brasileira

Poucos santistas sabem que os articuladores do golpe de 1964 apelidaram nossa cidade de “Moscouzinha Brasileira”, “República Sindicalista” e “Cidade Vermelha”. A forte organização dos trabalhadores portuários e a mobilização sindical faziam de Santos um alvo prioritário da repressão.

Já no primeiro dia do golpe, em 1º de abril de 1964, agentes do regime invadiram sindicatos, perseguiram diretores, prenderam lideranças e praticaram torturas. O pretexto era conter uma suposta ameaça comunista (que nunca existiu de verdade), e serviu para justificar o terror que viria.

Santos pagou caro por sua história de resistência. A cidade sofreu um esvaziamento econômico intencional, perdeu sua autonomia municipal e viu seus trabalhadores serem sistematicamente perseguidos. Para dar o exemplo, a ditadura instalou um campo de concentração na Base Aérea, no Guarujá e transformou um navio ancorado no porto em prisão.

O nome dele? Raul Soares.

O navio que era uma ameaça silenciosa

Construído em 1900 como navio de passageiros, o Raul Soares passou a funcionar como presídio flutuante após a Marinha transformá-lo a partir de abril de 1964. Ancorado no porto de Santos, ele era visível para toda a cidade e essa era justamente a intenção.

www.juicysantos.com.br - raul soares

Foto: Estadão

O navio não era apenas um local de detenção. Era um símbolo de terror psicológico, uma ameaça constante pairando sobre as águas do estuário. Sindicalistas, políticos e opositores ao regime seguiam para o local e enfrentavam condições desumanas, como celas imundas, superlotação, falta de higiene básica e relatos de tortura física e psicológica.

O DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) comandava as prisões, interrogatórios e fichamentos. Boatos circulavam pela cidade de que caixões saíam do navio com corpos de presos que não resistiam às torturas. Até hoje, não sabemos quantas histórias terminaram ali.

As crianças que visitavam seus pais no navio-prisão

Lídia Maria de Melo tinha apenas seis anos quando a polícia invadiu o Sindicato dos Operários Portuários nas Docas, onde seu pai era diretor. Em seu livro “Raul Soares, um navio tatuado em nós”, ela descreve as visitas angustiantes ao pai preso: sua mãe com a irmã bebê no colo, ela e outra irmã subindo a escada junto ao casco do navio. E o medo constante de cair.

Lídia cresceu aprendendo na escola uma versão da história que não coincidia com o que sua família vivia. Sua mãe repetia o alerta: “Não falem lá fora sobre o que conversamos aqui dentro de casa, pode chamar a atenção sobre nós”. A prisão do pai forçou sua mãe a assumir sozinha o sustento e a educação das filhas. Mesmo após ser libertado, ele enfrentou vigilância constante e dificuldades para encontrar emprego, vivendo de trabalhos mal remunerados.

Os presos sofreram. Suas famílias também. E muitas dessas histórias foram propositalmente esquecidas, apagadas, silenciadas.

Lídia também contou essa história durante as gravações do podcast Lendárias & Portuárias.

Por que precisamos lembrar

O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui chegam aos cinemas e aos prêmios internacionais em um momento crucial. Eles nos lembram que a ditadura militar brasileira não é apenas uma nota de rodapé nos livros de história, é uma ferida ainda aberta, um fantasma que continua a nos assombrar de formas que muitas vezes nem percebemos.

O próprio Wagner Moura bateu nessa tecla após ganhar o prêmio:

“A ditadura ainda é uma cicatriz aberta em nossa vida brasileira. Aconteceu há apenas 50 anos. Recentemente, tivemos, de 2018 a 2022, um presidente de extrema-direita/fascista no Brasil, que é uma manifestação física dos ecos da ditadura. Portanto, a ditadura ainda está muito presente no cotidiano brasileiro.”

Quando deixamos essas memórias se apagarem, corremos o risco de repetir os mesmos erros. Como diz o velho ditado, a história acontece primeiro como tragédia, depois como farsa (e já tivemos nosso vislumbre de farsa em 8 de janeiro de 2023). O que vem depois disso, se não estivermos atentos, ninguém sabe.

Santos foi a cidade mais afetada pela ditadura militar no país. O Raul Soares ancorado em nossas águas era o lembrete diário do preço da resistência. E ainda assim, tantas dessas histórias permanecem desconhecidas, até mesmo para quem nasceu e cresceu aqui.

O Agente Secreto nos convida a não esquecer. Não apenas as histórias que tiveram a sorte de serem registradas, mas especialmente aquelas que foram deixadas no silêncio. Porque cultura não é só entretenimento, é poder de narrativa. E quando resgatamos essas memórias, recuperamos também nossa capacidade de contar nossa própria história, em vez de sermos apenas figurantes na história dos outros.

O Globo de Ouro de Wagner Moura é motivo de orgulho. Mas a verdadeira vitória está em usar esse holofote para iluminar as sombras que ainda habitam nosso passado. Especialmente aqui em Santos, onde o mar guarda segredos que não podem ser esquecidos.

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