Exposição em Santos transforma ausências de vítimas da ditadura em memória
Uma mostra fotográfica chega ao Instituto Histórico e Geográfico de Santos para lembrar o que o silêncio tentou apagar
Existe um tipo de dor que não grita. Ela habita os álbuns de família, as cadeiras vazias à mesa, as perguntas que ficaram sem resposta. A exposição Ausências Brasil, do fotógrafo argentino Gustavo Germano, chega a Santos para falar exatamente dessa dor. E encontra, nesta cidade, um solo fértil e profundamente marcado pela história que a mostra retrata.
Foto: Gustavo GermanoAté o dia 30 de abril de 2026, o Instituto Histórico e Geográfico de Santos (IHGS) recebe 12 pares de fotografias que contrapõem imagens de álbuns antigos com novas fotos tiradas nos mesmos lugares, décadas depois. O que muda entre uma foto e outra? Uma pessoa. Um desaparecido político da ditadura militar brasileira (1964-1985). Assim, a ausência se torna presença avassaladora.
E Santos sabe, melhor do que quase qualquer cidade do Brasil, o peso dessa ausência.
“A cidade mais torturada pelo golpe militar”
Não é exagero. É documento. O relatório final da Comissão da Verdade do Município de Santos concluiu que a cidade foi a mais atingida e mais torturada pelo golpe militar de todo o país. Os articuladores do regime chamavam Santos de “Moscouzinha Brasileira”, “República Sindicalista” e “Cidade Vermelha”. Além disso, transformaram esse orgulho operário em alvo prioritário da repressão.
No primeiro dia do golpe, em 1º de abril de 1964, agentes do regime invadiram sindicatos. Prenderam diretores. Torturaram trabalhadores. O porto, símbolo de força e organização da classe trabalhadora santista, tornou-se palco de uma das páginas mais sombrias da história nacional.
A cidade pagou caro pela resistência. Portanto, perdeu autonomia municipal, sofreu esvaziamento econômico intencional e viu suas lideranças perseguidas sistematicamente.
O navio que era uma ameaça silenciosa
Ancorado no estuário e visível para toda a cidade, o navio Raul Soares não era apenas uma prisão. Era um recado. Uma ameaça concreta e cotidiana, flutuando nas águas de Santos para que ninguém esquecesse o preço da resistência.
Construído em 1900 como navio de passageiros, o Raul Soares passou a funcionar como presídio flutuante a partir de abril de 1964. A Marinha detinha sindicalistas, políticos e opositores em celas imundas, superlotadas, sem higiene básica. De lá saíam relatos de tortura física e psicológica.
Lídia Maria de Melo tinha apenas seis anos quando a polícia invadiu o sindicato onde seu pai exercia a função de diretor. Em seu livro Raul Soares, um navio tatuado em nós, ela descreve as visitas angustiantes ao pai preso: a mãe com a irmã bebê no colo, ela subindo a escada junto ao casco do navio, com medo de cair. E a instrução que ecoava em casa: “Não falem lá fora sobre o que conversamos aqui dentro.”
Esse é, portanto, exatamente o tipo de história que a exposição Ausências Brasil se recusa a deixar desaparecer.
Fotos que não deixam esquecer
Gustavo Germano criou o projeto Ausências motivado pelo desaparecimento do próprio irmão, Eduardo Raúl Germano. A ditadura argentina o deteu em 1976, e a Equipe Argentina de Antropologia Forense só identificou seus restos mortais em 2014. A partir daí, o projeto se expandiu para outros países da América Latina, a maioria alvos da Operação Condor, campanha de repressão que as ditaduras do Cone Sul orquestraram com apoio dos Estados Unidos.
Germano realizou Ausências Brasil em 2012, do Ceará ao Rio Grande do Sul. Cada par de fotos funciona como uma pergunta impossível: o que teria sido dessa vida, se não tivesse sido interrompida?
Para a museóloga Kátia Felipini Neves, do Núcleo de Preservação da Memória Política (NM), cada apresentação representa uma forma de reparação. Além disso, a escolha de Santos não foi aleatória. A cidade concentra, proporcionalmente, um dos maiores números de anistiados do estado de São Paulo. É também uma cidade com uma história de resistência que merece reconhecimento.
Lembrar é um ato político
Há uma frase que circula há séculos e nunca perdeu força: a história acontece primeiro como tragédia, depois como farsa. O Brasil já viveu a tragédia da ditadura. E em 8 de janeiro de 2023, deu um vislumbre assustador da farsa.
Quando apagamos a memória do regime militar, com suas torturas, desaparecimentos, silêncio forçado e destruição de famílias inteiras, abrimos espaço para narrativas que romantizam aquele período. Contudo, a memória funciona como antídoto. Ela nomeia os crimes, devolve identidade às vítimas e torna o negacionismo mais difícil de prosperar.
Wagner Moura tocou exatamente nesse ponto ao receber o Globo de Ouro pelo filme O Agente Secreto:
“A ditadura ainda é uma cicatriz aberta em nossa vida brasileira.”
Uma agenda para toda Santos
A exposição não serve apenas para ver. Ela convida a sentir, debater e aprender. Assim, a programação inclui visitas mediadas por educadores, formações para professores e agentes multiplicadores, e rodas de conversa com ex-presos políticos. São pessoas que viveram na pele o que as fotografias mostram em silêncio.
A abertura oficial acontece no sábado, 28 de fevereiro, com visita mediada por historiador, roda de conversa com ex-presos políticos e Sarau Musical às 18h30. Tudo gratuito. Além disso, a exposição oferece audiodescrição para pessoas com deficiência visual, porque a memória precisa chegar a todos.
Santos foi a cidade que mais sofreu. É também, portanto, a cidade que tem mais razão para lembrar. Essa exposição não fala sobre o passado. Ela fala sobre o que escolhemos ser daqui para frente.
Serviço
Exposição Ausências Brasil
Instituto Histórico e Geográfico de Santos (IHGS) Av. Conselheiro Nébias, 689 – Boqueirão
Período: 28 de fevereiro a 30 de abril de 2026
Entrada gratuita Horário: Segunda a sexta, das 14h às 17h (fechado aos sábados e domingos)
Agenda especial:
27/02 (sexta) – 14h: Formação de Educadores
28/02 (sábado) – 15h30: Visita educativa | 16h30: Roda de Conversa | 18h: Abertura Oficial | 18h30: Sarau Musical 02/04 (quinta) – 14h: Formação de Educadores + Roda de Conversa
Visitas educativas para grupos e escolas também estão disponíveis pela manhã, mediante agendamento.
Telefone: (13) 3222-5484
E-mail: [email protected]
Agendamentos a partir de 20 de fevereiro.
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