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Esta plataforma ajuda cidades e pessoas a se prepararem para eventos climáticos extremos

E se o alerta viesse antes do susto? Um designer juntou dados públicos para avisar sobre as futuras emergências climáticas

Tempo de leitura: 7 minutos

O céu fecha. O mar avança. O vento sopra forte. A ressaca começa.

E o alerta, às vezes, chega quase junto com os estragos.

Em uma região que convive cada vez mais com chuvas intensas, enchentes, vendavais e deslizamentos (assim como o país inteiro), a gente fica se questionando se há como se preparar para as ocorrências climáticas que passaram a fazer parte do nosso cotidiano.

Grandes ondas quebram em uma mureta à beira-mar, com uma ciclovia molhada em primeiro plano e morros verdes ao fundoFoto: Plano Municipal de Ação Climática de Santos – PACS/PMS

O designer Diego Costa dos Santos também se fez essa pergunta.

Gaúcho de nascimento e gerente em uma multinacional, ele já morou em várias outras partes do país e também no exterior. E, partindo de sua vivência, das suas memórias familiares de autossuficiência no campo e experiências recentes em seu estado natal com vendavais e enchentes, decidiu criar, de forma independente, o Preparação Civil.

O projeto pessoal e sem fins lucrativos surgiu durante as suas férias, por causa dos alertas e sinais sobre o super El Niño que vem aí e dos episódios concretos de destruição no Sul do país.

Ele já havia visto os resultados negativos da falta de preparação em duas ocasiões. Primeiro, na pandemia de COVID-19, quando muitas pessoas não tinham reservas básicas e passaram dificuldades com o desabastecimento. Já em 2022, a cidade onde mora atualmente, Pelotas (RS), enfrentou ventos fortíssimos de 160 km/h.

“Esse vendaval destruiu muitas residências na cidade, arrancou muitas árvores, postes. Ficamos 10 dias sem energia elétrica. Eu estava preparado, juntei lanternas, baterias e alimentos não perecíveis. Mas foi um momento em que várias pessoas próximas a mim entraram quase que num modo de pânico, né? Já foi um quase que como um prelúdio do que viria nas enchentes. Aqui no no Rio Grande do Sul, o impacto gigantesco na vida das pessoas foi gigantesco.  Várias pessoas perderam a própria vida. E muitos amigos, pessoas queridas e familiares, inclusive minha mãe, tiveram que sair das casas, perderam tudo. E aquilo para mim ali foi um momento de muita dor e angústia”, conta. 

Não dá mais pra só ficar esperando o desastre chegar

A plataforma digital utiliza inteligência artificial para organizar dados abertos combinados, mapear riscos de eventos climáticos extremos em cidades brasileiras. Assim, transforma essas informações em um plano prático de prevenção. Com essa tecnologia, moradores, gestores públicos, imprensa e equipes de resposta conseguem tomar decisões em tempo real.

Costa dos Santos conta que vem observando por anos como o Brasil ainda trata a antecipação a crises como uma exceção. Enquanto isso, outros países a enxergam de um jeito bem diferente, como parte da rotina.

O protótipo básico do site ficou pronto em cerca de 3 dias. O trabalho completo levou cerca de duas semanas no total, para adicionar mais camadas de dados e integrar com avisos automatizados via Telegram.

Como a ferramenta funciona

O Preparação Civil usa bases públicas de instituições como Semaden, Inmet, IBGE, SGB/CPRM, S2ID e Defesa Civil para gerar um score de risco por cidade ou CEP.

A lógica combina dados dispersos de monitoramento climático, geografia, histórico de desastres e características territoriais para dar clareza de leitura sobre o lugar onde você mora.

Na prática, é possível visualizar quais regiões têm maior exposição a eventos extremos e, a partir daí, ter recomendações de preparação.

Página web detalhando riscos naturais em Santos, SP: deslizamento, enxurrada e onda de calor, todos com grau 3 de 5.

O site também oferece orientações para montar kits de emergência, seja para quem precisa permanecer em casa durante um evento severo (chamado kit estacionário), seja para quem pode precisar evacuar com rapidez.

Há ainda um simulador de inundação, pensado para ajudar a observar o comportamento do relevo diante do aumento do nível da água.

O que cada cidade pode fazer antes da próxima crise?

Se você toma um susto toda vez em que o celular apita com um alerta da Defesa Civil, agora dá para acompanhar isso de uma forma mais próxima e assertiva, sem surpresas.

Qualquer pessoa de qualquer cidade pode verificar qual é o nível de risco da sua localidade por meio da plataforma.

O sistema considera variáveis como número de moradores, presença de pets e necessidades de mobilidade. E, a partir disso, consegue sugerir itens essenciais, como água, alimento, lanternas, remédios e documentos, em formatos que atendem diferentes perfis de família.

Na Baixada Santista, por exemplo, dá para ver pelo mapa abaixo que a maioria dos municípios está em grau 3 a 5 de perigo para eventos como enxurradas, vendavais, onda de calor, deslizamentos e outros.

Mapa detalhado da costa de São Paulo, exibindo cidades como Santos, Guarujá, Praia Grande, Cubatão e áreas de conservação.

Assim, a visualização dos dados ajuda a população entender as características da localidade, qual é a vulnerabilidade do território e como se preparar para cenários de risco reais, sem alarmismo e sem romantizar o desastre.

O designer do Preparação Civil defende que o poder público deveria oferecer esse tipo de orientação de forma institucional. Mas vê na sociedade civil uma força importante para preencher as lacunas e compartilhar o conhecimento.

E é importante ressaltar: precisamos evitar o medo pelo medo. Não são cenários fantasiosos, e sim riscos concretos, como falta de energia, desabastecimento, vendavais, enchentes e deslocamentos urgentes.

Para o desenvolvedor, ter um estoque básico em casa ou uma mochila pronta não é sinal de paranoia, mas de autonomia e tranquilidade diante daquilo que é imprevisível.

E mais: saber que não vai faltar água, comida ou uma lona para o telhado funciona como um suporte psicológico pra enfrentar a crise.

Entre a prevenção e a consciência climática, a plataforma tem uma variedade de usos

Para cidades costeiras como as da Baixada Santista, que convivem com um território marcado por encostas, áreas de mangue, ocupação urbana desigual e episódios recorrentes de chuvas fortes, alagamentos e deslizamentos, ter tudo isso reunido em um só lugar não é só útil, mas essencial.

Gestores públicos podem ter esse apoio ao planejamento; equipes de Defesa Civil, como referência para prevenção e comunicação de risco; jornalistas, como fonte de contexto para coberturas climáticas; e moradores comuns, como uma ferramenta de consulta rápida para tomar decisões informadas quando precisarem.

Homens em uniformes da Prefeitura de Santos carregam galhos de árvores em uma caminhonete Toyota Hilux após corte.Foto: Henrique Teixeira/Defesa Civil de Santos-PMS

Além do site, agora o Preparação Civil envia alertas no Telegram, para fazer as informações circularem por grupos de bairro, condomínios, escolas e comunidades.

Quando começamos a antecipar riscos, melhoramos nossa cultura de prevenção, o que ainda é pouco frequente no país. Em regiões densamente povoadas e vulneráveis, como a nossa, esse é um ato de proteção coletiva.

“Gostaria de atingir o máximo de pessoas possível, para que a gente tenha um um universo de brasileiros que saibam como se preparar. Eu acho que é um crescimento exponencial. Imagina que uma pessoa numa área de de risco aprende se preparar com o projeto hoje e, amanhã, ela conversa com os vizinhos e já explica para eles sobre os riscos de deslizamento”, diz o criador do site. 

Tecnologia a serviço da vida cotidiana

Olhar de forma analítica para essas fatalidades pressupõe que as cidades brasileiras mudem seu jeito de pensar.

Com criatividade e tecnologia, a solução do Preparação Civil oferece orientação e incentiva a circulação de informação entre moradores de uma mesma localidade. E vira um apoio prático para essa realidade que já vivemos, na qual a crise climática faz parte da rotina.

Aqui no litoral de São Paulo, onde a relação com o território é marcada tanto pela beleza natural quanto pela vulnerabilidade urbana, se preparar pode ser uma das formas mais inteligentes de reduzir danos nas nossas comunidades e proteger vidas.

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