Escolástica Rosa, o elefante branco da orla de Santos
Um dos terrenos mais cobiçados da orla de Santos guarda uma história que começa com um testamento de 1899. E o futuro desse patrimônio ainda levanta muitas perguntas
Aquela faixa de areia que hoje é o metro quadrado mais cobiçado da cidade nem sempre foi assim. Durante boa parte da história santista, era o Centro que concentrava gente, dinheiro e movimento. O próprio hábito de tomar banho de mar só virou moda entre os santistas lá pelos anos 1920 e 1930. Antes disso, a praia era paisagem, não endereço.
Foi o Plano Diretor de 1968 que contribuiu para essa equação. Ao proibir moradias no Centro Histórico, ele empurrou o mercado imobiliário para a Zona Leste, e a orla começou a receber os prédios que se tornariam sua marca registrada. Com o tempo, aquelas construções tortas viraram símbolo da cidade, curiosidade internacional e até motivo de piada. Há um causo famoso envolvendo o vocalista Andi Deris, da banda Helloween, que jurava estar bêbado ao avistar os edifícios inclinados da orla santista numa passagem pela cidade nos anos 2000.
Os prédios tortos, então, se tornaram padrão. E quando existe um padrão, qualquer coisa que escapa dele chama atenção na mesma proporção.
É o caso do Instituto Dona Escolástica Rosa, um complexo arquitetônico que ocupa um dos poucos terrenos da orla ainda não engolidos por uma torre. Ele está lá, de portas fechadas, na Avenida Bartolomeu de Gusmão, 111, em frente à praia, resistindo ao redor de tudo o que cresceu à sua volta.
Foto: Flávia Saad para Juicy Santos
E se você já se perguntou por que aquele terreno nobre nunca virou mais um espigão, a resposta começa em um testamento escrito há mais de 125 anos.
O filho que a cidade quis esquecer de onde veio
Para entender o Escolástica Rosa é preciso primeiro entender quem foi Escolástica Rosa de Oliveira, mulher negra, ex-escravizada, nascida no século XIX em Santos.
Escolástica teve um filho fruto de um relacionamento com o conselheiro João Otávio Nébias, figura de uma das famílias mais tradicionais da cidade. O menino, batizado João Otávio dos Santos, nasceu em 8 de março de 1830 e cresceu sob o apadrinhamento da família paterna, que enxergou nele uma inteligência fora do comum para os negócios.
Foto: Acervo Santa Casa
Foi o próprio padrinho quem o encaminhou ao comércio, entre importação e exportação. Ali, João Otávio construiu uma fortuna sólida, comprando seu primeiro imóvel em Santos em 1855 e se tornando, ao longo das décadas, um dos homens mais influentes da cidade. Ele ocupou o cargo de provedor da Santa Casa de Misericórdia de Santos por duas gestões, entre 1875 e 1878 e depois entre 1883 e 1896, período em que direcionou parte de seus recursos para instituições de caridade e sindicatos da região.
Chegou aos 69 anos sem esposa e sem herdeiros diretos. E foi ali que ele decidiu transformar toda uma vida de acúmulo em um único gesto.
Um testamento escrito para não ser esquecido
Em 12 de dezembro de 1899, João Otávio ditou seu testamento ao amigo e futuro testamenteiro Júlio Conceição. O documento determinava que, com sua herança, fosse erguida uma escola para meninos órfãos ou de famílias pobres, entre nove e quatorze anos, em regime de internato.
Ele batizou a instituição de Instituto Dona Escolástica Rosa, em homenagem à mãe, no terreno onde havia crescido.
O testamento reservava 45 imóveis para custear, por meio dos aluguéis, a alimentação, a saúde, a hospedagem e as roupas dos alunos. A ideia era que a instituição funcionasse de forma perpétua, sem depender de repasses externos. Além disso, o documento deixava valores para outras entidades, como o Asilo de Órfãos da cidade, e legados menores para sobrinhos, afilhados e empregados.
Estátua em homenagem a João Otávio nos jardins da praia de Santos, em frente ao prédio do Escolástica Rosa/Foto: Flávia Saad
João Otávio faleceu em 9 de julho de 1900. E foi só então que a verdadeira briga em torno de sua vontade começou.
A escola quase nasceu em outro endereço
Antes de qualquer tijolo ser assentado, Júlio Conceição sugeriu instalar o instituto nas dependências do Hotel Internacional, no José Menino. A justificativa oficial era prática: o prédio já existia e a região era considerada mais salubre.
O terreno da Ponta da Praia, escolhido por João Otávio em vida, cortava um curso d’água conhecido como Rio Conrado, o que levantava dúvidas sanitárias legítimas. A Comissão de Saneamento de Santos, então liderada por Saturnino de Brito, chegou a ser consultada e recomendou obras de aterramento e canalização, sem descartar o local.
Foto: Novo Milênio/Monografia de Júlio Conceição
Enquanto isso, corria pela cidade um boato sobre o próprio testamenteiro. Júlio Conceição era dono de outro hotel, o Balneário, e alguns santistas da época levantaram a suspeita de que ele pretendia eliminar um concorrente ao empurrar a escola para longe do José Menino.
A comissão da Santa Casa, responsável por administrar a herança, decidiu honrar a vontade original de João Otávio. O terreno da Ponta da Praia venceu a disputa, ainda que precisasse de obras de saneamento antes de receber a construção.
Um projeto grande demais para passar despercebido
Coube ao renomado escritório de Ramos de Azevedo desenhar o instituto, com execução entregue aos irmãos Del Débio. O estilo escolhido foi o neocolonial, com pátios amplos e janelas generosas, pensado dentro dos preceitos higienistas que dominavam a arquitetura escolar da época.
A obra levou anos. Somente em agosto de 1904 ficou definido o orçamento final, que somou 458 contos de réis (aproximadamente R$25 milhões hoje em dia). O valor incluía desde a alvenaria até os acabamentos mais refinados de um prédio que deveria durar por muito tempo.
Antes mesmo da inauguração, Júlio Conceição decidiu eternizar a memória do amigo dentro do próprio pátio. Em 1905, contratou o escultor italiano Amadeo Zani para erguer um monumento em granito, onde depositou os restos mortais de João Otávio ao lado de uma urna com jornais e moedas da época. A cerimônia aconteceu em 20 de outubro de 1907, um ano antes de o prédio abrir as portas.
O dia em que a orla ganhou uma escola
O Instituto Dona Escolástica Rosa foi inaugurado em 1º de janeiro de 1908, oito anos depois da morte de seu fundador. A cerimônia foi presidida pelo juiz Primitivo de Castro Rodrigues Sette e contou com discurso de um descendente da tradicional família Andrada e Silva.
Foto: Fundação Arquivo e Memória de Santos (FAMS)
O primeiro diretor nomeado foi Francisco Xavier Moretz-Sohn, ex-diretor de outra instituição educacional em Campinas. Ao seu redor, montou-se um corpo de funcionários que incluía professores, médico, dentista, mestre-alfaiate, mestre-sapateiro e até mestre-cozinheiro.
Ao longo das primeiras décadas, o Escolástica Rosa ofereceu cursos como artes gráficas, datilografia, corte e costura, carpintaria naval e eletrotécnica. Um nome se destacou nessa fase inicial: o professor Artur Porchat de Assis, lembrado como um dos diretores que mais se dedicou à instituição.
Quando Santos formou seus primeiros técnicos do país
Em 18 de dezembro de 1933, o interventor federal Armando de Sales Oliveira decidiu transformar o instituto em Escola Profissional Secundária Mista, agora aberta também a meninas. A gestão passou da Santa Casa para o Estado, e Santos entrava para a história como uma das primeiras cidades do Brasil a ter um curso técnico profissionalizante oficial.
Foto: Memória Santista
O comendador Pedro Crescenti assumiu a direção em 1934 e ficou vinte anos no cargo, um recorde que o transformou em um dos nomes mais lembrados da trajetória da escola. Sob sua gestão, o prédio original de traço neocolonial ganhou arcadas e circulações fechadas em estilo mais próximo do barroco.
Em 1955, a escola já reunia mais de dois mil alunos entre os cursos ginasial diurno, noturno e técnico. O prédio seguiu sofrendo reformas ao longo das décadas seguintes, até que parte da estrutura deu lugar à Etec Aristóteles Ferreira e, mais tarde, ao antigo internato, desativado em 1981, coube abrigar a primeira faculdade pública da Baixada Santista, a Fatec, inaugurada em 1987.
A partir de 2004, o Centro Paula Souza incorporou a unidade ao chamado campus Santos, reunindo Etec e Fatec sob a mesma administração estadual.
O silêncio que tomou conta da fachada
Foi justamente nesse período de gestão compartilhada que o prédio começou a mostrar sinais de abandono. A manutenção, que deveria caber à Santa Casa como proprietária do imóvel, não acompanhou o ritmo da deterioração.
Em 28 de maio de 2015, a Defesa Civil de Santos já apontava risco iminente de colapso das edificações. O alerta não bastou para mudar o rumo das coisas. Em 2018, vistorias do Ministério Público do Trabalho constataram condições inseguras o suficiente para justificar a saída da Etec, e a Santa Casa, sem verba para as reformas exigidas, rescindiu o contrato de locação com o Centro Paula Souza. A desocupação se efetivou em meados de 2019, encerrando um ciclo de mais de um século de uso educacional ininterrupto naquele endereço.
Um homem que dedicou sua fortuna inteira a garantir educação gratuita para jovens pobres por gerações provavelmente não imaginava que, mais de 100 anos depois, sua obra ficaria de portas fechadas, olhando para o mar que ele nunca chegou a ver de dentro daquelas janelas amplas que Ramos de Azevedo desenhou para deixar a luz entrar.
Foto: Flávia Saad
Mas agora você deve estar se perguntando: como um terreno daquele tamanho fica abandonado por tanto tempo sem sofrer com a especulação imobiliária, logo na orla da praia?
Bom, é aqui que a história começa a ficar um tanto quanto confusa.
Um terreno grande demais para ficar vazio por acaso
O Centro Paula Souza precisou desocupar o bloco principal por falhas estruturais, mas nunca saiu de fato do terreno. Ali ao lado, a Etec Aristóteles Ferreira segue funcionando normalmente, ocupando parte do mesmo complexo. Já as turmas da Etec Escolástica Rosa foram realocadas desde o primeiro semestre de 2019 para um prédio na Avenida Senador Feijó, 340, no Centro da cidade, longe da vista para o mar que originalmente pertencia aos alunos.
Em nota para o Juicy Santos, o Centro Paula Souza confirmou que está elaborando um edital de chamamento público voltado a interessados em uma permuta do terreno onde hoje funciona a Etec Aristóteles Ferreira.
Na prática, isso significa que toda a área do Escolástica Rosa pode ficar vaga em breve, incluindo o pedaço que ainda mantém alguma atividade escolar (guarde essa informação). E é justamente esse tipo de movimento que costuma dar um friozinho na barriga de quem acompanha o histórico de especulação imobiliária na orla santista.
Dona do bem ou só uma zeladora com contrato vitalício
Um ponto que ajuda a entender toda a novela jurídica costuma passar despercebido. Segundo a advogada Ana Lúcia Augusto, presidente da Comissão de Estudos em Família e Sucessões da OAB-Santos, a Santa Casa nunca foi, tecnicamente, dona absoluta daquele patrimônio.
João Otávio distribuiu parte de seus bens de forma direta, com imóveis para sobrinhos e valores em dinheiro para antigos empregados. Mas o grosso da herança foi destinado especificamente à criação do instituto que homenagearia a mãe, “permanecendo a Santa Casa responsável pelo cuidado e zelo destes bens dentro dos limites estabelecidos por João Octávio”, explica a advogada. O testamento deixa claro que os bens não usados na construção do prédio deveriam gerar renda para custear a manutenção da escola, indefinidamente.
Ou seja, a Irmandade sempre funcionou como uma espécie de zeladora de longuíssimo prazo, não como proprietária livre para vender, permutar ou redirecionar recursos como bem entendesse.
Isso levanta uma dúvida óbvia: como a Justiça consegue aplicar hoje, no século XXI, uma vontade escrita em 1899?
Para Ana Lúcia, a resposta passa por dois princípios que caminham juntos, a segurança jurídica e a interpretação evolutiva. O testamento continua válido porque, se não fosse assim, “correríamos o risco de criar situação de insegurança nas relações” em qualquer negócio jurídico do passado.
Ao mesmo tempo, a interpretação evolutiva permite adaptar os meios sem trair o objetivo original. A advogada usa um exemplo hipotético para ilustrar: se o testamento previsse recursos para manter cavalos de transporte dos alunos, a finalidade “levar os alunos à escola” se preservaria hoje por meio de transporte moderno, não literalmente com cavalos.
Quando vender o patrimônio virou o problema
Dos 45 imóveis originalmente doados por João Otávio, ainda restavam 44 até a década de 1950. Boa parte foi vendida entre os anos 1980 e 1990, sobrando apenas 17.
Foi justamente sobre esses imóveis remanescentes que o Ministério Público de São Paulo decidiu debruçar-se em julho de 2021, ao ajuizar uma Ação Civil Pública contra a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Santos. A Promotoria pediu a determinação judicial para reforma e restauro do prédio histórico, além de questionar para onde estava indo a renda gerada pelos aluguéis daqueles bens.
Para Ana Lúcia Augusto, o cerne da disputa nem é quanto sobrou do patrimônio, mas se havia respaldo jurídico para vender qualquer parte dele.
“É justamente nesse ponto que a discussão sobre os imóveis se torna relevante: se eles foram destinados como patrimônio permanente do Instituto. É necessário verificar, em cada alienação, se havia fundamento jurídico para a venda e o que foi feito com os recursos obtidos”, resume a advogada.
A explicação técnica está no tipo de herança deixada por João Otávio. Como os imóveis foram entregues sob a forma de legado com encargo, categoria que vincula o recebimento do patrimônio ao cumprimento de uma finalidade específica, aceitar a herança significa aceitar automaticamente a obrigação atrelada a ela. Isso limita, na teoria, a liberdade da Santa Casa para negociar esses bens como parte de um patrimônio livre.
Foto: Flávia Saad
O Código Civil brasileiro, segundo a advogada, “destina ao Ministério Público a obrigação de fiscalizar as Fundações observando eventual desvio de finalidade”, podendo inclusive exigir prestação de contas. Se ficar comprovado que a Santa Casa não cumpriu com o que lhe cabia, o administrador pode ser afastado judicialmente.
E, nesse cenário, os imóveis remanescentes não iriam para herdeiro nenhum, já que João Otávio não deixou descendentes:
“Os imóveis que restam devem continuar a este serviço e a manutenção da atividade educacional a ele destinada”, afirma Ana Lúcia.
Existe, claro, uma zona de interpretação mais flexível, e a própria advogada reconhece isso ao comentar a exigência original de aceitar apenas meninos, superada há décadas, e o convênio firmado com o Estado em 1933, que já representava uma adaptação da estrutura original às leis educacionais da época.
“A adaptação no tempo tem que manter a ideia principal do testador”, pontua.
Para ela, alugar ou arrendar partes do terreno para atividades comerciais não seria, por si só, desvio de finalidade, desde que toda a renda gerada volte para a manutenção do instituto.
Um segundo processo, agora com a cidade inteira
Paralelamente a essa disputa sobre os imóveis, corre uma segunda Ação Civil Pública, movida pelo Ministério Público na 1ª Vara da Fazenda Pública de Santos, dessa vez colocando não só a Santa Casa, mas também o Estado de São Paulo e o Município de Santos como réus. O foco aqui não é o destino dos aluguéis, mas a obrigação de restaurar o próprio conjunto arquitetônico tombado.
A linha do tempo ajuda a entender por que o caso demorou tanto para chegar a esse ponto. O conjunto foi tombado no âmbito municipal em 25 de janeiro de 1992, pelo Condepasa, e depois também na esfera estadual, em 7 de agosto de 2013, pelo Condephaat. Ainda assim, como já mencionado, o alerta da Defesa Civil sobre risco de colapso veio em 2015, e só em 2019 o prédio foi finalmente desocupado.
Diante desse quadro, o MP pediu duas coisas na Justiça: que ninguém pudesse mexer no prédio sem autorização prévia dos órgãos de patrimônio, e que Santa Casa, Estado e Município apresentassem, em conjunto, um projeto de restauro integral. A liminar concedida seguiu essa linha, e o Tribunal de Justiça de São Paulo ajustou os termos posteriormente, definindo que cabe preferencialmente à Santa Casa elaborar o projeto, mas sem tirar do Estado e do Município a responsabilidade solidária pelo custeio e pela execução das obras.
Na defesa apresentada, a Santa Casa alegou crise financeira grave e destacou que o Estado ocupou o imóvel por mais de 80 anos sem investir na manutenção adequada.
O Estado, por sua vez, argumentou que o prédio é propriedade privada da Irmandade e que sua responsabilidade seria apenas subsidiária.
Já o Município tentou sair do processo alegando que não tinha obrigação legal de custear reforma em imóvel de terceiros, mas a Justiça manteve a Prefeitura como parte, reforçando que o dever constitucional de proteger patrimônio histórico local não desaparece só porque o imóvel é particular.
O que a Prefeitura diz sobre o medo do concreto
Diante da desconfiança recorrente entre quem acompanha o caso, de que aquele terreno nobre poderia um dia virar mais uma torre na orla, a Prefeitura de Santos foi procurada diretamente sobre essa possibilidade.
A resposta foi taxativa quanto à demolição. Segundo o município, o duplo tombamento, municipal e estadual, torna inviável qualquer intervenção que descaracterize o conjunto, já que qualquer mudança precisa passar pela aprovação do Condepasa e do respectivo órgão estadual. Não há, portanto, brecha legal simples para um destombamento motivado por deterioração ou alegação de falta de recursos por parte da Santa Casa.
Sobre o estado atual das obras, a Prefeitura afirmou que existe projeto aprovado para a restauração do bem e que os trabalhos já estão em andamento, com acompanhamento técnico periódico da equipe municipal responsável por bens tombados. Ao mesmo tempo, a Administração informou que ainda não recebeu nenhum projeto formal sobre a ocupação futura do espaço, o que precisará ser submetido à aprovação antes de qualquer uso ou adequação interna ser autorizado.
Vago na prática, ocupado no papel
Depois de anos de audiências públicas, ações judiciais e um prédio cada vez mais deteriorado à beira-mar, a Santa Casa apresentou sua resposta para o impasse. E ela veio de um lugar que ninguém em Santos esperava: o mundo dos tubarões.
Em novembro de 2021, a Irmandade fechou um contrato de locação de 15 anos, renováveis por mais 15, com o Núcleo de Pesquisa e Estudo em Chondrichthyes (Nupec). Pelo acordo, a Santa Casa transferiu ao núcleo a responsabilidade por recuperar o complexo projetado por Ramos de Azevedo, fechado desde 2019, em troca do direito de explorar comercialmente parte daquele espaço nobre da orla. No papel, o problema estava resolvido. Na prática, era só o começo de mais uma etapa de promessas.
Antes de chegar ao que de fato saiu do papel, vale entender o que é essa organização que assumiu um dos maiores desafios patrimoniais da cidade.
Quem cuida de tubarão também sabe cuidar de patrimônio
O Nupec é uma entidade científica sem fins lucrativos sediada em Santos, dedicada ao estudo e à conservação de peixes cartilaginosos como tubarões, raias e quimeras. À frente do núcleo está o biólogo, veterinário e arqueólogo Manoel Mateus Bueno Gonzalez, nome que soma décadas de pesquisa em ecologia e biologia reprodutiva de elasmobrânquios ao longo da costa sul e sudeste do país.
Ao longo de décadas, o núcleo reuniu a maior coleção particular de elasmobrânquios do país, um acervo tão relevante que parte dele, mais de 5 mil exemplares, acabou doado ao Museu Oceanográfico da Univali, em Balneário Piçarras, garantindo preservação permanente para a comunidade científica.
O trabalho não se limita à biologia marinha. O Nupec também atua em zooarqueologia, investigando como populações pré-históricas da Baixada Santista usavam dentes e ossos de tubarão em ferramentas, armas e rituais funerários, em sambaquis com até cinco mil anos de história. Em parceria com o Centro Regional de Pesquisas Arqueológicas, o Cerpa, o núcleo já participou do mapeamento de naufrágios na costa santista, incluindo a identificação do veleiro inglês Kestrel, encalhado em 1895.
Currículo técnico não faltava, portanto. O que restava provar era se esse conhecimento se traduziria, de fato, em pedra e cal sobre a orla.
O plano no papel e o prédio que segue fechado
Pelo contrato assinado com a Santa Casa, o Nupec assumiu o compromisso de restaurar o complexo tombado, com investimento estimado entre R$ 50 milhões e R$ 77 milhões ao longo de cinco anos de obras civis. O plano previa converter o conjunto de 14 mil m² em um polo científico e cultural com pelo menos quatro museus, entre ciências naturais, paleontologia, arqueologia e o Museu da Cidade de Santos, além de centro de convenções, praça de alimentação e espaços para cursos de capacitação.
A última grande cobertura da imprensa regional sobre o avanço do projeto aconteceu em maio de 2024, quando veículos de notícia de Santos detalharam o início das primeiras etapas físicas e arqueológicas da obra, sob comando do escritório To Fix Arquitetura. Na ocasião, foi anunciado formalmente o cronograma de cinco anos, com execução em fases até 2029, incluindo a demolição de estruturas não originais anexas ao fundo do terreno para readequação do espaço.
Um prazo, uma solução e uma coincidência de datas
Vale reparar num detalhe que passa despercebido quando se olha para as datas isoladamente.
A liminar que obrigou a Santa Casa a apresentar um projeto de restauro saiu em julho de 2021, dando à Irmandade um prazo de nove meses para entregar o documento, sob multa diária de R$ 5 mil em caso de descumprimento. Foi dentro dessa janela, em novembro daquele mesmo ano, que a Santa Casa anunciou o contrato de locação de 15 anos com o Nupec.
Coincidência ou não, a cronologia pode ajudar a entender por que aquele acordo específico, entre tantas possibilidades de parceria que poderiam ter surgido para tocar a restauração de um prédio tombado, chegou tão rápido à mesa da Santa Casa.
Amigos antes de serem parceiros de contrato
Em 31 de janeiro de 2025, quase quatro anos depois de assinado, o contrato entre Santa Casa e Nupec foi rescindido. O próprio provedor da Santa Casa, Ariovaldo Feliciano, resumiu a relação em poucas palavras: “o Gonzalez é meu amigo”. Segundo ele, a rescisão foi amigável e consensual, já que o projeto estava parado havia mais de um ano.
O detalhe da amizade não é ilegal nem, por si só, prova de irregularidade em nada do que foi feito. Mas ele levanta uma pergunta natural para quem acompanha o caso: quantas outras entidades foram consultadas antes da Santa Casa fechar com o Nupec e por que essa parceria específica avançou tão rápido dentro do prazo estipulado pela Justiça?
O Juicy Santos procurou tanto a Santa Casa quanto o Nupec para perguntar diretamente sobre os critérios usados na escolha da parceria e sobre os motivos por trás da rescisão do contrato. Até o momento da publicação, nenhuma das duas partes respondeu.
Quem é o homem por trás do Nupec
Manoel Mateus Bueno Gonzalez, o nome à frente do Nupec, é biólogo formado pela PUC-SP em 1995, com doutorado em Arqueologia pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, concluído em 2005, e pós-doutorado no Muséum National d’Histoire Naturelle de Paris, em 2009. Foi na França que desenvolveu parte de sua pesquisa mais citada, analisando isótopos e anéis de crescimento em otólitos de peixes encontrados no Sambaqui de Piaçaguera, em Cubatão, contribuindo para novas hipóteses sobre a ocupação humana no litoral paulista há cerca de cinco mil anos.
Ele é filho de Maneco Perneta, um dos nomes mais lembrados da história do jogo do bicho na Baixada Santista.
Maneco chegou a Santos em 1929, vindo da Espanha ainda jovem e começou a atuar como banqueiro do jogo do bicho em 1939, aos 18 anos, tornando-se um dos pioneiros da atividade na região.
A história do pai rendeu a Gonzalez o posto de patrono da escola de samba Unidos dos Morros, que o homenageou no enredo “O Bicho Nosso de Cada Dia, um jeitinho brasileiro de sonhar”, no Carnaval de Santos de 2026.
Em entrevista ao jornalista Eduardo Silva, no programa Papo de Samba, Gonzalez falou sobre o pai:
“Ele começou aqui em Santos com o jogo (do bicho) quando tinha 18 anos, em 1939. Então, daqui a pouco, vai ser uma empresa centenária que a família continua tocando, gerindo com toda a maestria que o Seu Maneco deixou.”
Resumindo, a Santa Casa fechou um contrato milionário para restaurar um patrimônio histórico com o amigo de seu próprio provedor.
Gonzalez chegou a conseguir autorização para buscar até R$ 33 milhões via leis de incentivo fiscal, como a Lei Rouanet, uma fatia considerável dos R$ 50 milhões a R$ 77 milhões estimados para a obra inteira, mas o valor não foi captado, segundo registros na plataforma SALIC Comparar, do Ministério da Cultura, pesquisadas pelo Juicy Santos em outubro de 2026. Faltou patrocínio empresarial, faltou apoio político e o próprio Gonzalez reconheceu a lacuna ao comentar a rescisão:
“O Nupec está procurando um local no Centro de Santos para desenvolver tudo o que seria desenvolvido no Escolástica Rosa.”
Só que esse local ainda não apareceu. Procurados pela reportagem, nem Gonzalez nem a Santa Casa se pronunciaram sobre o que de fato aconteceu com o projeto e com os recursos que chegaram a ser autorizados. E o Escolástica Rosa, mais uma vez, seguiu exatamente onde sempre esteve nos últimos anos: fechado, deteriorado e longe da reforma que precisa.
Enquanto isso, a ideia da farda ganhava força
Com o Nupec fora da jogada, novas propostas começaram a circular para o destino do prédio. Uma delas veio da deputada federal Rosana Valle, que levou ao provedor da Santa Casa e ao até então secretário estadual de Segurança Pública, Guilherme Derrite, a ideia de transformar o Escolástica Rosa em uma escola de formação militar, com apoio declarado do governador Tarcísio de Freitas. A proposta ganhou reforço do vereador Alisson Sales e do deputado estadual Tenente Coimbra, nomes já conhecidos por defender esse modelo de ensino na Baixada Santista havia anos.
A ideia chegou a uma audiência pública em 26 de março de 2025, que colocou na mesa três caminhos possíveis para o prédio: restaurar sem definir o uso final, implantar ali um colégio militar, ou trazer um campus de Instituto Federal. A discussão terminou sem consenso e com direito a tumulto, incluindo interrupções de estudantes contrários à proposta militar e um episódio em que a saída da ex-prefeita de Cubatão, Márcia Rosa, teria terminado com uma porta quebrada.
Um ponto levantado na audiência pela arquiteta Jaqueline Fernández Alves, especializada em patrimônio, resume bem o problema de fundo que atravessa toda essa história havia anos:
“Se o projeto de restauro já está pronto é porque o uso específico e seu programa de necessidades também está.”
Ou seja, decidir a forma antes de decidir a função inverte a lógica básica de qualquer restauro patrimonial sério.
A obra finalmente começou, mas ninguém diz para quê
Passado mais um ano e meio da audiência, algo mudou de fato na paisagem da Avenida Bartolomeu de Gusmão. Em setembro de 2026, as obras de restauro começaram, sob execução da To Fix Arquitetura, escritório do arquiteto Gustavo Nunes, já responsável por revitalizações de imóveis protegidos no Centro de Santos.
O financiamento, dessa vez, não veio de leis de incentivo cultural nem de uma associação de biólogos. Segundo o próprio Nunes revelou em entrevista a uma rádio local, o investimento de cerca de R$ 70 milhões partiu do T-Grão, terminal portuário privado especializado em armazenamento e expedição de grãos como soja, milho e farelo.
Foto: Flávia Saad
A pergunta óbvia é qual seria a contrapartida de um investimento desse porte e para que o Escolástica Rosa vai servir depois de pronto. Nem o T-Grão nem Gustavo Nunes responderam a essas perguntas até a publicação desta reportagem.
Já o secretário municipal de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Sustentabilidade, Glaucus Farinello, confirmou que o que está em andamento por enquanto é apenas o projeto de restauro da fachada e da estrutura, sem qualquer projeto de ocupação anexado. Segundo ele, quando o grupo responsável apresentar a proposta de uso futuro, seja escola, espaço gastronômico ou centro cultural, ela precisará passar novamente pela aprovação do Condepasa. Até lá, restauro e ocupação seguem sendo, nas palavras do próprio secretário, “momentos distintos”.
A boa notícia, e a má notícia escondida atrás do prédio
Se existe um medo recorrente entre quem acompanha esse imóvel há anos, é o de que ele um dia vire mais uma torre na orla. Nesse ponto específico, dá para respirar aliviado: por estar tombado tanto pelo Condepasa quanto pelo Condephaat, o Escolástica Rosa não pode ser totalmente demolido e as obras em andamento reforçam essa proteção. Santos, pelo menos ali, não vai perder mais um pedaço da orla para o concreto.
Só que a boa notícia vem acompanhada de uma má e ela mora bem atrás do prédio principal.
O Centro Paula Souza já havia sinalizado que buscava uma permuta para o terreno onde funciona a Etec Aristóteles Ferreira, nos fundos do complexo. Segundo denúncia que chegou ao gabinete da vereadora Débora Camilo, depois da aprovação do projeto que praticamente extinguiu as ZEIS em áreas estruturadas da cidade em dezembro, um terreno na Avenida Ana Costa acabou nas mãos de uma construtora santista. Essa mesma construtora já teria contato avançado com o Centro Paula Souza para assumir o edital de permuta assim que ele for publicado.
Na prática, isso significa que a Etec migraria para a Ana Costa, e o terreno hoje ocupado por ela, colado ao Escolástica Rosa, se tornaria disponível para receber mais uma torre residencial na orla, por exemplo.
O Escolástica Rosa vai continuar de pé. Só que, se essa movimentação se confirmar, ele vai seguir de pé à sombra de mais um espigão, testemunhando de perto o mesmo processo que, desde o Plano Diretor de 1968, vem moldando a linha do horizonte de Santos.