Clique aqui e confira também nosso tema da semana

Entre a orla e o morro, crise climática revela desigualdades na Baixada Santista

As mudanças já são parte da rotina, mas seus impactos não chegam da mesma forma para todos

Tempo de leitura: 7 minutos

A crise climática deixou de ser um problema do futuro. Ela já faz parte do presente e seus efeitos aparecem cada vez com mais frequência nas cidades, enchentes, ondas de calor e na forma como esses impactos atingem as pessoas de maneira desigual.

E olha que a gente nem falou do que pode vir por aí. Especialistas já monitoram a possibilidade de um novo El Niño, fenômeno capaz de intensificar a seca em um lado do país e pesar a chuva em outro. Se isso se confirmar, a conta que a Baixada Santista já paga tende a ficar bem mais cara, principalmente para quem paga mais caro há mais tempo.

Foto: Carlos Nogueira/PMS

Quando o próximo temporal chegar, quem vai estar em casa filmando a chuva pela janela, e quem vai estar com água na cintura?

O que a pesquisa mostra sobre a região

Um levantamento recente do Instituto de Pesquisa Aerah House, feito com moradores de todo o Brasil, trouxe um dado que resume bem o momento. Cerca de 8 em cada 10 pessoas da Baixada Santista já sentem na pele os efeitos das mudanças climáticas. Onda de calor, enchente, seca. Coisa que, até pouco tempo, parecia distante, hoje bate na porta de casa.

Além disso, 7 em cada 10 moradores acreditam que o Brasil não está cuidando do meio ambiente do jeito que deveria.

O número importa porque muda o tom do debate. A conversa não é mais sobre se a mudança climática existe. É sobre como conviver com ela e se a cidade está preparada para o que já está acontecendo.

Na Baixada Santista, essa realidade tem nome e sobrenome: ressaca que avança sobre a orla, alagamento recorrente em bairros de cota baixa, calor que castiga quem trabalha na rua e o fantasma sempre presente da elevação do nível do mar.

O clima vira conta no fim do mês

Tem gente que ainda separa “meio ambiente” de “economia”, como se fossem dois assuntos que não se cruzam. Na prática, cruzam direto.

Seca prejudica a lavoura e empurra o preço da comida para cima. Enchente para o transporte, atrasa o trabalho e trava a rotina de quem depende de ônibus e VLT para chegar no emprego. Onda de calor lota posto de saúde com gente respirando mal ou com pressão alterada.

Ou seja, o clima não afeta só a natureza. Ele mexe direto no bolso, na saúde e na qualidade de vida de quem mora aqui.

E é justamente nesse ponto que a crise climática para de ser abstrata e vira um problema de desigualdade.

A Baixada tem duas versões, e o clima escolhe uma pra castigar mais

Quando falamos em Santos, a imagem que vem à cabeça é a orla. Seis quilômetros de jardim, prédio torto mas bem cuidado, ciclovia, mar batendo perto. Um dos points mais bonitos do litoral brasileiro, sem dúvida.

Só que essa Santos convive lado a lado com outra, menos fotografada.

Nos morros e nas áreas mais afastadas, boa parte da infraestrutura básica ainda deixa a desejar. Drenagem insuficiente, encosta sem contenção adequada, casa construída em área de risco. Somado a isso, chuva forte, que era só chuva forte, vira ameaça real de deslizamento.

Nos bairros de várzea e cota baixa, na Zona Noroeste, em partes de São Vicente, Cubatão e Guarujá, o alagamento chegou a virar quase tradição. Toda chuva mais intensa, a água invade casa, estraga móveis, contamina o ambiente e obriga famílias a recomeçar do zero.

Enquanto isso, na faixa de areia mais valorizada, o problema aparece de outro jeito: erosão costeira, ressaca que engole parte da praia, obra de contenção cara, mas que ao menos existe.

A diferença não está só na paisagem. Está em quem tem estrutura para se proteger e quem não tem.

Contrastes da cidade

Quem mora perto da orla costuma contar com prédio mais recente, saneamento funcionando, atendimento mais próximo em caso de emergência. Quem mora no morro ou em áreas periféricas enfrenta o mesmo temporal com menos rede de apoio, menos investimento acumulado ao longo dos anos e, muitas vezes, menos tempo de reação quando o risco aparece.

É o que especialistas chamam de justiça climática: a ideia de que os efeitos das mudanças no clima não atingem todo mundo com a mesma intensidade. Geralmente, quem menos contribui para o problema é quem mais sofre com ele.

Na Baixada Santista, essa lógica aparece com clareza. A orla concentra investimento público e visibilidade. As áreas de encosta e os bairros mais afastados do centro seguem, historicamente, com menos prioridade no orçamento da cidade.

Surf e crise climática 

Tem um grupo que enxerga as mudanças no mar antes de qualquer pesquisa sair no papel: o surfista.

Foi esse olhar que motivou o Instituto Ecosurf a lançar o Raio-X Ecosurf 2024-2025, levantamento inédito sobre como a comunidade do surfe percebe a crise climática, a poluição plástica e a saúde do Oceano Atlântico. O estudo entrevistou surfistas de 18 estados, reuniu 539 respostas válidas e mapeou 725 pontos de surfe no litoral brasileiro.

Na Baixada Santista, essa percepção tem terreno de sobra pra se confirmar. Com mais de 25 quilômetros de praia espalhados entre Santos, Guarujá, São Vicente, Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe, a região concentra um dos maiores núcleos de surfistas do litoral paulista, e também um dos mais expostos à erosão costeira.

Dá pra acompanhar os dados completos da pesquisa pela plataforma Observatório Ecosurf, disponível no perfil @ecosurfoficial, no Instagram.

Instabilidade gera ansiedade, e isso também é dado de pesquisa

Não é só a estrutura física que sofre. A sensação de imprevisibilidade também pesa no dia a dia de quem já vive sob pressão financeira e social.

Quando o temporal vira rotina e a resposta do poder público demora, a insegurança deixa de ser sobre o clima e passa a ser sobre o futuro como um todo. Planejar a vida fica mais difícil quando não dá para confiar que a próxima chuva forte não vai levar tudo de novo.

O que já existe e o que ainda falta

Vale reconhecer: a Baixada Santista não está parada. Santos tem investido em obras de macrodrenagem, sistemas de alerta da Defesa Civil e projetos de contenção de encosta em áreas críticas. A Prefeitura também mantém canais de monitoramento em época de chuva forte.

O ponto é que a velocidade da resposta ainda não acompanha a velocidade do problema. Do lado de fora, cidades como Rotterdam, na Holanda, e Cingapura viraram referência mundial em adaptação climática justamente por tratar drenagem, moradia e prevenção como parte de um mesmo projeto de cidade, e não como pauta isolada de meio ambiente.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) já reforça esse ponto em seus relatórios: adaptação eficiente depende de investimento equilibrado entre as diferentes regiões de uma mesma cidade, não só nas áreas mais visíveis.

Prosperidade também é estar preparado

Se tem um jeito de tirar essa conversa do campo abstrato, é lembrando que se preparar custa menos do que reconstruir depois do estrago.

Bairro com drenagem funcionando perde menos dia de trabalho. Família fora de área de risco gasta menos com prejuízo material. Cidade com sistema de alerta eficiente perde menos vidas quando o temporal chega.

Além disso, investir em adaptação climática não é gasto, é economia no médio prazo. E quanto mais cedo esse investimento chegar às áreas historicamente esquecidas, menor a distância entre a Santos da orla e a Santos que fica fora da foto.

Serviço

Em caso de temporal ou risco de alagamento e deslizamento, a Defesa Civil de Santos atende pelo telefone 199 (Bombeiros) ou 153 (Guarda Civil Municipal). A Prefeitura de Santos também disponibiliza boletins de monitoramento climático durante períodos de chuva intensa pelo site oficial da cidade.

Compartilhar
Vitor Fagundes
Texto por

Contato