Documentário sobre a Rodoviária de Santos participa de festival internacional de cinema
O que tem por trás desse prédio que muita gente só atravessa?
É sempre curioso como lugares do nosso dia a dia guardam memórias que a gente nem imagina. Quem já pegou um ônibus na Rodoviária de Santos talvez não saiba, mas o terminal acaba de se tornar protagonista de uma produção que está ganhando o mundo.
O documentário (Des)embarque – a luta de Cebola e outras histórias da Rodoviária de Santos foi selecionado para o Festival Internacional de Médias Metragens (Fim.Me).

Entre 18 filmes escolhidos para a mostra, a produção santista ganhou espaço em um evento híbrido, com sessões online e presenciais, e que reúne produções de Brasil, Colômbia e Portugal.
Essa notícia mostra como o olhar sobre as pequenas histórias locais pode alcançar diferentes territórios, dando visibilidade à nossa cultura e nossas histórias e trazendo à tona capítulos pouco conhecidos dessa jornada. Mas, afinal, qual é o papel da Rodoviária de Santos nesses encontros e partidas que marcaram (e marcam) tantas vidas?
Sobre trilhos e ônibus
A Rodoviária de Santos não é apenas um ponto de chegada ou saída para turistas e moradores. Fundada em dezembro de 1969, é, junto com as de Rio de Janeiro e Governador Valadares, uma das três mais antigas do país que seguem em atividade hoje.
Ao longo dos anos, esse espaço atravessou transformações sociais, políticas e arquitetônicas, sendo palco para acontecimentos que vão além do transporte rodoviário.
Mais do que chegadas e partidas, a rodoviária já viu de manifestações estudantis a artistas famosos e foi até apelidada de “a última estação do Brasil” numa época em que o terminal estava em declínio.
Além disso, a arquitetura moderna-brutalista da Rodoviária de Santos chama atenção por ser um exemplar desse movimento no Brasil. Esse estilo aposta em estruturas bem aparentes, uso do concreto e formas marcantes, mostrando que o prédio faz parte da paisagem urbana santista muito além das viagens diárias.
Cebola, ditadura e memórias de resistência
O filme (Des)embarque – a luta de Cebola e outras histórias da Rodoviária de Santos mergulha justamente nessas camadas pouco exploradas. Com direção de Nicole Zadorestki Caroti e Wagner de Alcântara Aragão, resgata lembranças que atravessam governos, transformações sociais e trajetória de personagens essenciais para entender a vida do terminal.
O documentário se constrói a partir da história de Jayme Rodrigues Estrella Júnior, conhecido como Cebola, nome que dá vida ao atual terminal. Ex-líder estudantil, Cebola enfrentou a dura repressão da ditadura militar, lutando pela autonomia político-administrativa de Santos.
Em 1985, acabou falecendo em razão das torturas sofridas dez anos antes, levando à tona debates profundos sobre resistência e memória.
Através dos relatos do filho de Cebola, José Pedro Nogueira Estrella, da então companheira Sandra Mara Nogueira Lisboa e do amigo Elver Savietto, o documentário também desenterra outras curiosidades: relembra a antiga TV Litoral, carinhosamente chamada de “TV da Rodoviária”, explora a arquitetura local e cria uma colcha de retalhos de memórias de passageiros e trabalhadoras que cruzaram seus caminhos por lá.
O festival Fim.Me surgiu para valorizar médias-metragens que não se enquadram nos grandes eventos de cinema, por seu tempo de duração. Essa é uma parceria entre instituições do Brasil, Portugal e Cabo Verde, como o Instituto Politécnico de Lisboa e a Fundação Servir Cinema, buscando recuperar espaço para esse tipo de produção.
Neste ano, o festival analisou 30 produções para selecionar apenas 18, incluindo o documentário santista, que agora concorre a prêmios internacionais como Melhor Média-Metragem Documental, Melhor Fotografia e Melhor Montagem, entre outros.
As sessões online vão rolar entre setembro e outubro no canal do Ficca no YouTube, enquanto as sessões presenciais acontecem em novembro, no Campus Bragança, do Instituto Federal do Pará (IFPA).
E esse feito coloca Santos no mapa de produções que pensam a linguagem e o ensaio documental para além de suas fronteiras geográficas.