Dia dos Professores: conheça educadores que marcaram Santos
De Telma de Souza a Benedito Calixto, professores contribuíram para a educação, a cultura e a vida pública da cidade.
Todo mundo precisa de alguém para aprender. O professor é sempre um personagem marcante na nossa vida, ele existe em diferentes culturas, atravessa gerações e aparece até na ficção. No Brasil, um dos exemplos mais conhecidos é o Professor Raimundo, de Chico Anysio, que passou décadas expondo o grande problema da profissão: “E o salário, ó!”

Foto: Reprodução
Professores são responsáveis pela formação de milhões de pessoas, mas a profissão ainda enfrenta baixos salários, condições de trabalho difíceis e falta de reconhecimento. E os sinais de alerta já aparecem nas estatísticas: segundo estimativa do Instituto Semesp, o Brasil poderá ter até 235 mil professores da educação básica a menos até 2040.
Em Santos, educadores ajudaram a construir a história da cidade. Alguns levaram a experiência em sala de aula para a política, enquanto outros se dedicaram à literatura, à pesquisa e à preservação da memória local. Neste Dia dos Professores, celebrado em 15 de outubro, separamos algumas dessas trajetórias.
Telma de Souza
Antes de se tornar a primeira mulher a ocupar a Prefeitura de Santos, Telma de Souza era professora. Pedagoga e advogada, ela construiu sua trajetória ligada à educação pública, à organização dos docentes e à defesa de direitos sociais.
Sua atuação no movimento sindical do magistério ajudou a consolidar uma visão de educação como instrumento de cidadania. Telma também participou da fundação do Partido dos Trabalhadores na Baixada Santista e iniciou sua trajetória parlamentar como vereadora, em 1982.

Foto: PT Santos
Em 1988, tornou-se a primeira prefeita da história de Santos. Durante sua gestão, promoveu mudanças na administração municipal e participou de iniciativas importantes para a cidade, como a reorganização do transporte coletivo e a criação do Centro de Referência em Aids, que se tornou referência no enfrentamento à epidemia.
Mais tarde, foi deputada estadual, deputada federal e voltou à Câmara Municipal. Em diferentes funções, manteve a defesa da educação pública, dos direitos humanos e das políticas sociais entre as pautas de sua trajetória.
A história de Telma mostra como a experiência de quem conhece a sala de aula pode influenciar decisões que afetam toda a população.
Maria Lúcia Prandi
Professora de História por formação, Maria Lúcia Prandi construiu uma trajetória que conectou a escola à política e à defesa dos direitos sociais. Nascida em Potirendaba, no interior paulista, adotou Santos como sua cidade e espaço de atuação.
Na rede pública de ensino, participou do movimento do magistério e atuou na Apeoesp, sindicato dos professores da rede estadual. A experiência ajudou a consolidar sua defesa da educação como ferramenta de emancipação e participação cidadã.

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Em 1992, elegeu-se vereadora em Santos e se tornou a primeira mulher a presidir a Câmara Municipal. Também foi secretária municipal de Educação, período em que trabalhou pela modernização pedagógica, pela valorização dos docentes e pela ampliação do acesso à educação infantil.
Sua trajetória continuou na Assembleia Legislativa de São Paulo, onde exerceu quatro mandatos consecutivos como deputada estadual entre 1994 e 2006. Depois, chegou à Câmara dos Deputados.
Maria Lúcia levou para a vida pública questões que atravessavam sua experiência como educadora. Seu legado ajuda a lembrar que discutir educação também significa discutir oportunidades, inclusão e o futuro da cidade.
Lúcia Maria Teixeira
A trajetória de Lúcia Maria Teixeira reúne diferentes frentes de atuação. Educadora, escritora e pesquisadora, ela se consolidou como uma das lideranças ligadas à educação e à produção cultural em Santos.
Filha de Milton Teixeira e Nilza Pirilo Teixeira, fundadores do Complexo Educacional Santa Cecília, Lúcia é doutora e mestre em Psicologia da Educação. Preside a Universidade Santa Cecília e o Colégio Santa Cecília, além de atuar na área de comunicação e na representação de instituições de ensino superior.
Sua contribuição também passa pelos livros. Na literatura infantojuvenil, escreveu obras como Tudo é Possível: Incrível Viagem no Tempo e O Segredo da Longa Vida. O primeiro foi apontado no material enviado como o primeiro livro infantil brasileiro traduzido para o japonês.
Outro eixo de seu trabalho é a pesquisa sobre Patrícia Galvão, a Pagu. Lúcia publicou uma trilogia sobre a escritora e ativista e organizou Os Cadernos de Pagu, lançado em 2023, a partir do resgate de manuscritos inéditos.
Em 2005, fundou o Centro de Estudos Pagu Unisanta, dedicado à preservação e à pesquisa de documentos históricos. Sua trajetória mostra que o trabalho de educar também pode acontecer por meio dos livros, da pesquisa e da conservação da memória cultural.
Benedito Calixto
Quando se fala em Benedito Calixto, é comum lembrar primeiro de suas pinturas, especialmente as marinhas e as representações históricas do litoral paulista. Nascido em Itanhaém e radicado em Santos, ele se tornou um dos nomes importantes das artes visuais e da historiografia brasileira.
Mas sua contribuição não se limitou às telas. Calixto também atuou como professor de desenho, artes e história, compartilhando conhecimentos com jovens estudantes e intelectuais da região.
Autodidata e interessado por diferentes áreas, trabalhou ainda com cartografia, fotografia, pesquisa histórica e astronomia amadora. Em suas atividades de ensino, utilizava técnicas de observação da paisagem e estudos históricos para aproximar os alunos da realidade ao redor.
A memória de Santos também atravessava suas aulas. Ao pesquisar a evolução urbana do litoral e registrar o patrimônio regional, Calixto ajudava a transmitir conhecimentos sobre a história e a identidade da cidade.
Seu exemplo amplia a ideia do que significa ser professor: ensinar também pode ser uma maneira de preservar a cultura e incentivar as novas gerações a olhar para o lugar onde vivem com curiosidade.
Júlio Ribeiro
Romancista, gramático, jornalista e professor, Júlio Ribeiro foi um intelectual de destaque no século XIX. Nascido no Rio de Janeiro, viveu em Santos durante um período importante de sua trajetória, quando atuou no magistério e participou dos debates sociais de seu tempo.
Na educação, trabalhou com Gramática, Literatura e Língua Portuguesa. Também publicou estudos sobre o idioma e defendeu uma abordagem rigorosa da linguagem, incentivando a leitura, a precisão da escrita e o pensamento autônomo.
Sua produção literária inclui A Carne, romance naturalista publicado em 1888 que provocou controvérsia na época. Além da literatura, Júlio Ribeiro defendia o abolicionismo e o republicanismo, levando questões sociais e políticas para o debate público.
Sua atuação ajuda a lembrar que o ensino nunca se limita à transmissão de conteúdos. A língua também é uma ferramenta para interpretar o mundo, questionar estruturas e participar da sociedade.
Quem mais faz parte dessa história?
A presença de professores na memória da cidade também aparece nos nomes de escolas municipais. Entre eles estão Emília Maria Reis, Florestan Fernandes, Iveta Mesquita Nogueira, João Papa Sobrinho, Maria Carmelita Proost Villaça, Maria de Lourdes Borges Bernal, Maria Luiza Alonso Silva, Mário de Almeida Alcântara, Orlando Adegas, Pedro Crescenti, Therezinha de Jesus Siqueira Pimentel e Waldery de Almeida.
Conhecer essas trajetórias ajuda a entender como educadores participaram da formação de diferentes gerações e contribuíram para o desenvolvimento de Santos.
A valorização da profissão também depende de medidas concretas, como remuneração adequada, estrutura nas escolas, formação continuada e políticas que tornem a carreira mais atrativa. Esses fatores influenciam tanto a permanência de quem já ensina quanto a possibilidade de formar as próximas gerações de professores.
Cada nome representa uma história que merece ser conhecida com mais profundidade. Afinal, a memória de uma cidade também é construída por quem ensinou seus moradores a ler, escrever, pensar criticamente e reconhecer o mundo ao redor.
Valorizar professores precisa ir além da homenagem
O Dia dos Professores é uma oportunidade para agradecer a quem marcou nossas vidas. Talvez seja aquela professora que percebeu uma habilidade antes de todo mundo, o professor que despertou o gosto por uma matéria ou alguém que ajudou um estudante a imaginar um futuro diferente.
Mas o reconhecimento não pode ficar restrito a uma data no calendário. A possibilidade de o Brasil enfrentar um déficit de até 235 mil docentes até 2040 reforça a urgência de discutir salários, condições de trabalho, formação e reconhecimento profissional.
Em Santos, as trajetórias de educadores que também transformaram a política, a cultura e a memória regional mostram a dimensão desse trabalho. Professores não apenas acompanham a história, muitas vezes, ajudam a mudar seu rumo.
E talvez a melhor homenagem seja justamente essa. Construir uma sociedade que valorize os professores durante o ano inteiro, não apenas quando chega 15 de outubro.