Telma de Souza, a força que floresce do povo
Ex-prefeita de Santos faleceu no dia 10 de outubro de 2026, aos 82 anos
Há nomes que não cabem apenas nas páginas frias dos livros de história, pois caminham vivos pelas ruas, habitam a memória coletiva e pulsam no peito das praças.
A trajetória de Telma de Souza é feita desse barro humano e resistente, onde a política deixa de ser um mero exercício de poder para se tornar um ato contínuo de amor, coragem e poesia popular.
Antes das tribunas, dos holofotes e dos grandes discursos, sua história foi forjada no chão batido da vida real, no ombro a ombro com a classe trabalhadora e na escuta atenta dos anseios das periferias.
Foto: PT Santos
Foi no tempo em que ousar sonhar era um ato revolucionário de resistência que sua caminhada se entrelaçou com os movimentos sociais e com as origens do Partido dos Trabalhadores. Sob o sopro do mar do Guarujá, em um encontro fundacional, no início dos anos 1980, marcado pela urgência de novos tempos, quatro mulheres corajosas assumiram a responsabilidade de erguer a comissão provisória do partido em Guarujá.
Dali em diante, a utopia ganhou pés e asas. Foram incansáveis as caminhadas de porta em porta, indo de casa em casa com a pasta debaixo do braço e o estatuto do partido na ponta da língua e no coração. Cada filiação conquistada não era um mero papel assinado, mas uma conversa demorada, um café coado com afeto e a certeza compartilhada de que o povo trabalhador podia e devia ser o protagonista do seu próprio destino.
A trajetória de Telma de Souza, ex-prefeita de Santos e figura marcante na política paulista, é um retrato expressivo dos desafios enfrentados pelas mulheres que ingressaram na política institucional em décadas passadas. Naquele período, o debate público e os conceitos formais de violência política de gênero e machismo estrutural ainda não possuíam o alcance, a visibilidade e a nomeação que a juventude atual conhece bem. O que hoje é identificado com clareza como misoginia, preconceito e silenciamento de gênero era, na época, enfrentado de forma solitária e naturalizado pela estrutura do poder.
Ao analisar a atuação política de Telma ao longo dos anos, identificam-se diversas manifestações desse cenário opressor. Em relatos sobre sua experiência parlamentar no Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa, Telma frequentemente apontava a necessidade de se adaptar a um ambiente predominantemente masculino para ser respeitada. A adoção sistemática de terninhos no início da carreira, em detrimento de saias ou vestidos, exemplifica a tentativa de se adequar a um estereótipo estético e comportamental imposto por um meio controlado por homens.
Foto: PT Santos
Além dos códigos estéticos, Telma enfrentou a contínua tentativa de invisibilização e descrédito de sua autonomia política. Em suas primeiras disputas eleitorais, sua capacidade política era frequentemente associada ao capital político de figuras masculinas da família, exigindo um esforço permanente para afirmar e consolidar sua liderança própria. No exercício dos mandatos legislativos, eram frequentes as interrupções de fala, o desdenho de suas propostas e o julgamento velado de que a presença feminina era sinônimo de fragilidade ou inaptidão para o debate público.
A resistência institucional ao seu protagonismo também descambou para agressões diretas. Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu em 1987, quando exercia o mandato de deputada estadual e chegou a registrar denúncia formal por ter sofrido agressão física por parte de assessores parlamentares no exercício da oposição. Na época em que ocupou a Prefeitura de Santos e outros cargos eletivos, atitudes como essa, além do silenciamento e da cobrança por comportamentos hipermasculinizados, eram tratadas simplesmente como “regras do jogo” ou “embate político tradicional”. A trajetória de Telma de Souza ajuda a exemplificar como a ausência de termos adequados e de leis protetivas obrigava as poucas mulheres eleitas a abrirem caminho em um ambiente estruturado para excluí-las.
Essa força comunitária desembocou em um marco inesquecível para a Baixada Santista: em 1988, Telma de Souza tornou-se a primeira mulher eleita prefeita de Santos para o mandato de 1989 a 1993.
A imagem de uma mulher negra no comando da cidade em tempos tão difíceis e desafiadores trouxe um sopro inestimável de representatividade, abrindo caminhos e mostrando que as estruturas de poder podiam ser rompidas. Ao lado de seu sucessor, o inesquecível médico sanitarista David Capistrano Filho, que governou entre 1993 e 1996, ergueu-se uma era de ouro na administração pública, pautada por uma gestão de afeto radical, ousadia ética e compromisso inegociável com a vida. Juntos, consolidaram políticas públicas moldadas com tal solidez e verdade que os governos que os sucederam, por mais que tentassem, jamais tiveram a coragem ou a força para exterminar.
Entre esses atos de coragem histórica, destaca-se a intervenção monumental no Hospital Anchieta, tragicamente conhecido como o “Centro de Horrores”. Em uma ação firme e profundamente humana, a gestão pôs fim ao pesadelo daquele manicômio, desmantelando a lógica da tortura institucionalizada e tornando Santos o berço da reforma psiquiátrica no Brasil, sob a premissa de que a dor humana se acolhe com liberdade e cuidado, e não com correntes. Da mesma forma revolucionária nasceram as Policlínicas, espalhando uma rede descentralizada de saúde pública que priorizava a dignidade e a atenção básica em cada bairro. Houve governos posteriores que tentaram apagar essa marca histórica alterando a nomenclatura oficial desses espaços, mas a alma da cidade foi mais forte: para o povo de Santos, o posto de saúde sempre foi e sempre será chamado de Policlínica, pois a população reconhece e protege a herança de quem cuidou de sua gente.
Foi também no seu governo que Santos se tornou pioneira no combate, que se tornou global, à epidemia de HIV/AIDS. Em uma época em que o pânico, a ignorância e o preconceito estigmatizavam e condenavam pessoas ao abandono, a gestão Telma enfrentou a crise de frente com compaixão e ciência, criando o primeiro programa municipal anti-Aids do país. Com distribuição inédita de preservativos, seringas e acolhimento humanizado aos soropositivos, a cidade deixou o trágico rótulo de “capital da Aids” para se transformar em modelo internacional de direitos humanos e saúde pública reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Ao mesmo tempo, na cidade, houve uma crescente efervescência cultural sem precedentes, na qual a cultura deixou de ser privilégio de elite para se tornar direito de todos. Os movimentos artísticos ocuparam praças, morros e cortiços, fortalecendo a identidade caiçara e comunitária, provando que alimentar a alma e a arte é tão essencial quanto alimentar o corpo.
Nesse pulsar de transformação, a juventude santista encontrou no governo de Telma não apenas voz, mas horizonte. Sabendo que o futuro se constrói no presente, a gestão abriu caminhos para que os jovens deixassem de ser meros espectadores para se tornarem sujeitos ativos da política e da cultura local. Nascia ali uma juventude irrequieta e consciente, estimulada pelo esporte nos bairros, pelos grêmios estudantis resgatados e pelas oficinas culturais que ocupavam as periferias. A rebeldia e a energia dos jovens ganharam espaço de escuta e participação, plantando na alma de toda uma geração o sentimento de pertencimento e o orgulho de ser santista. Telma provou que apostar na juventude é alimentar a chama viva da esperança e garantir que a luta por direitos nunca envelheça.
Em 28 de fevereiro de 1991, a prefeita de Santos, Telma de Souza, liderou uma histórica mobilização popular que reverteu a demissão sumária de 5.372 trabalhadores portuários pelo governo do presidente Fernando Collor de Mello. Santos parou numa mobilização histórica em defesa do Porto de Santos e de seus trabalhadores.
Além das transformações na infraestrutura, na saúde e na cultura, a presença de Telma no Palácio José Bonifácio foi o grande divisor de águas para a organização e a emancipação das mulheres santistas. Ao verem uma liderança com tamanha fibra no comando do município, milhares de mulheres compreenderam que o seu lugar era em todos os espaços de poder e de decisão.
Foto: Cidinha Santos
A fundação do pioneiro Fórum de Mulheres de Santos lançou as sementes do feminismo popular e da luta antirracista na cidade, gerando frutos duradouros que germinaram e se multiplicaram. Essa herança vive hoje no vigor dos diversos coletivos feministas, negros e sociais que ocupam as ruas da Baixada com altivez e voz própria.
A história de Telma de Souza é a prova viva de que quando a justiça social é plantada com coragem e amor ao povo, ela cria raízes tão profundas que tempo ou governo nenhum jamais conseguirá apagar.
TELMA DE SOUZA (1944-2026), PRESENTE PARA SEMPRE EM NOSSAS VIDAS!
Por Cidinha Santos, jornalista e ativista feminista