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Crianças do Jardim São Manoel estão ajudando a pensar o futuro do bairro

Projeto leva estudantes para as ruas, coloca o urbanismo na ponta do lápis e pergunta o que precisa mudar no Jardim São Manoel

Tempo de leitura: 7 minutos

Se uma criança pudesse redesenhar o bairro onde vive, o que apareceria primeiro?

Mais espaço para brincar? Caminhos acessíveis? Menos barreiras para circular? Lugares para encontrar os amigos? Ou alguma coisa que adulto nenhum percebeu ainda?

No Jardim São Manoel, em Santos, essas perguntas deixaram de ser apenas conversa. Desde janeiro, crianças e adolescentes participam do projeto “Caminhos da União”, iniciativa que coloca os moradores mais jovens no centro das discussões sobre as transformações do território.

Crianças do Jardim São Manoel estão ajudando a pensar o futuro do bairro - www.juicysantos.com.br

A ação recebe fomento do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU/SP), por meio do edital CAU Educa. A execução fica por conta da Associação da Rua João Carlos da Silva e Adjacências, em parceria com o Coletivo Ponte.

E o assunto não poderia ser mais atual para quem acompanha as mudanças na Zona Noroeste.

O Jardim São Manoel está dentro de uma região que passa por discussões sobre urbanização, habitação e infraestrutura. Além disso, o território entrou no programa federal PAC Periferia Viva e integra as discussões relacionadas ao projeto Parque Palafitas.

Agora, a proposta é olhar para o futuro.

As crianças foram conhecer o próprio caminho

Antes de desenhar qualquer mudança, os estudantes precisavam fazer algo que parece simples, mas diz bastante sobre urbanismo: caminhar pelo bairro.

Alunos do 5º ano da Escola Municipal José Carlos de Azevedo Júnior e participantes do projeto socioambiental Óleo Noel, da Horta Comunitária Bons Frutos, participaram de percursos, oficinas e atividades de mapeamento.

A ideia era identificar aquilo que muitas vezes passa despercebido para quem olha o bairro de fora.

Durante as atividades, apareceram problemas como falta de áreas de lazer, obstáculos físicos para circulação e impactos provocados pela atividade portuária do entorno.

A mobilidade e a acessibilidade também entraram na conversa. O projeto adaptou materiais e dinâmicas para garantir a participação de um estudante com necessidades específicas de aprendizagem e mobilidade.

Segundo a arquiteta e urbanista Tainá Muniz, uma das responsáveis técnicas pela iniciativa, o conhecimento das crianças já estava ali.

“Todo esse processo funcionou como uma mediação técnica, sistematizando e aprofundando o rico repertório urbano que as crianças já possuem a partir de suas vivências diárias.”

A experiência também abriu espaço para falar de gênero e raça dentro da própria relação com a cidade.

Afinal, duas pessoas podem atravessar a mesma rua e experienciar aquele espaço de maneiras completamente diferentes.

Assunto de criança

Na segunda etapa, o grupo recebeu outro desafio: olhar para as propostas técnicas do Parque Palafitas.

Só que nada de reunião com uma pilha de documentos e uma apresentação impossível de acompanhar.

A equipe traduziu as informações para uma linguagem acessível aos estudantes. Assim, eles puderam conhecer propostas de mudanças nas ruas, equipamentos públicos e questões envolvendo reassentamentos e remoções.

As crianças começaram a comparar o projeto desenhado no papel com o bairro que conhecem todos os dias.

Surgiram dúvidas, críticas e sugestões.

Esse tipo de participação ganha ainda mais peso porque o Parque Palafitas já deixou de ser apenas uma proposta distante. O projeto entrou em fase de entrega de moradias na Zona Noroeste em 2026.

Por isso, discutir o planejamento urbano com quem vive no território significa colocar diferentes experiências na mesma mesa.

Transformar ideia em maquete

A terceira etapa do “Caminhos da União” está em andamento.

Depois de observar, discutir e questionar, os estudantes vão transformar suas ideias em propostas concretas para o futuro do bairro.

O resultado será apresentado em maquetes interativas.

Além disso, o projeto prevê uma visita técnica à comunidade da Cota 200, em Cubatão. A proposta é aproximar os jovens de outro território que passou por processos de urbanização e desenvolveu iniciativas de turismo de base comunitária.

A experiência conversa diretamente com uma discussão que já acontece no São Manoel: a criação do Museu Comunitário do bairro.

O espaço nasceu justamente da valorização da memória e das histórias locais. A Horta Comunitária Bons Frutos também faz parte dessa trajetória de organização comunitária.

As crianças vão chegar onde as decisões acontecem?

O projeto não pretende terminar quando as maquetes ficarem prontas.

Os resultados devem ser apresentados ao Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano de Santos, o CMDU.

Também haverá exposição dos trabalhos na Feira de Ciências da escola parceira. Outro passo será a realização de um novo Fórum de Pesquisas do Bairro. A intenção é reunir diagnósticos, propostas e registros de todo o processo em uma publicação impressa e digital.

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Para Tainá, esse material pode ultrapassar os limites da atividade escolar.

“Queremos que este acúmulo sirva como uma ferramenta de transformação concreta, que instrumentalize a comunidade e influencie as políticas públicas no São Manoel e em outras periferias da Baixada Santista.”

A proposta está longe de terminar na sala de aula. Ela tenta criar uma ponte entre quem conhece o território pela experiência e quem costuma tomar decisões sobre ele por meio de mapas, projetos e documentos técnicos.

O CAU também quer aproximar arquitetura de quem vive a cidade

O “Caminhos da União” faz parte do edital CAU Educa, uma das frentes de fomento do CAU/SP.

Segundo a presidente do Conselho, arquiteta e urbanista Camila Moreno de Camargo, a ideia é aproximar o conhecimento técnico das comunidades e valorizar aquilo que os moradores já sabem sobre seus próprios territórios.

“A arquitetura e o urbanismo precisam estar cada vez mais próximos das pessoas e dos territórios.”

O CAU/SP também mantém editais voltados para outras áreas, como assistência técnica para habitação de interesse social e preservação do patrimônio cultural.

No caso da educação urbana, ambiental e patrimonial, a proposta é ajudar estudantes a compreender melhor a cidade e participar das decisões que afetam seus espaços.

Camila resume essa atuação como parte da própria função pública da arquitetura e do urbanismo.

“Quando falamos de ATHIS, estamos falando do direito à moradia digna e do acesso à assistência técnica para famílias de baixa renda, algo previsto em lei.”

No São Manoel, essa ideia ganhou uma forma bastante concreta. Crianças estão andando pelas ruas, identificando problemas, questionando projetos e imaginando soluções.

E essa é uma das melhores formas de lembrar que cidade não é só aquilo que aparece na planta.

Se o futuro do São Manoel está sendo desenhado, vale prestar atenção em quem está segurando o lápis.

Serviço

Projeto Caminhos da União
Local: Jardim São Manoel, Santos
Realização: Associação da Rua João Carlos da Silva e Adjacências, em parceria com o Coletivo Ponte
Fomento: Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo, por meio do edital CAU Educa

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Vitor Fagundes
Texto por

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