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CreativeMornings levou o público às alturas para discutir o futuro de Santos

Encontro no rooftop do Hideout Fizz, na cobertura do Comfort Hotel, teve palestra de Rafael Mlatisoma sobre verticalização, memória urbana e o que merece permanecer na cidade

Tempo de leitura: 6 minutos

A cobertura do Comfort Hotel virou ponto de encontro para quem gosta de olhar Santos de outro ângulo. Na manhã desta sexta-feira, 30 de outubro, o CreativeMornings Santos reuniu o público no rooftop do Hideout Fizz, na Ponta da Praia, para conversar sobre o futuro da cidade, a memória dos bairros e os caminhos do crescimento urbano.

Palestrante em evento Creative Mornings Santos, em pé, segurando papéis e gesticulando. Audiência à esquerda.

Foto: Yara Tomei

Com o tema global Altitude, a edição levou o público às alturas, literalmente. A vista da cobertura ajudou a colocar em perspectiva uma das questões que atravessaram a palestra: como Santos pode continuar crescendo sem perder as referências que fazem parte da vida de quem mora aqui?

O palestrante da manhã foi Rafael Mlatisoma, arquiteto, urbanista e gestor do restaurante A Drina, negócio familiar fundado por sua avó em 1967, na Rua Oswaldo Cruz, no Embaré. A partir da própria trajetória, ele aproximou o debate sobre urbanismo de experiências cotidianas, como caminhar pelo bairro, reconhecer os vizinhos e frequentar comércios que atravessam gerações.

Uma cidade que a gente aprende caminhando

Rafael nasceu em Santos, mas cresceu em Brasília. Durante anos, passou as férias na casa da avó, até se mudar para a Baixada Santista, em 2007. Foi quando começou a construir uma relação mais próxima com as ruas e os bairros da cidade.

A diferença entre as duas cidades também despertou seu interesse pela arquitetura. Enquanto Brasília foi planejada com grandes eixos voltados para os automóveis, Santos oferecia outra experiência: a vida de bairro, os encontros na rua e a possibilidade de resolver muita coisa a pé.

Durante a faculdade de Arquitetura e Urbanismo, na FAUS, Rafael costumava andar de bicicleta sem destino definido. Entrava por ruas do Macuco, chegava à região portuária e procurava um canal conhecido para encontrar o caminho de volta.

Essa experiência ajudou a construir seu olhar sobre a cidade. Para ele, o sentimento de pertencimento também nasce de referências aparentemente pequenas: o prédio da esquina, o vizinho que cumprimenta pela manhã e o comércio onde todo mundo já conhece seu nome.

Santos continua subindo. Mas para quem?

A palestra também passou pela história da expansão urbana de Santos. Rafael lembrou que a cidade começou a se desenvolver na região entre o Valongo e o Outeiro de Santa Catarina, no Centro Histórico.

Com o crescimento das atividades portuárias e os problemas sanitários da época, a ocupação avançou em direção à orla. As intervenções de Saturnino de Brito, com a implantação dos canais de drenagem, ajudaram a organizar essa expansão.

Depois, vieram diferentes ciclos de verticalização. Nos anos 1950 e 1960, surgiram edifícios modernos de até 16 andares na orla. A partir dos anos 2000, as torres passaram a alcançar 20 ou 30 pavimentos. Agora, Santos acompanha empreendimentos que chegam a 50 andares.

Rafael apresentou dados do IBGE para questionar o ritmo dessa transformação. Segundo os números que compartilhou, a quantidade de domicílios passou de 177 mil para 208 mil, enquanto a população teve crescimento bem menor.

Ele também chamou atenção para o aumento dos imóveis vagos e para a valorização do metro quadrado residencial. Em sua apresentação, citou uma alta média de 20% no preço dos imóveis entre 2024 e 2026.

A pergunta que ficou para a plateia foi direta: para quem está sendo construída essa quantidade de novos prédios?

O arquiteto reconhece que a paisagem urbana muda com o tempo. No entanto, defende que a cidade precisa discutir os impactos desse crescimento sobre a infraestrutura, os espaços públicos e a permanência dos moradores.

A Drina como parte da paisagem

A história do restaurante A Drina trouxe uma dimensão pessoal ao debate. Fundado pela avó de Rafael, em 1967, o estabelecimento começou como uma pensão na Rua Oswaldo Cruz. Com o tempo, tornou-se um restaurante conhecido no bairro.

A família recebeu propostas de construtoras interessadas no terreno, mas decidiu permanecer. Depois que a avó sofreu um AVC, em 2023, Rafael assumiu a gestão do negócio e passou a unir sua formação em arquitetura à história familiar.

Ao redor do restaurante, novos edifícios mudaram a paisagem. Rafael contou que seis torres foram construídas nas quadras próximas nos últimos dez anos. No quintal da Drina, a vegetação passou a funcionar como uma espécie de pulmão verde em meio às construções.

A experiência fez do restaurante um exemplo concreto da discussão proposta no encontro. Para Rafael, preservar lugares como esse também significa manter vivas as referências que ajudam a contar a história dos bairros.

O futuro da cidade também passa pela participação

No encerramento, Rafael convidou o público a circular por diferentes regiões de Santos e conhecer melhor os bairros. Também apresentou possibilidades para o debate urbano, como incentivar projetos de retrofit, discutir limites de altura em áreas adensadas e exigir contrapartidas sociais de grandes empreendimentos.

A conversa ganhou a participação de Lipe Albino, arquiteto e presidente do Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano (CMDU). Ele lembrou que as reuniões do conselho são públicas e abertas à população.

A próxima reunião está prevista para 25 de novembro, às 9 horas, na Associação Comercial de Santos. O encontro é uma oportunidade para acompanhar as discussões sobre o desenvolvimento urbano e participar das decisões que afetam a cidade.

Realizado mensalmente em diversas cidades do mundo, o CreativeMornings Santos promove encontros gratuitos sobre criatividade e troca de ideias. Em Santos, a iniciativa é organizada pelo Juicyhub e conta com o apoio da São Judas Unimonte, SB7 Som e Luz e Cursino & Teodoro da Silva Advogados Associados, além da Adobe, parceira global do projeto.

A edição no Hideout terminou com uma provocação que vale levar para além da cobertura: é possível crescer sem apagar o que nos faz santistas?

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