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Conheça o engenho de Santos que pode virar patrimônio mundial

Tempo de leitura: 7 minutos

No alto do Morro da Caneleira, escondido entre mata atlântica e a rotina da cidade, existe um lugar com quase 500 anos de história que a maioria dos santistas nunca visitou. Paredes de pedra e cal, ruínas de uma capela, vestígios de uma roda d’água. O Engenho São Jorge dos Erasmos surgiu por volta de 1534, quando Santos ainda engatinhava como vila e o Brasil enchia os olhos de europeus, que invadiram as terras dos povos originários atrás das riqueza do “novo mundo”.

www.juicysantos.com.br - Conheça o engenho de Santos que pode virar patrimônio mundialFoto: André Müller/Jornal da USP

E essas riquezas não eram necessariamente minérios preciosos, mas por incrível que pareça, açúcar!

Tombado nas três esferas de governo e sede de pesquisas arqueológicas que revelaram camadas profundas da formação do povo brasileiro, o engenho agora mira um reconhecimento inédito: entrar para a lista de patrimônios mundiais da UNESCO. Seria o primeiro patrimônio de Santos.

A cidade inteira poderia se orgulhar disso. Mas, antes, precisaria conhecer o que tem no próprio quintal.

Uma fábrica que moldou o Brasil inteiro

Antes de entender o que está em jogo, vale parar para uma breve aula de história.

O Engenho São Jorge dos Erasmos foi a primeira agroindústria do “ouro branco” no Brasil e, segundo pesquisadores, a primeira sociedade anônima do país.

Martim Afonso de Souza, então governador da Capitania de São Vicente, entrou em sociedade com comerciantes portugueses e flamengos (belgas, não cariocas) para construir e operar o local. Em 1540, o banqueiro holandês Erasmo Schetz comprou o empreendimento e passou a distribuir açúcar brasileiro por toda a Europa.

Com o tempo, a concorrência do Nordeste e os ataques do pirata holandês Joris Spielbergen foram desgastando a operação. O engenho foi abandonado no século XVIII. No século XX, o terreno e suas ruínas foram doados à USP, e hoje o local funciona como centro de pesquisa, extensão universitária e espaço cultural aberto ao público.

Tombado nas três esferas — municipal pelo CONDEPASA, estadual pelo CONDEPHAAT e federal pelo IPHAN desde 1963 — o engenho agora mira um quarto reconhecimento. E o mais importante de todos.

A candidatura na UNESCO

A candidatura formal à UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) ainda não foi feita. O diretor do Engenho, Yuri Tavares Rocha, é claro sobre isso.

“Estamos avaliando a possibilidade. Recebemos atenção internacional por meio de parcerias com a professora Cristina Anderson, da Inglaterra, e o professor Eric, da Universidade de Kent, na Bélgica.”

Recentemente, o professor Eric realizou uma palestra no local destacando a importância do engenho no contexto dos grandes comerciantes e investidores de Flandres nas colônias pelo mundo. O que os europeus estão enxergando aqui, portanto, é o ponto de encontro de duas histórias: a da expansão colonial financiada pelos grandes banqueiros da época e a da formação violenta e plural do povo brasileiro.

A candidatura formal exige a elaboração de um projeto completo que atenda a todas as normas da organização. Não há prazo definido. Mas a discussão está aberta e cresce a cada novo intercâmbio acadêmico.

O que uma placa da UNESCO mudaria em Santos?

O Brasil tem mais de 20 patrimônios mundiais reconhecidos pela UNESCO. Nenhum está em Santos – apesar de a cidade possuir o selo de Cidade Criativa em Audiovisual pela mesma organização.

Para se ter ideia do que está em jogo: integram essa lista lugares e monumentos como a cidade do Rio de Janeiro, Brasília, Paris, a Catedral de Notre-Dame e a Torre de Londres — referências que definem o imaginário cultural do mundo.

Ruínas de fortificação histórica de pedra em meio à natureza exuberante, com gramado e colina verde sob céu azul.

Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Yuri Rocha falou sobre o peso disso:

“A história de Santos está ligada à divisão do território em capitanias hereditárias. A cidade tem sua origem vinculada à Capitania de São Vicente pelas condições geográficas favoráveis ao plantio de cana e à instalação de um porto abrigado.”

Em outras palavras, a produção que aconteceu no engenho foi fundamental para a cidade de Santos.

Um selo da UNESCO reconheceria isso e colocaria o engenho em uma rede internacional de patrimônios. Isso abriria acesso a financiamentos específicos e elevaria a visibilidade do local a um patamar que nenhum tombamento nacional consegue alcançar. Mas, além da infraestrutura, haveria algo menos tangível e talvez mais importante: o orgulho coletivo de uma cidade que, por fim, enxerga sua própria profundidade histórica.

O cemitério que conta a história

Escavações realizadas entre 2002 e 2003, coordenadas pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, encontraram, em uma área de apenas 15 m² em frente às ruínas da antiga capela de São Jorge, 19 indivíduos enterrados. Indígenas, mestiços e ao menos um negro, identificado pelas características morfológicas do crânio.

A datação por carbono-14 confirmou que os enterramentos remontam ao século XVI, coincidindo com os primeiros anos de funcionamento do engenho.

“O local é um testemunho físico do que Darcy Ribeiro chamava de ‘povo brasileiro'”, diz Yuri Rocha. “Contudo, no atual processo educativo decolonial, evita-se a visão romantizada de que a miscigenação ocorreu de forma harmoniosa. Houveram relações exploratórias e violentas na invasão do território indígena.”

Aquelas ossadas no morro contam uma história de poder, de exploração e, ao mesmo tempo, de resistência e sobrevivência. Por isso mesmo, o engenho não pode ser tratado como peça de museu estática.

Aberto, vivo e gratuito

Um dos argumentos mais fortes para a candidatura UNESCO é que o engenho não é um espaço fechado. Desde 2004, como órgão da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da USP, o local recebe cerca de 10 mil visitantes por ano com uma programação gratuita: saraus, oficinas, cursos certificados, palestras, concertos.

“O uso público e a abertura à sociedade são pontos avaliados positivamente pela UNESCO para uma candidatura”, confirma o diretor.

A mata que envolve as ruínas, fragmento de Mata Atlântica inserido na primeira Reserva Internacional da Biosfera criada no Brasil, soma ainda outro argumento: o engenho não é só história humana. É paisagem cultural viva, com biodiversidade, sequestro de carbono e serviços ambientais reais para a cidade.

A cidade que precisa olhar para o próprio passado

Santos tem o hábito de valorizar o que está na orla e esquecer o que está no morro, o Engenho dos Erasmos é um exemplo disso. Quase meio milênio de história, pesquisas arqueológicas de ponta, reconhecimento internacional crescente e menos de 10 mil visitantes por ano em uma cidade de 430 mil habitantes.

A candidatura à UNESCO não vai se resolver sozinha. Ela depende de vontade política, de financiamento, de mobilização acadêmica e de algo que nenhum edital garante: o interesse genuíno da própria cidade.

SERVIÇO

Monumento Nacional Ruínas Engenho São Jorge dos Erasmos

Endereço: Rua Alan Ciber Pinto, 96 – Vila Sao Jorge

Visitação gratuita com agendamento

Programação cultural disponível no site da USP

Email: [email protected]

Telefone: (13) 3229-2703

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