Tudo sobre o 2º dia do Festival GOMO de Criatividade 2026
Acompanhe a cobertura em tempo real do maior evento criativo da Baixada Santista
E o segundo dia do Festival GOMO de Criatividade 2026, maior evento gratuito de criatividade e inovação da região, fez a galera de Santos mergulhar em ideias e inspirações ao longo de todo o domingo (26 de abril).
Fotos: Unlock Films
Realizado no Juicyhub, o festival reúne empreendedores, artistas, makers, designers e pensadores para trocar ideias de verdade, com acessibilidade, networking genuíno e 100% gratuito.
GOMO é a sigla para Grandes Oportunidades para Mudar o Óbvio e a proposta está longe de ser só um nome bonito para gravar no crachá. O festival nasceu em Santos com uma missão clara: democratizar o acesso ao conhecimento e ao ecossistema criativo. É gratuito, como sempre foi, porque aprender e se inspirar não deveria ser privilégio de quem pode pagar por isso.
O Festival GOMO acontece no encerramento do mês em que se comemora o Dia Mundial da Criatividade e Inovação (WCID), data criada pela canadense Marci Segal em 2001 e reconhecida oficialmente pela ONU desde 2017. Com uma programação diversa e inspiradora, o evento se firma como um espaço de troca, aprendizado e fortalecimento do ecossistema criativo local.
Abrindo o evento, a CEO do Juicyhub, Ludmilla Rossi, compartilhou a animação para o último dia de programação e celebrou a casa cheia.
“Estou muito feliz de ver isso lotado. Todo mundo poderia estar na praia, mas escolheu estar aqui. Com certeza será um dia muito especial.”
Em seguida, ela adiantou alguns destaques da programação e relembrou o sucesso do primeiro dia.
“Mais uma vez quebramos recordes do festival GOMO e a expectativa é repetir o feito hoje.”
Ludmilla também chamou atenção para a feira de economia criativa, que reúne produtos de diferentes expositores, incluindo a bolsa do Juicy, ainda em desenvolvimento.
Depois disso, todo o time do Juicy subiu ao palco e recebeu uma salva de palmas do público.
Por fim, Ludmilla e a equipe agradeceram aos patrocinadores e destacaram as iniciativas de empreendedorismo da Prefeitura de Santos, que ajudam a viabilizar o evento.

Veja alguns dos destaques do segundo dia do Festival GOMO de Criatividade
Arquitetura do SIM: por que ser interessante é a base de qualquer modelo de negócios.
Caio Giachetti subiu ao palco com uma energia inquieta e uma proposta direta: falar sobre criatividade aplicada de verdade, daquelas que funcionam na prática, independentemente do negócio. Ele partiu da própria trajetória para mostrar que ser interessante é mais poderoso do que tentar vender a qualquer custo.
Logo de cara, deixou claro que o método dele serve para qualquer contexto.
“Seja vendendo um brownie, um brigadeiro ou um apartamento na Paulista. Vou contar um pouco sobre meu método.”
A história começa cedo. Aos 14 anos, em Araras, ele já trabalhava vendendo picolé na rua. Depois passou por uma sequência de empregos, de estoquista a auxiliar de produção, sempre com o mesmo problema: a criatividade não cabia nos lugares onde ele estava.
“Dentro disso tinha um padrão, eu nunca consegui ficar muito tempo trabalhando no mesmo lugar. Não por falta de competência, mas pela minha criatividade que sempre recebia um ‘não’.”
Foi esse incômodo que levou Caio ao empreendedorismo. Sem dinheiro e sem direção clara, começou vendendo roupas da 25 de Março de porta em porta até conseguir abrir uma pequena loja com um empréstimo.
Mas ali veio o ponto de virada: a falta de recurso virou estratégia.
“Foi quando começou minha crise criativa.”
Enquanto todo mundo tentava divulgar, ele fez o oposto. Em vez de mostrar, decidiu esconder. Criou uma loja que não parecia uma loja, com elementos estranhos e nenhuma informação óbvia.
“Todo mundo que passava na frente da loja não entendia nada. Não tinha preço, produto nem promoção. Só tinha algo diferente do padrão.”
Essa escolha gerou curiosidade, atenção e movimento. As pessoas queriam descobrir o que era aquilo.
“A frase da minha vida é: a dúvida prende, a certeza afasta.”
A partir daí, Caio construiu uma lógica de negócio baseada em experiência e pertencimento. Ele criou campanhas simples, mas extremamente direcionadas, como um “jornalzinho” entregue para pessoas específicas em ambientes estratégicos.
“Hoje em dia chamam isso de tráfego pago. Eu fazia isso em 2011 por conhecer qual era o estilo das pessoas.”
Mais do que vender roupa, ele vendia a sensação de exclusividade. Criou um sistema onde o cliente sentia que tinha sido escolhido, não o contrário.
“O cliente entrava e via que a loja era só dele. Mas na verdade isso só era falta de espaço, dinheiro e funcionário. Usei a minha limitação para criar.”
O resultado foi um sucesso inesperado. A loja, chamada Bronx, começou a atrair gente de fora da cidade, incluindo jogadores e figuras conhecidas. Mas, ao mesmo tempo, o crescimento trouxe um vazio.
“Quanto mais dinheiro eu tinha, mais eu trabalhava. Comecei a me desmotivar.”
Esse esgotamento levou à quebra. Caio vendeu tudo e foi para a Europa em busca de recomeço. Lá, viveu o extremo oposto: lavava pratos, comia restos e enfrentava dificuldades financeiras.
“Dessa vez, quanto mais eu trabalhava, menos dinheiro eu tinha.”
Foi nesse período que recebeu a notícia da morte do pai, pouco antes da aposentadoria. Um momento que redefiniu completamente sua visão de vida.
“Ela disse: seu pai morreu.”
A partir disso, ele criou uma regra simples e definitiva.
“O dinheiro não pode entrar se a alegria tiver que sair.”
Esse princípio virou base de tudo que veio depois. Inspirado por artistas de rua, decidiu mudar de vida e começou a se apresentar como mágico, viajando pela Europa de forma minimalista.
“Não faça a pergunta certa para a pessoa errada.”
Mesmo em um cenário instável, ele continuou empreendendo. Vendia o que fosse necessário, mas sempre com uma lógica criativa por trás. Foi assim que nasceu um dos seus cases mais conhecidos, já em Portugal.
“Fiquei pensando, como vender brigadeiro em uma caixa de ferramenta?”
A resposta virou conceito. Ele criou a “Oficina do Brigadeiro”, abordando as pessoas com uma narrativa inesperada.
“Sou da manutenção e vim para o conserto.”
Quando perguntavam o que ele consertava, vinha a virada.
“Vim consertar o seu dia.”
Esse modelo resume toda a lógica da palestra: primeiro vem o valor, depois o preço. Primeiro a conexão, depois a venda.
“Coloque valor na frente e preço depois.”
Para Caio, o diferencial competitivo hoje não está no produto, mas na forma como ele é apresentado e sentido. Não é sobre convencer, é sobre gerar interesse genuíno.
“Ser interessante, e não interesseiro.”
Ele encerra reforçando que criatividade não é talento raro, mas prática aplicada. E que, no fim, negócios são sobre pessoas, não sobre métricas.
“O cliente não compra o produto. Ele compra o que aquilo faz ele sentir.”
Futuros Regenerativos: por que a criatividade sem regeneração é obsoleta
Mari Nobre abriu a fala trazendo uma inversão importante: para falar de futuro, é preciso olhar com mais profundidade para o passado. Especialista em tendências e antecipação de futuros, ela partiu de aprendizados recentes na certificação da UNESCO para mostrar que o modelo atual de inovação já não responde às transformações do mundo.
“Eu sou uma pessoa que fala muito de passado trabalhando com futuro. Temos que ter esse respeito e aqui vamos entender o porquê.”
A partir disso, ela questiona uma ideia bastante enraizada: a de que o futuro é apenas uma continuação do presente.
“Será que estamos preparados para entender que o futuro não seja uma projeção do passado?”
Para Mari, o momento atual exige outra leitura. O pensador Ziauddin Sardar descreve esse cenário como “tempos pós-normais”, marcados por instabilidade, contradição e imprevisibilidade constante.
“Vivemos pelo espectro da incerteza, caos e contradição.”
Nesse contexto, o tempo deixa de ser linear e passa a acontecer em “solavancos”. O que parecia ultrapassado pode voltar como inovação, enquanto visões antigas de futuro ainda carregam estruturas sociais que não evoluíram.
“Quando se pensava no futuro no passado, existiam carros voadores, mas ainda existia a mulher em casa esperando o homem para o jantar.”
Esse descompasso ajuda a explicar por que muitos modelos de inovação já não funcionam. Mari entra então na crítica à chamada destruição criativa, conceito clássico que sustenta boa parte do pensamento econômico.
“Parte da premissa de que a evolução está em cima da destruição de outras coisas. Se destrói o velho para construir o novo.”
O problema, segundo ela, é que esse modelo ignora os impactos acumulados desse processo. Ao tratar tudo como substituível, ele reforça uma lógica de descarte contínuo.
“Vivemos sob o prisma da obsolescência, as coisas são feitas para acabar.”
Essa lógica gera o que ela chama de ruptura das possibilidades reais de inovação, porque não considera os sistemas como um todo, apenas trocas isoladas.
“São rupturas de condições de possibilidades de inovar.”
A consequência é um modelo que cresce destruindo sua própria base. Por isso, Mari aponta que não basta mais falar em sustentabilidade, já que muitas vezes ela atua apenas como contenção de danos.
“Como futurista, nosso grande papel é promover possibilidades.”
Ela propõe uma mudança mais profunda, que passa pela regeneração. Em vez de reduzir impactos, a ideia é criar sistemas que se fortalecem com o tempo.
“Temos que sair do paradigma da resiliência para a antifragilidade.”
Nesse ponto, ela organiza a evolução da criatividade em três etapas que ajudam a entender essa transição.
“Fase 1: criatividade linear. Fase 2: criatividade sustentável. Fase 3: criatividade regenerativa.”
Na prática, isso significa sair de um modelo que extrai e descarta, passar por um que tenta compensar, até chegar a um que devolve e reconstrói. A regeneração não pensa apenas no produto final, mas em todo o sistema ao redor, incluindo impactos sociais, ambientais e culturais.
Outro ponto importante da fala é a ideia de que o planeta funciona em circuito fechado. Não existe “fora” para onde descartamos as consequências das nossas escolhas. Quando algo não é pensado até o fim, vira erro de design.
Ao trazer esse olhar, Mari também reforça o papel de quem trabalha com futuro: ampliar repertório e criar novas possibilidades, em vez de repetir padrões.
“Se a criatividade não é regenerativa, você está perdendo valor de mercado.”
Ela destaca que essa não é apenas uma discussão teórica ou idealista. Já existe um movimento claro de mercado em direção a práticas regenerativas, com empresas ganhando valor justamente por incorporarem esse pensamento.
“Muitas empresas estão se tornando mais valiosas por conta de suas políticas regenerativas.”
No fim, a mensagem é bastante direta: inovar sem considerar os impactos no tempo, na vida e nos sistemas que sustentam tudo isso deixou de ser suficiente. O futuro passa menos por criar o novo a qualquer custo e mais por cuidar do que permite que esse novo exista.
O bobo na pele de pioneiro: a pior fábula da Internet
Camila Genaro começou a palestra como faz há anos: contando uma história. Sem slides, sem dados, só palavra e silêncio atento. Ela narrou a trajetória de um homem que acreditava ser azarado e decidiu atravessar o mundo para cobrar sorte do Criador. No caminho, ignorou oportunidades concretas, um amor, um tesouro, respostas simples, porque estava obcecado com algo abstrato. No fim, foi devorado por um lobo.
“O que eu dou são oportunidades. Ou você transforma essa oportunidade em sorte, ou vai ficar reclamando o resto da vida.”
A fábula abre o tom da conversa. Camila, que começou como professora e decidiu viver da arte de contar histórias, lembra que essa escolha nunca pareceu óbvia para quem estava de fora. Ela saiu da sala de aula para os palcos quando quase ninguém acreditava que aquilo poderia dar certo. E é justamente dessa experiência que nasce a reflexão central da palestra.
Ao longo da fala, ela questiona o que chama de “pior fábula da internet”: a ideia de que estamos sendo originais quando, na prática, estamos apenas repetindo fórmulas.
“O copia e cola não está sendo ouvido.”
Para Camila, o ambiente digital criou uma lógica de repetição que esvazia a criatividade. As pessoas seguem roteiros prontos, usam as mesmas palavras, os mesmos gatilhos, e acabam se tornando indistinguíveis.
“O mundo está começando a ficar entediado quando percebe que está sendo colocado dentro da caixa.”
É nesse ponto que entra o conceito que dá base à palestra: o “bobo na pele de pioneiro”. Ela resgata a figura do bobo da corte, historicamente o único autorizado a dizer verdades incômodas, justamente porque usava a linguagem da arte, da metáfora e da história.
A crítica é direta. Muita gente acredita que está inovando, mas está apenas reproduzindo comportamentos, sem perceber.
“Tem gente vestida de pioneiro, mas repetindo o script de todo mundo.”
Para ela, o diferencial real não está na técnica, mas na capacidade de narrar. A história é o que cria conexão, pertencimento e identificação. É o momento em que o outro escuta e pensa: “isso também é sobre mim”.
“Quando você conta uma boa história, você cria imagem na cabeça do outro.”
Camila explica que é essa imagem interna que sustenta a criatividade. Sem imaginação, não existe narrativa potente. E sem narrativa, não existe diferenciação em um mundo saturado de informação.
“A gente está ficando menos imaginativo porque está terceirizando a criação.”
Ela também faz um paralelo com o avanço da inteligência artificial. Para ela, a tecnologia pode entregar respostas, mas não consegue substituir a experiência vivida.
“A IA pode te dar o quê e o para quê. Mas só você consegue dizer o como.”
Esse “como” vem da biografia, das vivências, das histórias pessoais. E é aí que ela puxa outro ponto importante: a necessidade de retomar a própria narrativa.
“Se você não contar a sua história, alguém vai contar por você.”
A fala também traz uma dimensão mais sensível. Camila convida o público a revisitar a infância como fonte de criatividade. Segundo ela, é ali que estão os primeiros gestos de imaginação, coragem e invenção.
“Seu superpoder está nas suas travessuras de criança.”
Ao longo da palestra, fica claro que contar histórias não é apenas uma habilidade estética, mas uma forma de existir com mais consciência. É transformar ruído em sentido.
Para fechar, ela retorna à linguagem das fábulas com uma última imagem. A verdade tenta entrar em um castelo, mas é rejeitada quando aparece de forma direta ou agressiva. Só consegue entrar quando se apresenta como fábula.
“A verdade, quando vem vestida de fábula, encontra espaço.”
Com isso, Camila amarra a ideia principal: em um cenário onde todo mundo fala, quem sabe narrar de verdade consegue ser ouvido. E mais do que isso, lembrado.
O mergulho da criação: como desvendar as histórias que moram na gente
Um diretor santista subiu ao palco decidido a ir direto ao ponto. Em vez de currículo, começou com uma memória que ainda estava em aberto dentro dele. A partir dali, transformou a própria história em matéria-prima para falar sobre criação.
Kauê Nunes Melo compartilhou como a pergunta simples da filha, feita dois dias após a morte da bisavó, mudou completamente sua forma de olhar para as histórias. O que parecia impossível de responder virou ponto de partida para criar.
“Pai, agora, quando eu ligar, ela não vai mais atender?”
Ele contou que travou. Não conseguiu responder na hora. Mas a pergunta ficou ecoando e trouxe algo mais profundo do que a própria morte: a ausência no cotidiano.
“Nesses momentos lembramos muito todas as passagens que temos com a pessoa. A primeira rasteira que tomei foi essa pergunta, pois ela me levou para a ausência do cotidiano.”
A partir disso, uma imagem veio à cabeça. Um telefone fixo antigo, desses que carregam memória. E ali ele entendeu que talvez não fosse sobre responder com lógica, mas com linguagem.
“Fiquei pensando em como responder para ela, uma pergunta sem resposta. Um jeito de conseguir fazer isso seria através da arte.”
Kauê explicou que sempre usou o audiovisual para investigar perguntas. Mas dessa vez era diferente. Era íntimo demais. Era sobre a própria família.
Ele pensou primeiro em um documentário. Queria registrar a avó como ela foi. Uma figura forte, cheia de histórias, dessas que parecem prontas para o cinema. Mas logo percebeu que o real não dava conta.
“Entendi que um documentário era real demais para contar a história dela. A realidade era pouca.”
Foi aí que surgiu a virada para a ficção. E, junto com ela, outro desafio.
“Quando você começa a fazer um roteiro, aparece um diabinho na sua cabeça que é o produtor.”
Sem recursos para tirar o projeto do papel, ele encontrou na escrita um caminho possível. Só que isso trouxe outro tipo de medo.
“Pensei em escrever um livro pela liberdade de criar. Mas também veio o receio de enfrentar a folha em branco, que cabe qualquer coisa.”
No processo, ele começou a escrever sobre a avó, mas percebeu algo maior acontecendo. A história deixava de ser só dela.
“Comecei a enxergar minha avó em outras pessoas. Entendi que esse livro seria uma visão minha sobre ela, esse olhar da infância sem filtro.”
Assim nasceu Eulália. Uma personagem inspirada em Corália, mas atravessada por memória, imaginação e afeto.
“Sempre me encantei sobre como o comum pode ser mágico ao mesmo tempo.”
Kauê também abriu os bastidores do processo. Falou da disciplina, da rotina e do peso emocional de escrever sobre o luto ainda recente.
“Tive que acordar 5 horas da manhã para poder escrever. Foi um processo exaustivo, principalmente por ser sobre meu luto.”
A avó faleceu em 2021, no auge da pandemia. Não houve velório, nem despedida. E isso atravessou toda a construção da obra.
“Pensar que o final da vida dela foi desse jeito me pegava muito.”
Ao mesmo tempo, foi a própria criação que ressignificou essa ausência. O lançamento do livro acabou reunindo pessoas que não puderam se despedir antes.
“Pelo menos, todas essas pessoas que não puderam estar no enterro dela, estiveram presentes no lançamento.”
E aí veio uma das respostas mais potentes da noite.
“Uma tia minha disse que lembrou muito um domingo na casa dela.”
No fim, Kauê mostrou que contar histórias não é só técnica. É escuta, memória e coragem de mergulhar no que ainda não está resolvido. Porque, muitas vezes, é justamente dali que nascem as narrativas que mais conectam.
Ideia grande, verba pequena: quando falta orçamento sobra criatividade
Uma cineasta subiu ao palco com uma bolsinha na mão, rindo do próprio nervosismo, e decidiu começar pelo erro. Não pelo sucesso com grandes marcas, mas por um projeto que nunca terminou. E foi justamente dali que veio a principal lição da sua trajetória.
Carol Gonzalez contou que, durante um mestrado em stop motion em Barcelona, viveu aquele momento clássico de todo criativo: querer fazer mais do que dá.
Ela explicou rapidamente a técnica, baseada em animação quadro a quadro, e mergulhou na história do curta que tentou produzir como trabalho final. A proposta era simples. Um cenário e um personagem. Mas ela decidiu complicar.
“Existe um momento na carreira de todo criativo em que a ambição fala mais alto que a experiência.”
Carol quis construir uma floresta inteira à mão, folha por folha. Criou um personagem com luz, pensou em movimento complexo e ainda resolveu incluir sincronização labial.
O resultado foi direto.
“Meu curta nunca ficou pronto.”
Enquanto isso, um colega fez o oposto. Um fundo preto, um personagem simples de feltro e uma narração. O filme rodou festivais e ganhou prêmios.
Foi aí que virou chave.
“Essa história me ensinou que restrição é liberdade. Quanto mais coisa a gente tem para controlar, menos profundidade conseguimos dar.”
A partir dessa experiência, ela começou a questionar a ideia romantizada de liberdade criativa. Segundo Carol, quando tudo é possível, a gente trava.
Ela comparou com uma situação bem comum.
“A liberdade criativa é tipo a gente no domingo passando 40 minutos escolhendo um filme no streaming e no final não assistindo nenhum.”
Para ela, a limitação funciona como um direcionamento. Uma espécie de recorte que obriga o cérebro a ir mais fundo, em vez de ficar pulando de ideia em ideia.
“A limitação funciona como uma caixinha que direciona o pensamento.”
E esse direcionamento é o que faz a ideia ganhar força. Não é sobre fazer mais. É sobre fazer melhor com o que se tem.
“A gente precisa confiar e gastar tempo na ideia.”
Carol também trouxe exemplos práticos da própria carreira. Contou que, no começo, não tinha estrutura, nem cliente, nem equipe. Então usou o que estava ao alcance.
Um queijo da geladeira virou personagem. A animação simples virou portfólio. E o portfólio virou porta de entrada para trabalhos maiores.
Ela passou a animar produtos comuns, enviar para marcas e, aos poucos, começou a ser contratada. Hoje, trabalha com grandes empresas, mas mantém a mesma lógica.
A ideia vem primeiro. A produção vem depois.
Outro ponto forte da fala foi a quebra de uma crença comum no mercado criativo. A de que impacto depende de orçamento alto.
Ela defendeu exatamente o contrário. Que muitas vezes a superprodução esconde uma ideia fraca.
“A produção deve servir à ideia, e não o contrário.”
No fim, Carol deixou um recado direto para quem está esperando condições ideais para começar.
“Você não precisa de mais verba. Só precisa fazer com o que tem hoje.”
A palestra virou quase um convite para desapegar da complexidade desnecessária. E entender que, quando falta dinheiro, pode sobrar justamente o que faz diferença: foco, intenção e criatividade.
Como fugir de SP (e fazer grandes marcas virem junto)
Ideia grande não nasce só de orçamento. Às vezes, ela aparece justamente quando o dinheiro não acompanha o tamanho da ambição. Foi esse o ponto de partida da palestra de Pietro Falsetta, criador do projeto Foge de SP, que mostrou como transformar um olhar autoral sobre o Brasil em um negócio sustentável, relevante e conectado com grandes marcas.
Pietro começou contando que sua trajetória não foi linear. Formado em engenharia química, passou pelo mundo corporativo antes de perceber que seu interesse estava em outro lugar: explorar o Brasil além do óbvio.
O projeto nasceu quase por acaso, como um hobby de fim de semana. Ele pegava o carro e saía para conhecer destinos pouco explorados, sempre com um incômodo em mente.
“Eu sempre achei estranho a gente não conhecer o próprio quintal.”
A partir daí, começou a compartilhar essas viagens nas redes. O que era só registro virou narrativa. E o que era narrativa virou posicionamento.
Com o tempo, Pietro entendeu que não queria fazer conteúdo de lista ou recomendação rápida. Ele queria contar histórias.
“Não é sobre mostrar um lugar. É sobre entender o que existe por trás dele.”
Assim surgiu o formato que ele define como um “documentário pocket para o Instagram”. Vídeos curtos, mas com profundidade, que dão voz às pessoas, aos territórios e às memórias.
Essa mudança de chave também transformou a relação com o mercado. Em vez de adaptar seu conteúdo para caber na publicidade, Pietro fez o contrário.
“As marcas querem entrar no conteúdo do jeito que ele já é.”
Ele mostrou que é possível fazer publicidade sem parecer publicidade. Em vez de interromper a história, a marca passa a fazer parte dela.
Em projetos com empresas como Ford e Airbnb, o roteiro continua sendo documental. A marca aparece de forma orgânica, conectada ao contexto e ao território.
“Se eu mudasse o roteiro por causa da marca, deixaria de ser verdade.”
Ao mesmo tempo, ele reforçou que esse modelo exige posicionamento claro. Nem toda proposta faz sentido, e saber dizer não faz parte do processo.
“Eu preciso acreditar no que estou mostrando. Senão, fica forçado.”
Pietro também falou sobre responsabilidade. Para ele, turismo não é só consumo, é impacto direto em comunidades, cultura e meio ambiente.
“O criador precisa entender o efeito do que está incentivando.”
Por isso, seu trabalho evita reforçar o turismo de massa predatório e busca valorizar histórias locais com respeito e contexto.
Na prática, a criatividade dele não vem de grandes produções, mas de repertório e observação. Ele mantém anotações constantes, registra ideias e cultiva momentos offline.
“A criatividade também precisa de silêncio.”
Além disso, ele destacou três pilares que ajudam no processo: atividade física para lidar com o estresse, desconexão das redes e consumo de conteúdos diversos.
No fim, a mensagem que fica é simples, mas potente. Não é preciso estar no maior centro ou ter a maior estrutura para construir algo relevante.
“Quando a história é boa, as marcas vêm junto.”
Ao transformar curiosidade em narrativa e narrativa em propósito, Pietro mostrou que dá, sim, para fugir do óbvio. E, no caminho, ainda criar conexões reais entre pessoas, lugares e mercado.
Viralizar não é tudo: o que 100 milhões de views não contam sobre ser artista
Encerrar um festival falando sobre autenticidade já seria simbólico. Encerrar cantando transforma tudo em experiência. Foi assim que Elize Fleury fechou o Festival GOMO, compartilhando sua trajetória e, no fim, entregando um pocket show muito especial.
A artista começou falando sobre o momento que está vivendo. Uma fase intensa, cheia de visibilidade, mas também de questionamentos.
“Viralizar não é tudo.”
Com mais de 100 milhões de visualizações nas redes e uma base crescente de seguidores, Elize trouxe um olhar mais honesto sobre o que esses números realmente significam.
“Nada é do nada.”
Ela reforçou que, por trás de qualquer resultado, existe processo, repertório e, principalmente, consistência. Desde a adolescência, quando começou a compor e aprender instrumentos, a música já fazia parte da sua vida.
Ao longo da palestra, ela desmontou a ideia romantizada de sucesso rápido. Para ela, talento não sustenta uma carreira sozinho.
“Eu gosto mais da palavra ‘facilidade’ do que ‘dom’. Porque o que sustenta é a dedicação.”
Um dos grandes pontos de virada foi a vitória no Monomane the World, no Japão, onde superou mais de 150 concorrentes. A conquista projetou seu nome internacionalmente, mas também trouxe uma reflexão importante.
“Eu percebi que precisava voltar para o que faz sentido pra mim.”
Elize contou que, por muito tempo, deixou de lado interesses e referências pessoais por medo de julgamento. A cultura japonesa, por exemplo, era algo que ela tinha guardado.
Quando decidiu retomar isso, encontrou também uma nova forma de se comunicar com o público.
A série de vídeos ensinando como imitar vozes de artistas ajudou a impulsionar sua visibilidade. Mas, ao mesmo tempo, abriu um novo desafio.
“Existe uma linha muito tênue entre ser uma artista que produz conteúdo e uma influenciadora que canta.”
Para ela, esse é o ponto central da carreira hoje. Não se perder nas métricas e conseguir construir uma identidade própria.
“O algoritmo pode até te levar longe, mas só a arte permanece.”
Elize também falou sobre entusiasmo como motor criativo. É ele que sustenta o processo, especialmente quando a pressão por resultado aparece.
“Se você não segue o que faz sentido pra você, fica muito difícil sustentar.”
Agora, ela vive a transição para o trabalho autoral. Tudo o que construiu até aqui, dos covers às imitações, funciona como ponte para esse próximo passo.
“Tudo isso foi um caminho para chegar nas minhas próprias músicas.”
E foi justamente com a música que ela encerrou. Depois da conversa, Elize voltou ao palco para um pocket show intimista, transformando o discurso em prática.
Um fechamento à altura do GOMO. Menos sobre números e mais sobre presença, identidade e conexão real com quem está ouvindo.
Feira GOMO

Enquanto rolavam as palestras e painéis, o público também teve a oportunidade de apoiar empreendedores na Feira GOMO.
Assista ao Festival Gomo na íntegra
Como chegar ao Festival GOMO de Criatividade
Sobre o local: o Juicyhub fica na Av. Ana Costa, 433, 4º andar, no Gonzaga. Região central, fácil de achar. Tem estacionamento disponível no local por volta de R$ 50 a diária. Mas, se você mora perto ou tem ônibus pela Ana Costa, considere chegar de transporte público. Quem é de Santos sabe que o Gonzaga fica cheio no fim de semana.
Sobre a inscrição: é gratuita, mas as vagas são limitadas. Faça pelo Sympla antes do evento e agilize sua entrada. Se deixar pra se cadastrar na fila, corre o risco de ficar de fora.
Sobre levar as crianças: pode e deve. O espaço kids tem recreação e contação de histórias nos dois dias.
Sobre acessibilidade: o espaço é adaptado para PCDs e conta com intérprete de Libras. O GOMO foi pensado para ser de todo mundo, de verdade.
Esta edição do Festival GOMO de Criatividade conta com o patrocínio master da Adobe e do Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte. Apoiam o Festival GOMO a Prefeitura Municipal de Santos, por meio do programa Feito em Santos, a SB7 Som & Luz e a São Judas Campus Unimonte. São parceiros do festival a Minimal Design, VMB Eventos, Cursino e Teodoro da Silva Advogados, OAB Subseção Santos, Guard Lock, Motorádio, Eletromidia e Programa JB.