Complexo logístico pode retirar mais de 45 hectares de vegetação na Ilha do Tatu em Cubatão
Prefeitura aponta riscos aos manguezais, trânsito e à qualidade de vida nos bairros próximos. A Cetesb confirma que o pedido de licença prévia está em análise
Houve um tempo em que Cubatão ficou conhecida como Vale da Morte. A poluição industrial era tão grave que a cidade virou símbolo de uma crise ambiental, antes de protagonizar um dos processos de recuperação mais conhecidos do país.
Décadas depois, a relação entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental volta ao centro de uma discussão no município. Desta vez, o cenário é a Ilha do Tatu, onde um projeto logístico prevê estruturas de apoio ao Porto de Santos em uma área com extensos trechos de manguezal.
Foto: Prefeitura de Cubatão
A proposta pode exigir a retirada de aproximadamente 45,6 hectares de vegetação nativa, incluindo cerca de 31,4 hectares de manguezais e áreas de restinga, segundo a manifestação técnica da Prefeitura de Cubatão.
A disputa ainda está em aberto. Enquanto a Prefeitura aponta riscos ambientais e urbanos, o pedido de licença prévia segue em análise estadual.
O que está previsto para a Ilha do Tatu?
O Complexo Logístico Tatu ocuparia aproximadamente 510 mil metros quadrados, o equivalente a 51,2 hectares. A proposta inclui pátio regulador de caminhões, armazéns, área de apoio a contêineres e estruturas para caminhoneiros.
O pedido de licença prévia foi apresentado pela Condilog Operações SPE Ltda. à Cetesb. O edital sobre a solicitação saiu no Diário Oficial do Estado em 14 de setembro de 2026.
A área fica em uma região de manguezais, áreas úmidas e remanescentes de Mata Atlântica conectados ao Sistema Estuarino de Santos. Esses ambientes oferecem abrigo, alimento e condições de reprodução para diferentes espécies.
A avifauna também entrou na análise. O relatório municipal destaca a importância da Ilha do Tatu para aves nativas e migratórias, incluindo o guará-vermelho, símbolo da recuperação ambiental de Cubatão.
Foto: Fábio Olmos
Os manguezais da cidade continuam enfrentando pressão ambiental, mesmo depois de décadas de recuperação. Um exemplo é o Projeto Guará Vermelho que retirou quase 19,3 toneladas de resíduos do ambiente apenas nos três primeiros meses de 2026.
Agora, a discussão envolve outra forma de pressão sobre o território: a transformação de uma área natural para receber infraestrutura logística.
Por que a Prefeitura é contra?
À reportagem, a Prefeitura afirmou que o Plano Diretor de Cubatão não permite a atividade pretendida naquela área. O município também informou que não emitiu a Certidão de Uso e Ocupação do Solo para o empreendimento.
O argumento está relacionado ao zoneamento da Ilha do Tatu. O território tem classificações diferentes, incluindo Zona de Expansão Urbana e Zona Especial de Preservação Ecológica. A primeira não significa autorização irrestrita para qualquer atividade, especialmente em áreas sujeitas a restrições ambientais.
A administração municipal também explicou que o relatório foi elaborado para fundamentar sua posição no processo estadual de licenciamento. O documento reúne questionamentos sobre a vegetação, a fauna, o patrimônio arqueológico e os efeitos urbanos da instalação.
Em setembro, o Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (COMDEMA) discutiu a manifestação e aprovou seu encaminhamento à Cetesb. A deliberação reforçou a oposição institucional do município, mas não substitui a decisão do órgão licenciador.
Impactos
A preocupação da Prefeitura também envolve os bairros próximos. Em resposta ao Juicy Santos, o município estimou que cerca de 60 mil moradores vivem na região mais ampla que pode sofrer impactos, incluindo Jardim Casqueiro, Ilha Caraguatá, Vila dos Pescadores e os Bolsões 7, 8 e 9.
Já no relatório técnico, a administração considera um recorte territorial mais restrito e cita aproximadamente 40 mil moradores de Jardim Casqueiro, Parque São Luís, Jardim Nova República e Ilha Caraguatá. Portanto, as duas estimativas abrangem áreas diferentes e não devem ser somadas.
Além dos possíveis efeitos sobre os moradores, a equipe municipal aponta riscos como aumento da circulação de caminhões, congestionamentos, emissão de poluentes, poeira e ruído. A intensidade desses impactos dependerá de fatores como as rotas utilizadas, o volume de veículos e as medidas adotadas para controlá-los.
O relatório também cita projeções de crescimento do fluxo de caminhões no sistema portuário nas próximas décadas. No entanto, esses números representam cenários futuros e não indicam, necessariamente, quantos veículos circulariam diariamente pelo complexo logístico proposto na Ilha do Tatu.
O projeto pode ser barrado?
A Prefeitura acompanha o licenciamento na Cetesb e afirma que poderá recorrer à Justiça, se necessário. Além disso, espera que o órgão estadual considere os questionamentos apresentados no relatório municipal durante a análise do projeto.
Embora a Cetesb conduza o licenciamento ambiental, o município busca fundamentar tecnicamente sua oposição ao empreendimento. Para isso, apresentou argumentos sobre os impactos ambientais e urbanos previstos.
A Prefeitura também propôs uma alternativa: o Sítio dos Areais, na região do Polo Industrial de Cubatão, na área conhecida como Gleba 17. O prefeito César Nascimento levou a sugestão ao vice-presidente Geraldo Alckmin, e o município voltou a incluir a proposta no documento encaminhado à Cetesb.
Segundo a manifestação municipal, o terreno merece entrar na avaliação de possíveis locais para a estrutura logística. No entanto, essa indicação não garante que a área seja aprovada ou que já tenha viabilidade ambiental e operacional comprovada.
A proposta coloca outra questão na mesa: se a expansão da infraestrutura de apoio ao Porto de Santos é necessária, como escolher um local que atenda à demanda logística e, ao mesmo tempo, reduza os impactos ambientais e urbanos?
A Cetesb já decidiu?
Ainda não. Questionada sobre o estágio do processo, os próximos passos, o tratamento dado às manifestações contrárias e os efeitos da ausência da certidão municipal, a Cetesb enviou a seguinte resposta:
“A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) informa que recebeu, em setembro deste ano, pedido de licença prévia para avaliar a viabilidade ambiental do empreendimento. A solicitação está em análise.”
A resposta confirma que o processo segue em andamento, mas não esclarece os demais pontos levantados pela reportagem. A companhia não informou um prazo para a conclusão da análise, nem detalhou como avaliará os argumentos da Prefeitura ou se a ausência da certidão municipal interfere no licenciamento.
A licença prévia avalia a viabilidade ambiental do projeto, considerando sua localização e concepção. Portanto, o protocolo de um relatório contrário não significa que o empreendimento foi barrado, assim como o pedido de licença não significa que ele já esteja autorizado.
A documentação técnica disponibilizada pela Prefeitura de Cubatão pode ser consultada publicamente. Já as etapas gerais do licenciamento estão descritas no site da Cetesb.
O futuro da área ainda está em disputa
Cubatão carrega uma história marcada pelos impactos da industrialização, mas também pela recuperação ambiental que ajudou a mudar a imagem da cidade. Hoje, a atividade portuária e a indústria continuam fundamentais para a economia regional. Ao mesmo tempo, cada novo empreendimento exige uma avaliação cuidadosa sobre o uso do território.
Na Ilha do Tatu, a Prefeitura formalizou sua oposição ao complexo logístico, apontou possíveis impactos ambientais e urbanos e sugeriu uma área alternativa para receber a estrutura. Enquanto isso, a Cetesb mantém o pedido de licença prévia em análise.
Agora, a decisão depende da avaliação dos estudos ambientais, das restrições urbanísticas e das manifestações apresentadas ao longo do processo. Para a Baixada Santista, o caso coloca em discussão os custos ambientais e urbanos que podem acompanhar a expansão da atividade portuária.
Diante da alternativa indicada pela Prefeitura, que critérios devem orientar a escolha do local para ampliar a infraestrutura logística sem comprometer ainda mais os manguezais da região?