Como Santos se tornou território de liberdade e símbolo abolicionista
Antes da Lei Áurea, já tinha gente aqui mudando o rumo da história
Quem passa hoje pelo bairro Jabaquara ou pelos antigos espaços ao pé do Monte Serrat, talvez nem imagine que essas ruas e esquinas foram palco de estratégias, fugas e lutas por liberdade das pessoas negras. Em 2026, quando a cidade celebrou seus 480 anos, o debate sobre resgatar e enaltecer essa história de vanguarda no movimento abolicionista voltou à tona. E vem sendo cada vez mais pauta em eventos, conversas e projetos culturais.
Fotos: Francisco Arrais
Essa matéria conta um pouco sobre como a região virou referência nacional pela resistência, seus personagens inspiradores e lugares que ainda hoje carregam marcas desse passado. Uma viagem no tempo para entender como Santos ajudou a mudar o rumo do Brasil e por que essa memória segue tão presente.
Santos e o movimento abolicionista: de porto estratégico a símbolo de liberdade
A localização geográfica de Santos foi crucial para seu papel no movimento abolicionista.
Sendo um dos portos mais agitados do Brasil no século XIX, a cidade não era só ponto de embarque do café: era também espaço de troca de ideias e encontro de diferentes culturas. Era comum o trânsito de marinheiros, trabalhadores e intelectuais vindos de vários cantos, o que favoreceu a circulação de concepções libertárias e progressistas. Essa efervescência ajudou a fortalecer redes de apoio e esconderijos para quem buscava escapar da escravidão.
Os quilombos – comunidades de pessoas negras que fugiam da escravidão – encontraram, em Santos, o cenário ideal para se formar. O mais conhecido deles, o Quilombo do Jabaquara, ficava em uma área estratégica, permitindo acesso ao mar e rotas de fuga com ajuda de moradores e líderes locais.
Vale saber: essa tradição de acolhida transformou Santos em um dos principais símbolos do processo de abolição no país. Atualmente, pesquisas históricas e projetos educativos buscam valorizar esse passado, dialogando com a cena cultural e social da Baixada Santista.
Quilombo do Jabaquara, a memória viva da cidade
Quando se fala em movimento pela abolição, não dá para deixar o Quilombo do Jabaquara de fora. Fundado em 1882, ele foi um dos últimos e mais movimentados do Brasil antes da assinatura da Lei Áurea. A criação aconteceu com o apoio direto de figuras santistas importantes, como Quintino de Lacerda, Francisco Martins dos Santos, José Theodoro dos Santos (o Garrafão), além de líderes populares cuja atuação reverbera até hoje nas ruas do bairro.

Na Rua Prof. Celso da Cunha Alves, 94, está a placa que indica onde ficava a entrada do quilombo, uma espécie de portal entre passado e presente. Na época, o local abrigava centenas de pessoas em busca de liberdade, contando com redes bem articuladas de apoio para viabilizar fugas e recomeços.
Outros nomes importantes, como Xavier da Silveira e Dona Francisca Amália, também contribuíram ajudando pessoas escravizadas a buscar abrigo e abrir novas possibilidades.
Em 1886, antes mesmo da abolição oficial, a Sociedade Emancipadora 27 de Fevereiro organizou um fato marcante: um ato simbólico no Teatro Guarany que concedeu liberdade a cativos, antecipando movimentos parecidos pelo resto do país. Não por acaso, o bairro Jabaquara, que herdou o nome, segue até hoje como lugar de memória viva dessas resistências.

A memória abolicionista segue presente
Foi apenas em 2022 que a Prefeitura de Santos reconheceu oficialmente duas áreas ligadas à luta abolicionista como patrimônios culturais e históricos do município: a região do Quilombo do Jabaquara e as terras de Pai Felipe, onde hoje fica a sede da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), perto do sopé do Monte Serrat. A ideia é garantir que a população nunca perca de vista a importância desses espaços, não só como testemunhos do passado, mas também como parte fundamental da identidade santista hoje.
Ser vanguarda no movimento abolicionista deve ser motivo de de orgulho, mas também um lembrete para seguirmos na luta coletiva. Como cidadãs e cidadãos, nós, santistas, precisamos reconhecer que direitos, igualdade e inclusão nunca devem desaparecer do nosso horizonte.