Com El Niño chegando, Santos antecipa plano de prevenção a eventos climáticos extremos
Santos começa o Plano Preventivo de Defesa Civil um mês antes do previsto, amplia equipes, reforça drenagem e prepara novas ações para enfrentar chuvas, calor e ventos fortes
Parecia que a chuva não ia dar trégua em setembro, né? Em Santos, o mês entrou para a história com um volume de precipitação muito acima da média e eu quase fiquei sem roupa, nada secava. Se a gente já estava de olho no céu, a Prefeitura também decidiu se antecipar ao que pode vir pela frente.
Foto: Prefeitura de Santos/ Carlos Nogueira
A cidade vai começar o Plano Preventivo de Defesa Civil (PPDC) um mês antes do previsto. A operação entra em vigor em 1º de novembro e segue até 30 de abril de 2027, em meio às preocupações com os efeitos do El Niño e a possibilidade de eventos climáticos extremos.
Quando chove muito durante vários dias, a água se acumula no solo e aumenta o risco de deslizamentos nos morros. Já na área plana, temporais intensos podem provocar alagamentos, especialmente quando a maré alta dificulta o escoamento da água.
A ideia é preparar a cidade antes que a situação aperte, reforçando equipes, ampliando ações de prevenção e orientando os moradores.
Santos tem 19 morros no radar
Os morros são uma das principais preocupações da Defesa Civil durante o período de chuvas. Santos possui 17 morros na Área Insular e outros dois na Área Continental.
Em locais classificados como de alto risco, a Prefeitura poderá realizar remoções preventivas de famílias. A medida é uma das ações mais sensíveis de um plano que, na prática, tenta agir antes que uma emergência obrigue a cidade a correr contra o relógio. A operação também vai mobilizar uma estrutura bem maior do que a equipe habitual da Defesa Civil.
Foto: Prefeitura de Santos/ Isabela Carrari
Atualmente, o órgão conta com cerca de 40 servidores. Durante o PPDC, esse efetivo pode passar de três vezes esse número, com profissionais de outras dez secretarias municipais.
Engenheiros, assistentes sociais, fiscais, motoristas, operadores de máquinas e trabalhadores de serviços operacionais entram na operação. Eles podem atuar desde as visitas às áreas de risco até o atendimento de ocorrências, abrigamento de famílias, desobstrução de vias e pequenas obras.
A prevenção começa antes da chuva
O plano também inclui ações que podem parecer menos cinematográficas, mas fazem diferença quando a água começa a cair.
Entre elas estão a capacitação de agentes comunitários de saúde para orientar moradores, a ampliação da limpeza dos canais de drenagem e a implantação de rotatórias verdes. Essas áreas ajudam a infiltrar a água da chuva e podem reduzir os impactos dos alagamentos.
A Prefeitura também prepara os chamados refúgios climáticos. A proposta é oferecer espaços de atendimento principalmente para idosos, gestantes e pessoas com comorbidades durante períodos de calor extremo.
O clima extremo pode significar chuva, deslizamento, alagamento, vento forte ou calor excessivo. E uma cidade preparada precisa pensar em todos esses cenários.
Nas áreas de encosta, cerca de 50 famílias que vivem em locais classificados como de alto risco devem receber medidas preventivas antes do período de maior incidência de chuvas. Também entram na conta cuidados que dependem diretamente dos moradores. A Defesa Civil orienta manter calhas limpas, não jogar lixo nas encostas e evitar o lançamento de água diretamente no solo.
Parece básico. Mas, em uma cidade onde uma pequena alteração na drenagem pode contribuir para agravar a instabilidade de uma encosta, básico também pode ser prevenção.
E o morador, o que precisa observar?
Em áreas de risco, a Defesa Civil recomenda observar trincas e rachaduras em pisos e paredes, inclinação de árvores e postes, água barrenta nas encostas, desníveis no terreno e alterações em muros ou paredes. São sinais que podem aparecer antes de um problema maior.
Além disso, a orientação é acompanhar as previsões meteorológicas dos órgãos oficiais e se cadastrar para receber os alertas da Defesa Civil. A lógica é simples: quanto antes uma pessoa souber que um evento severo se aproxima, mais tempo terá para tomar uma decisão.
E, quando falamos de chuva forte em áreas de risco, alguns minutos podem fazer diferença.
A Zona Noroeste também entra
Se os morros concentram uma parte importante do risco, a infraestrutura de drenagem também está no centro da estratégia. Na Avenida Nossa Senhora de Fátima, principal via da Zona Noroeste, a Prefeitura reforçou ações de zeladoria e drenagem.
De janeiro a agosto de 2026, foram realizadas 61 intervenções de drenagem. No mesmo período de 2025, foram 31.
No pavimento, foram 60 intervenções de tapa-buraco asfáltico nos primeiros oito meses deste ano. O número corresponde a 76% das 79 ações realizadas durante todo o ano de 2025. A estrutura operacional também cresceu. O número de trabalhadores passou de 91 para 167, enquanto a frota ganhou equipamentos como novos hidrojatos, escavadeiras, caminhões e uma retroescavadeira.
Durante períodos de chuva, a combinação entre pavimento deteriorado, umidade e tráfego pesado pode comprometer os reparos e ainda levar material para bocas de lobo e galerias.
Ou seja, cuidar do asfalto também pode ser uma questão de drenagem.
Quando o clima derruba uma árvore, a resposta também precisa ser rápida
Santos também vai ampliar a estrutura de manejo de árvores para responder a ocorrências provocadas por chuvas e ventos fortes.
Desde 5 de outubro, o novo contrato municipal aumentou de 5 para 13 as equipes operacionais. O objetivo é contar com profissionais e equipamentos especializados para diferentes tipos de intervenção.
De janeiro a setembro deste ano, 63 árvores caíram na cidade. Os morros e a orla estão entre as áreas prioritárias. Nos morros, a combinação entre árvores grandes, encostas e dificuldade de acesso pode tornar uma ocorrência mais complexa. Na orla, os ventos exigem atenção durante episódios de instabilidade meteorológica.
Uma das novidades é uma equipe exclusiva de escalada em progressão, preparada para chegar a locais onde caminhões e equipamentos mecanizados não conseguem entrar. Também haverá cinco frentes de poda mecanizada, incluindo uma preparada para intervenções em árvores com mais de 20 metros.
O número mínimo de profissionais permanentes também sobe de 40 para 75.
O El Niño também significa calor
Quando se fala em El Niño, é fácil pensar primeiro na chuva. Mas o fenômeno também está relacionado a temperaturas elevadas e pode ampliar a ocorrência de eventos extremos de calor.
Segundo um estudo do Climate Impact Lab com pesquisadores das universidades de Chicago e Berkeley, a projeção estima 451 mil mortes adicionais relacionadas ao calor entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027, em comparação com um ano considerado normal.
De acordo com o estudo citado, as temperaturas médias globais sobre áreas terrestres podem ficar 1,2 °C acima do normal nos próximos meses, com 44% mais dias de calor extremo do que seria esperado em um ano normal.
O Brasil aparece entre os países com maior estimativa de mortes adicionais relacionadas ao calor, com uma projeção de 13,3 mil mortes acima do esperado no período. Lembrando que isso não é motivo de pânico, é uma projeção se nada for feito.
É por isso que Santos também está pensando nos refúgios climáticos.
A ideia é preparar a cidade para um cenário em que o risco climático não chega necessariamente acompanhado de uma nuvem preta no céu. Às vezes, ele chega justamente quando o céu está azul e o termômetro parece ter decidido testar os limites da população.
Prevenir é ganhar tempo
Santos tem uma característica que torna a prevenção climática especialmente complexa: a cidade precisa lidar ao mesmo tempo com morros, áreas planas, maré, canais, encostas, intensa urbanização e uma infraestrutura que precisa suportar eventos cada vez mais extremos.
Por isso, antecipar o PPDC é tentar fazer com que a cidade chegue ao temporal com algumas respostas prontas, em vez de começar a procurar soluções quando a água já estiver batendo na bunda (literalmente).
A prevenção também não acontece apenas quando o celular toca com o alerta. Ela está na limpeza de um canal, na manutenção de uma árvore, na drenagem de uma avenida, na identificação de uma rachadura e até na decisão de não jogar lixo onde a água precisa passar.
Ou seja, o desastre climático não começa necessariamente no momento em que a chuva cai. Às vezes, ele começa muito antes. E é justamente nesse intervalo que uma cidade pode escolher se preparar ou esperar para descobrir, de novo, o que a chuva é capaz de fazer.