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Cadê as árvores? Esta obra de 1 km pode mudar o bairro da Aparecida

Uma reurbanização financiada por contrapartida privada coloca em debate o futuro do bairro e os critérios que definem onde Santos investe em urbanização e meio ambiente

Tempo de leitura: 15 minutos

Vamos começar essa leitura com uma conta? 

Uma árvore faz sombra. A sombra muda o caminho de quem passa. O caminho leva até uma padaria, uma loja ou um café. Quem trabalha ali reconhece os moradores. Os moradores sabem quem está atrás do balcão.

Pode até parecer pequeno. Mas, se você olhar com atenção, é assim que funciona uma das engrenagens da totalidade de uma cidade. 

Essa conta fecha em um total positivo. Todo mundo sai ganhando. Mas esse valor pode mudar com a chegada de uma obra.

E é justamente por isso que algumas merecem ser acompanhadas para além do dia em que o tapume vai embora. Na Aparecida, a Alameda Armênio Mendes está passando por uma boa transformação. 

A cidade de Santos conhece bastante a palavra “valorização”

Ela aparece nos anúncios de apartamentos, nas placas de novos empreendimentos e nas conversas de quem procura um lugar para morar.

Só que o termo também aparece no preço do aluguel, no custo de um ponto comercial e na dificuldade que algumas pessoas encontram para continuar no bairro onde construíram a própria história.

Então, quando uma obra promete valorizar uma região, existe uma conversa maior acontecendo por trás dela. Quem ganha com essa valorização? E como garantir que quem já vive ali também participe dos benefícios?

Porém, é aí que uma obra de aproximadamente um quilômetro começa a ficar maior do que parece.

Primeiro, a rua. Depois, tudo o que vem junto

A reurbanização da Alameda Armênio Mendes acontece na Aparecida e segue um cronograma dividido em cinco etapas.

O projeto prevê novas redes de drenagem, água e esgoto, além do embutimento da fiação, revitalização da pavimentação, calçadas acessíveis, paisagismo e mudanças na circulação. A intervenção também inclui o enterramento dos cabos aéreos da CPFL, telefonia e internet.

Segundo a Prefeitura de Santos, a obra terá impacto socioeconômico, poderá gerar valorização imobiliária e comercial e ainda atrair novos investimentos. É justamente aqui que surge um ponto de atenção.

O projeto prevê calçadas padronizadas, com piso podotátil e rampas de acessibilidade. Além disso, a pavimentação será revitalizada, incluindo cruzamentos em blocos de concreto. No paisagismo, a proposta inclui novas árvores e áreas verdes.

São melhorias que podem facilitar a rotina de quem circula pela região. Antes de olhar para o resultado, porém, existe uma questão importante: como essas escolhas foram definidas?

A intervenção é executada pelo Grupo Mendes por meio de um Termo de Responsabilidade de Implantação de Medidas Mitigadoras e Compensatórias, o Trimmc.

Segundo a Prefeitura, a Administração Municipal não utiliza recursos próprios na execução. Na prática, uma empresa privada financia e executa uma transformação em espaço público como parte das medidas associadas ao empreendimento.

Para entender melhor os critérios adotados, os impactos previstos e a relação entre a reurbanização e as medidas de compensação, procuramos o Grupo Mendes.

Até a publicação desta matéria, a empresa não havia respondido às perguntas enviadas. Caso se manifeste, o conteúdo será atualizado.

Investimento para quem?

A advogada e pesquisadora do Observatório das Metrópoles Gabriela Peixoto Ortega, coloca uma pergunta que muda o jeito de olhar para a obra.

“O problema não é simplesmente o setor privado executar uma obra no espaço público. A questão central é: quem define onde serão aplicadas as contrapartidas e a serviço de qual projeto de cidade?”

A provocação é menos sobre quem paga a obra e mais sobre qual lógica define onde uma cidade recebe investimento. Contrapartidas existem justamente para lidar com impactos produzidos por empreendimentos.

Mas, quando essa intervenção também transforma e valoriza o entorno do próprio empreendimento, aparece uma discussão legítima sobre os critérios usados para escolher o que será feito.

Para Gabriela, existe um risco nessa dinâmica.

“Contrapartida urbanística não deveria funcionar como uma extensão do projeto de valorização do próprio empreendimento.”

A transformação da Alameda atende apenas às necessidades geradas pela obra privada ou também responde a prioridades urbanas mais amplas?

A valorização está no texto oficial

Existe uma informação que ajuda a entender por que essa discussão ganhou força. A própria Prefeitura aponta a valorização imobiliária e comercial como um dos efeitos esperados da reurbanização.

Isso não vem de uma interpretação externa. A informação está no material oficial divulgado sobre a intervenção.

E valorizar uma área não representa necessariamente um problema. Para quem possui um imóvel, a valorização aumenta o patrimônio. Para quem mantém um comércio, uma região mais organizada pode ampliar a circulação de clientes. Para quem caminha pela Aparecida, uma calçada acessível melhora a rotina.

A questão aparece quando essa valorização começa a afetar pessoas de maneiras diferentes.

Um imóvel mais valorizado aumenta o patrimônio do proprietário, mas também pode elevar o aluguel de quem mora nele.

Um novo empreendimento movimenta a economia local, mas pode pressionar os preços dos imóveis vizinhos.

Um comércio pode ganhar novos clientes, mas também pode enfrentar custos maiores para continuar no mesmo endereço.

“Valorização imobiliária precisa vir acompanhada de políticas que garantam a permanência da população no território. Caso contrário, produz gentrificação e expulsão econômica.”, defende Gabriela. 

A palavra “gentrificação” aparece com frequência quando bairros passam por transformações rápidas e valorização imobiliária. O termo descreve processos que dificultam a permanência de moradores e atividades econômicas que já ocupavam aquele espaço.

Uma obra, sozinha, não determina que isso acontecerá. O que importa é acompanhar os efeitos que surgem depois dela.

Em uma cidade com mercado imobiliário aquecido, esses sinais aparecem nos preços dos imóveis, nos aluguéis, na mudança dos comércios e no perfil de quem consegue continuar morando na região.

Essa é uma discussão que a Alameda Armênio Mendes ainda vai permitir acompanhar de perto.

Cadê as árvores?

Talvez nenhum elemento da obra provoque uma discussão tão imediata e fervorosa quanto a arborização. O projeto prevê novas árvores e áreas verdes. A Prefeitura afirma que elas ajudarão a reduzir as ilhas de calor.

Só que existe uma diferença entre uma árvore recém-plantada e uma árvore adulta que já passou anos formando copa. Uma oferece potencial. A outra oferece sombra agora.

Mas calma, claro que escutamos (ou pelo menos tentamos ) escutar todos os lados dessa equação. Por isso, foram encaminhadas à Prefeitura e ao Grupo Mendes perguntas específicas sobre o manejo da arborização.

Perguntamos se houve estudo ambiental individualizado para a Alameda e quais alternativas foram analisadas para tentar preservar as árvores existentes antes da remoção ou transplante.

Também questionamos qual laudo técnico sustenta a taxa de sobrevivência esperada das árvores transplantadas, como será feito o monitoramento e quais medidas serão adotadas diante da perda imediata de sombreamento.

Por fim, como os estudos técnicos do Trimmc e os critérios para escolha das novas espécies foram disponibilizados à população antes do manejo.

E agora?

A Prefeitura respondeu com um link sobre a segunda fase das obras. O material explica as mudanças no trânsito, transporte público, feira livre, drenagem, acessibilidade e paisagismo. 

Porém, não responde especificamente às quatro questões técnicas sobre arborização encaminhadas.

Isso não permite afirmar que os estudos não existam. Significa que essas informações não foram apresentadas na resposta. E esse é mais um ponto que merece acompanhamento. Porque arborização urbana não se resolve apenas com o plantio.

É preciso saber quais espécies foram escolhidas, onde serão plantadas, como serão cuidadas e quanto tempo levarão para atingir um porte capaz de oferecer sombra significativa.

Em uma cidade quente como Santos, isso deixa de ser apenas uma escolha estética e vira conforto urbano.

*O Grupo Mendes, até o momento da publicação dessa matéria, não se manifestou.

Santos já conhece essa história

A discussão sobre valorização não começa na Alameda Armênio Mendes.

Santos é uma das cidades mais verticalizadas do país. Segundo o Censo 2022 do IBGE, mais de 67% das moradias são apartamentos. Ao mesmo tempo, a população caiu 0,2% entre 2010 e 2022, enquanto o número de domicílios cresceu quase 18%. Cerca de 20,8 mil imóveis estavam vazios no período.

Os apartamentos ficam maiores, mais novos e mais sofisticados. E, ao mesmo tempo, parte dos moradores encontra cada vez mais dificuldade para permanecer em determinados bairros.

A discussão sobre quem consegue morar em Santos também passa pelo preço do metro quadrado, pelo aluguel e pela transformação dos bairros tradicionais.

Por isso, a Alameda Armênio Mendes pode ser observada como um pequeno laboratório.

Se a região realmente ficar mais valorizada, será interessante acompanhar o que acontece com os imóveis e os negócios locais nos próximos anos. Quem vende? Quem chega? Quem continua lá?

São perguntas que não precisam de uma resposta no dia da inauguração. Mas devem ser acompanhadas por quem se importa com a cidade.

E sim, precisamos mais uma vez falar sobre o clima

Gabriela reconhece que drenagem, arborização, calçadas acessíveis e infraestrutura subterrânea são melhorias positivas. E de fato, são mesmo. A crítica está na escala da intervenção diante dos problemas climáticos e sociais da cidade.

Para ela, uma obra de aproximadamente um quilômetro em uma área já urbanizada não pode ser tratada isoladamente como resposta à emergência climática.

Ela é direta:

“É maquiagem urbana. E eu diria até que existe aí uma espécie de populismo urbanístico.”

A expressão é forte. Mas a explicação vem logo depois. Justiça climática também passa pela forma como a cidade distribui infraestrutura e segurança.

Uma família que deixa uma área sujeita a alagamentos ou deslizamentos e consegue morar em um território seguro recebe, na prática, uma forma de proteção climática.

Por isso, ela considera a produção de habitação de interesse social uma política importante de adaptação.

A discussão deixa de ser apenas sobre quantas árvores cabem em uma calçada. E começa a envolver onde a cidade está colocando seus investimentos e quais territórios precisam deles com maior urgência.

É uma provocação válida para qualquer administração pública.

E é uma discussão que não precisa transformar uma obra específica em vilã, e sim saber se o planejamento urbano está conseguindo olhar para diferentes necessidades ao mesmo tempo.

E depois do tapume?

A maioria das obras tem começo, meio e fim. E a valorização costuma continuar depois. Não existe uma fórmula que determine que toda reurbanização produz gentrificação.

Porém, existe uma razão para acompanhar o fenômeno quando a própria valorização aparece entre os resultados esperados. Gabriela chama atenção para uma contradição que considera importante.

Segundo ela, o Estudo de Impacto de Vizinhança do empreendimento apresenta uma conclusão de que não haveria gentrificação na Aparecida. Para a pesquisadora, essa conclusão deveria ser confrontada com a realidade do bairro e com o que acontecerá nos próximos anos.

“O EIV deveria ser um instrumento para avaliar esses impactos e garantir um desenvolvimento urbano mais equilibrado. O que estamos vendo é exatamente o contrário, o instrumento, previsto em lei, que deveria ajudar a evitar a gentrificação ser utilizado para organizar a própria gentrificação.”

Essa é uma avaliação da entrevistada e não tratamos como fato consumado. Mas precisamos acompanhar os indicadores: preço dos imóveis, aluguéis, rotatividade dos comércios, perfil dos novos empreendimentos e permanência dos moradores.

Quem participou da decisão?

Antes de falar sobre a participação popular na reurbanização, existe uma história anterior que ajuda a entender a relação da Alameda com o próprio território.

Até 2023, a via se chamava Rua Guaiaó. A Câmara de Santos aprovou a mudança e, em 26 de julho daquele ano, a Prefeitura sancionou a Lei nº 4.236, que oficializou o nome Alameda Armênio Mendes, em homenagem ao empresário português que faleceu em 2017.

O nome anterior também carregava uma referência histórica.

Guaiaó era uma denominação indígena associada à Ilha de São Vicente, território que corresponde às atuais Santos e São Vicente.

A mudança, portanto, não passou despercebida. Na época, moradores e participantes de uma audiência pública manifestaram oposição à alteração, principalmente pela relação do nome Guaiaó com a história indígena da região.

E, assim, a discussão sobre participação popular ganha outra camada.

A Prefeitura realizou uma audiência pública para apresentar o projeto de reurbanização e receber contribuições da população. O encontro aconteceu no Sheraton Santos Hotel. Segundo a Administração, a reunião serviu para apresentar detalhes da intervenção, esclarecer dúvidas e receber sugestões.

Gabriela, porém, faz uma distinção importante. Para ela, participação popular não significa apenas colocar uma decisão diante da população e abrir espaço para manifestações.

“Participação é permitir que a população interfira na decisão antes que ela seja tomada.”

Uma audiência pode cumprir os requisitos formais e, ainda assim, levantar dúvidas sobre quanto das contribuições consegue alterar um projeto.

Essa discussão vai além da Alameda. Santos possui conselhos municipais, audiências públicas e outros instrumentos de participação.

A questão, portanto, está em entender quanto dessa participação acontece antes das decisões e quanto ocorre quando o desenho já está praticamente pronto.

Nesse sentido, a escolha do local e o formato das audiências também entram na conversa. Afinal, participação popular precisa alcançar justamente quem será afetado pelas mudanças.

Uma rua nova pode mudar muita coisa

Essa é uma discussão que a Alameda Armênio Mendes ainda vai permitir acompanhar de perto. Ela vem de cara nova e, provavelmente, a rua ficará mais bonita. Tomara.

A discussão, porém, vai além da aparência. Uma boa intervenção urbana não precisa ser rejeitada para ser questionada. Pelo contrário: quanto maior a transformação, maior deve ser a disposição para acompanhar seus resultados.

Se a obra melhorar a circulação, isso precisa aparecer no dia a dia. Reduzir os alagamentos? Melhor! As novas árvores crescerem e ampliarem a sombra, ótimo. Os comerciantes prosperarem? Ainda melhor!

E, se a região valorizar sem expulsar quem já mora e trabalha ali, Santos terá conseguido algo ainda mais difícil.

Conciliar desenvolvimento com permanência exige planejamento e acompanhamento. É justamente aí que a Alameda deixa de ser apenas um local em obras e passa a representar uma discussão que Santos ainda vai enfrentar muitas vezes.

A cidade continuará recebendo investimentos. Novos prédios vão surgir, ruas serão remodeladas e os bairros continuarão mudando.

Ao mesmo tempo, o planejamento urbano precisará garantir que essas transformações não criem novas barreiras para quem já vive nesses territórios.

Talvez a resposta esteja menos na aparência que a rua terá quando ficar pronta e mais no que acontecerá com ela cinco, dez ou vinte anos depois.

Porque uma cidade pode até medir o valor de um imóvel. O desafio é descobrir como medir o valor de continuar pertencendo a ela.

Em resumo

A reurbanização acontece em cinco etapas e provoca alterações progressivas na circulação.

Na segunda fase, a Prefeitura ampliou o bloqueio da Alameda Armênio Mendes até a Rua Primeiro de Maio. Além disso, o cruzamento da Rua Ricardo Pinto com a Avenida Epitácio Pessoa também passou por mudanças.

Com isso, as linhas municipais 8 e 100 e as intermunicipais 927 e 940 alteraram seus itinerários durante as obras.

Enquanto isso, a feira livre da Rua Ricardo Pinto continua funcionando aos domingos, o que também interfere na circulação de veículos pela região.

Por isso, a CET recomenda atenção redobrada à sinalização provisória e às rotas alternativas. Além disso, a Prefeitura orienta os motoristas a acompanhar as condições de trânsito pelo Waze. 

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Vitor Fagundes
Texto por

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