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Audiência pública em Santos vai debater a verticalização da cidade

A Câmara Municipal abre espaço, no dia 4 de maio, para discutir o que acontece quando uma cidade cresce para cima, mas seus moradores ficam para trás

Tempo de leitura: 5 minutos

Santos tem mais de 112 mil apartamentos. Nenhuma outra cidade do Brasil chega perto disso. A cada visita ao Canal 7 ou à Ponta da Praia, um prédio novo subindo, uma casa a menos, um comércio que fechou. Pequenos negócios com anos de história sumindo para dar lugar a torres de alto padrão voltadas para quem vai usar o apartamento só no verão.

Vista aérea panorâmica de uma cidade litorânea com arranha-céus, longa faixa de areia, mar azul e morros distantes.

Quem acompanha Santos de perto sabe que essa conta não fecha para quem vive aqui o ano todo. E por muito tempo, a pergunta que ficava no ar era: o que pode ser feito?

Na segunda-feira (4 de maio), pelo menos um começo de resposta vai aparecer. A Câmara Municipal realiza uma audiência pública com o tema “Verticalização Vazia”, aberta a qualquer morador que queira ocupar uma cadeira, levantar a mão e falar. Não é uma solução, mas é a porta de entrada para que uma solução exista.

O que é “verticalização vazia” e por que o nome acerta em cheio

Segundo o Censo 2022 do IBGE, 67,1% de todas as moradias da cidade são apartamentos. Nenhuma outra cidade do país chega perto disso.

Só que prédio ocupado e prédio construído são coisas diferentes.

Parte significativa dos novos lançamentos no litoral santista, especialmente na Ponta da Praia e no Canal 7, mira compradores de São Paulo que buscam uma segunda residência. Eles compram o apartamento, pagam o condomínio e guardam as chaves na gaveta onze meses por ano.

Portanto, a cidade cresce em altura, mas não necessariamente em vida. Os serviços de saúde, o transporte público, as escolas, o saneamento: tudo isso é dimensionado para uma população permanente. Quando a densidade cresce no papel, mas não no cotidiano, a infraestrutura paga o preço. E quando os veranistas chegam todos ao mesmo tempo, a cidade chega ao limite.

Quando um açaí vira símbolo de um problema maior

O Japa Açaí, um restaurante com sete anos de história, clientela fiel e sem problemas de gestão fechou porque uma construtora comprou o imóvel por quase R$ 5 milhões, valor impossível de ser coberto por qualquer pequeno empresário. Essa história escancarou um processo de gentrificação que está redesenhando a Ponta da Praia de Santos.

No mesmo trecho de calçada, uma academia e um espaço de crossfit também vão ser demolidos. Três negócios locais somem para dar lugar a mais uma torre.

“O comércio vai perdendo cada vez mais espaço. Em um lugar onde habitavam cinco pessoas, vão passar a habitar 1.500. Isso mexe com infraestrutura, saneamento, água, trânsito”, disse Elvis Ferreira, dono do Japa Açaí, ao Juicy Santos.

Além disso, bairros sem comércio local perdem identidade e movimento. O Canal 7 tinha tudo para se tornar um corredor gastronômico consistente. Com restaurantes como Dosette, Tocaia, Tô a Toa, Bartu, Yê e Padrela ao longo da avenida, o trecho já mostrava personalidade. Agora, aquele potencial compete com guindastes.

Os números que ajudam a entender a pressão

Santos registrou metro quadrado médio de R$ 7.735 em julho de 2025, segundo o FipeZAP, o que coloca a cidade na 24ª posição entre os mercados mais caros do Brasil. Nos bairros mais valorizados, como Gonzaga, Boqueirão e Ponta da Praia, o metro quadrado em empreendimentos de alto padrão oscila entre R$ 15 mil e R$ 19 mil.

A Baixada Santista como um todo registrou média de R$ 11.261 no quarto trimestre de 2025, segundo o Secovi-SP. Esse valor é 42% acima da média de São Paulo.

Para o morador que vive e trabalha em Santos, essa conta não fecha. O santista que precisa de um imóvel para morar, e não para investir, disputa o mesmo mercado com quem só vai usar o apartamento no verão. Essa diferença de poder de compra está empurrando famílias para municípios vizinhos, especialmente São Vicente, onde o metro quadrado fica em torno de R$ 4.606, segundo o FipeZAP.

Em um apartamento de 60m², a diferença entre Santos e São Vicente pode chegar a quase R$ 190 mil.

Para onde vai a pressão quando a orla acabar

Santos é geograficamente pequena. Quando não houver mais lotes disponíveis na orla, a lógica do mercado vai avançar para onde ainda existe espaço: a Zona Noroeste, que concentra a população mais vulnerável da cidade, com menos infraestrutura e menos capacidade de resistir à pressão dos preços.

Contudo, esse cenário não é inevitável. Ele é o resultado de escolhas de planejamento urbano, ou da ausência delas.

É exatamente sobre isso que a audiência pública vai tratar. Uma audiência pública é um instrumento formal de participação popular: cidadãos, especialistas e entidades civis discutem temas de alto impacto social com os vereadores, antes que a Câmara vote projetos ou políticas. Tudo o que a população fala no evento entra no registro oficial e pode influenciar diretamente as decisões legislativas.

O requerimento foi do vereador Dr. Marcos Montani Caseiro (PT). O espaço, agora, pertence à cidade.

Como participar

A audiência é presencial, mas também pode ser acompanhada à distância. Qualquer morador pode se inscrever para falar. Se você tem uma empresa local, mora num bairro que está mudando, trabalha em construção civil ou simplesmente usa Santos como cidade todos os dias, o debate é sobre você.

Serviço

Audiência Pública: Verticalização Vazia na Cidade de Santos

Data: 4 de maio de 2026 (segunda-feira)

Horário: 19h

Local: Auditório Vereadora Zeny de Sá Goulart, Câmara Municipal de Santos

Endereço: Praça Tenente Mauro Batista de Miranda, nº 1 – Vila Nova

Transmissão ao vivo: TV Câmara, YouTube e Facebook da Câmara Municipal de Santos