A influência portuguesa na cidade de Santos em 7 fatos
Santos não seria Santos sem Portugal.
Braz Cubas chegou por aqui em 1532 com Martim Afonso de Souza, plantou uma cidade no que era um morrinho próximo ao Centro Histórico e, treze anos depois, assinou o documento que transformou o assentamento em Vila. Sem esse homem de Porto, talvez Santos fosse outra coisa.
Foto: Francisco Arrais/Prefeitura de Santos
Mas a história portuguesa em Santos não é apenas de fundação. Ela está nos nomes das ruas, no sabor do bolinho de bacalhau, nas pedras que calçam a rua República Portuguesa, na fundação do time da Briosa que até hoje usa o verde e o vermelho da bandeira lusitana.
A cidade que um português construiu
Braz Cubas ergueu a Capela de Santa Catarina, instalou o pelourinho onde eram fixados os editais, as leis e as normas que os moradores deviam seguir, e transferiu o porto da Ponta da Praia para onde o povoado se formava.
Além disso, criou o Engenho dos Erasmos junto com Martim Afonso, ainda na década de 1530. Em 1543, funda a Santa Casa de Misericórdia de Todos os Santos, a primeira do Brasil (que deu nome à cidade).
O legado arquitetônico que veio depois seguiu o mesmo espírito. A Casa de Frontaria Azulejada, construída em 1865 pelo comendador Joaquim Manoel Ferreira Neto, com aquela fachada neoclássica de azulejos importados de Portugal, ainda impressiona quem passa pelo Centro. O Casarão do Valongo, que hoje abriga o Museu Pelé, foi obra do mesmo personagem. O Centro Cultural Português, fundado em 1895 e hoje instalado em prédio de estilo neomanuelino projetado por engenheiros lusos, carrega nas paredes pinturas inspiradas em “Os Lusíadas”.
Santos foi ganhando forma portuguesa e assim ficou.
Os morros que falam português
A influência lusitana não ficou restrita ao Centro histórico. Subiu os morros.
O Morro da Nova Cintra foi batizado por imigrantes vindos de Sintra, que reconheceram na topografia a paisagem da terra natal. O São Bento recebeu famílias da Ilha da Madeira, que implantaram escadas, ruas e deixaram como herança o Rancho Folclórico Típico Madeirense e as bordadeiras. O Pacheco incorporou o sobrenome de um cidadão português que comprou terras ali no início do século 20.
Hoje, sete grupos folclóricos em Santos, com cerca de 240 participantes, preservam as tradições lusitanas. Dança, música e roupas de época que resistem ao tempo porque alguém decidiu guardar.
Da Vila Mathias ao fado
Mathias Casimiro Alberto da Costa não só deu nome a um dos bairros de Santos. Abriu a Avenida Ana Costa (em homenagem à esposa) e implantou o primeiro bonde ligando Centro à praia.
Na Vila Mathias nasceu a comunidade fadista de Santos. O imóvel do Centro Português, a Casa da Madeira e a Sociedade Portuguesa de Beneficência formaram o território. Toda primeira quarta do mês, o restaurante Tasca do Porto, pertinho da Bolsa do Café, recebe a Noite de Fado. Paralelepípedos na rua, mosaico português na calçada, bacalhau no prato. Você fecha os olhos e por um segundo não sabe exatamente em qual cidade está.
Solidariedade como fundação
Em 1859, um grupo de 20 portugueses liderados por José Joaquim de Souza Airam Martins criou a Sociedade Portuguesa de Beneficência. A missão era receber conterrâneos que chegavam pelo porto sem família e sem dinheiro. Num lugar castigado por epidemias, a proposta era dar alimentação, moradia e emprego.
Com o tempo, a Beneficência cresceu. Construiu hospitais e mudou de endereço. E em 1926 inaugurou um palacete neocolonial na Avenida Bernardino de Campos que hoje é tombado pelo patrimônio cultural da cidade.
O clube que nasceu numa barbearia
Em 1917, um grupo de portugueses que se encontrava toda tarde no salão do Alexandre Coelho, na rua Dr. Manoel Carvalhal, decidiu fundar um clube de futebol. O português Lino do Carmo fez a pergunta. A discussão foi sobre o nome. No fim, escolheram Associação Atlética Portuguesa.
As cores? Verde e vermelho. Referência à bandeira de Portugal. Hoje, a Portuguesa Santista, a Briosa, é um dos clubes mais queridos da cidade. Em 1941, tornou-se uma das fundadoras da Federação Paulista de Futebol.
Do porto para o shopping
Armênio Mendes desembarcou no Porto de Santos em 1963, aos 18 anos. Trazia ferramentas de marcenaria e pouco dinheiro. Foi morar com um tio em Vicente de Carvalho. Primeiro negócio: uma oficina de bicicletas e um estacionamento para trabalhadores da região.
Em 1975, fundou a Miramar Construtora. Décadas depois, o grupo Mendes era dono do Miramar Shopping, do Praiamar e do Brisamar, além de hotéis e centros de convenções. Armênio morreu em 2017, aos 73 anos.
A rua que virou símbolo
A Rua República Portuguesa, na Vila Mathias, passou por revitalização recente. Com 140 metros de extensão, ganhou pedras portuguesas nas calçadas, largos com mosaicos nas duas extremidades e um projeto que abraça duas identidades ao mesmo tempo: a portuguesa e a africana, presentes lado a lado na mesma rua, representadas pela Igreja de Santa Josefina Bakhita.
Santos tem pactos de irmandade com sete cidades portuguesas, entre elas Coimbra, Funchal e Porto. José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência do Brasil, era santista e estudou em Coimbra. A relação entre as duas margens do Atlântico nunca foi só de passagem.
E vale dizer: Santos tem a maior festa lusitana do país, a Festa de Portugal, que em 2026 chegou à sua 17ª edição.
Olhar para a influência portuguesa em Santos não é nostalgia. O bacalhau que você come no bar ali do Centro tem mais de 500 anos de história e provavelmente tem gostinho de pertencimento.