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A Copa do Mundo volta e Santos tem história para contar

Em 2014, mesmo sem sediar nenhum jogo, Santos virou base de duas seleções, movimentou o Gonzaga e mostrou ao mundo que hospitalidade também é gol

Tempo de leitura: 7 minutos

O maior torneio do planeta está batendo na porta. A Copa do Mundo começa no dia 11 de junho de 2026, sediada no Canadá, Estados Unidos e México. E antes que alguém pergunte o que Santos tem a ver com isso, a resposta é: mais do que a maioria das cidades do mundo.

www.juicysantos.com.br - Copa do mundo

O rei do futebol saiu daqui. Esse detalhe, por si só, já garantiria um capítulo na história. Mas não para por aí.

Tem alguma coisa no ar

O México, que em 2014 escolheu Santos como base de concentração, chega a 2026 como um dos países-sede. Com essa edição, os mexicanos se tornam o único país a ter recebido três Copas do Mundo: 1970, 1986 e agora 2026.

Em 1970, o Brasil levantou a taça em solo mexicano. Foi a última Copa do rei Pelé. O tetra brasileiro veio nos Estados Unidos, em 1994. Os dois países que já viram o Brasil campeão estão de volta juntos, na mesma edição.

Coincidência? Sinal do universo? Será que o grito de hexa finalmente sai?

E o Brasil nessa Copa?

Provavelmente nenhum jogador do Santos FC vai representar a Seleção Brasileira em 2026. O futebol apresentado até aqui foi conclusivo.

O nome mais esperado seria Neymar. Mas o camisa 10 parece muito ocupado batendo em adolescentes para pensar em futebol no momento. Inclusive, fica a dúvida filosófica: numa disputa entre Neymar e Chappell Roan, quem odeia mais pessoas menores de idade?

Quando o mundo parou no Gonzaga

Em 2014, Santos não sediou nenhum jogo. Mesmo assim, virou um dos pontos mais movimentados do país. México e Costa Rica escolheram a cidade como base de concentração, e o Gonzaga nunca mais foi o mesmo.

O México ficou no Parque Balneário Hotel. A Costa Rica, no Mendes Plaza. Os dois hotéis precisaram se adaptar: cada delegação trouxe seus próprios chefs e nutricionistas. Os mexicanos exigiram pimentas específicas e ingredientes para tortillas. Os costarriquenhos queriam frutas tropicais e o tradicional gallo pinto no café da manhã. Andares inteiros foram isolados. Batedores da Polícia Federal escoltavam os ônibus das delegações. O trajeto até os treinos virou evento à parte.

Paulo Sérgio dos Santos, dono de um restaurante na orla, resumiu o clima da época:

“Foi algo fora do comum. A cidade estava cheia todos os dias, e muita gente de fora descobriu Santos por causa da Copa.”

A escolha não foi por acaso. A proximidade com São Paulo facilitava a logística, enquanto a tranquilidade da cidade oferecia o ambiente ideal de concentração. O México treinou no CT Rei Pelé. A Costa Rica fez sua preparação na Vila Belmiro, palco de tanta história ligada a Pelé, com mais de 200 partidas naquele estádio.

Além das duas seleções hospedadas, representantes de Inglaterra, Alemanha, Grécia, Bélgica e Coreia do Sul também sondaram a cidade. Santos estava no radar do mundo.

Chicharito na areia e um goleiro imortal

Entre as estrelas mexicanas, o atacante Javier “Chicharito” Hernández dispensou o protocolo e foi jogar bola na areia da praia do Gonzaga. De camisa personalizada presenteada pelo Santos FC, ele se misturou com os moradores num rachão informal. Uma eterna promessa que encantava, mas que nunca chegou às principais prateleiras do futebol mundial. Na areia do Gonzaga, porém, era o rei.

Goleiro Guillermo Ochoa da seleção do México, com cabelo encaracolado e luvas, durante treino.

Foto: Prefeitura de Santos

E tem um personagem mexicano que merece menção especial. Não estamos falando do Seu Madruga, mas sim do goleiro Guillermo Ochoa, que tem uma certa semelhança com o Ted Mosby. Ninguém sabe exatamente onde ele joga, o que faz da vida entre os torneios, mas quando a Copa chega, ele descongela e se transforma num paredão que assusta qualquer atacante.

Em 2014, era uma das estrelas do México e deu um rolê aqui em Santos. Hoje, com 40 anos, ele ainda pode ser convocado e foi chamado para os últimos jogos da seleção mexicana. Para os curiosos: atualmente ele defende o Limassol, no Chipre.

A zebra que dormiu na Vila Belmiro

A Costa Rica chegou como azarão e foi a grande surpresa do torneio. Os “Ticos” lideraram o Grupo D, batendo Uruguai e Itália, empatando com a Inglaterra e passando em primeiro num grupo que ficou conhecido como o grupo da morte. Eliminaram a Grécia nas penalidades nas oitavas e só pararam nas quartas de final diante da Holanda, também nos pênaltis.

O técnico Jorge Luis Pinto não economizou nos elogios à cidade. Segundo ele, Santos oferecia o “ambiente ideal para concentração” e a estrutura encontrada aqui foi fundamental para o desempenho da equipe.

Talvez a água da Vila Belmiro realmente seja diferente.

Entre os destaques costarriquenhos, Keylor Navas segurou as traves por anos no Real Madrid depois daquela Copa. Bryan Ruiz se apaixonou tanto pela cidade que veio jogar no Santos FC anos depois, ainda que a passagem não tenha sido lá das mais brilhantes. E Joel Campbell declarou à imprensa:

“A recepção em Santos foi incrível. Nos sentimos em casa.”

A criançada do morro e os jogadores

Depois da vitória sobre o Uruguai, quando a Costa Rica já era a zebra oficial do torneio, a delegação aproveitou um dia livre para visitar a UME Padre Lúcio Floro, no Morro do José Menino.

Cento e setenta e cinco alunos do 1º ao 4º ano organizaram uma recepção calorosa. Os jogadores chegaram tímidos, mas foram se soltando com as apresentações, incluindo a escola de samba mirim da Fundação Pagoba. Christian Bolaños entrou na roda e arriscou passos de samba. Keylor Navas, Bryan Ruiz e Joel Campbell entregaram presentes às crianças. Vinte e três delas foram sorteadas para receber camisas da seleção. Uma placa foi inaugurada para marcar a visita.

Cenas que somente a Copa pode produzir.

Os números que o Gonzaga sentiu no bolso

O impacto foi além do sentimental. Cerca de 12 mil turistas estrangeiros passaram por Santos durante o Mundial, superando a previsão inicial de 10 mil visitantes. Os estrangeiros chegaram a representar mais da metade dos hóspedes da rede hoteleira em determinados períodos.

O recém-inaugurado Museu Pelé recebeu quase 24 mil visitantes no primeiro mês de funcionamento, sendo aproximadamente 50% estrangeiros.

Holandeses, ingleses e australianos circulavam pelos bares do Canal 4 e do Gonzaga entre um jogo e outro no Itaquerão (hoje, Neo Química Arena).

E agora, em 2026?

O Brasil chega em 2026 ainda em busca de identidade. Os astros geográficos estão alinhados: Copa no México, Copa nos EUA, os mesmos dois países que já viram o Brasil levantar a taça. Mas astro que decide jogo usa chuteira, não mapa.

Santos, enquanto isso, já sabe o seu papel. Não é sede, não é figurante. É a cidade que acolheu o mundo quando o mundo passou por aqui, e que vai torcer como sempre torceu: com a memória de quem cresceu onde o rei jogou.

Em 2027, a Copa do Mundo Feminina acontece no Brasil. A Vila Belmiro está entre os locais cogitados para receber treinamentos novamente. Quem sabe outra seleção não descobre Santos da mesma forma que a Costa Rica descobriu há doze anos?

(Nenhuma menção ao que aconteceu com o Brasil na Copa de 2014 é permitida neste site, ainda dói).

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