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Mangue-maçã: o invasor silencioso que pode mudar o estuário da Baixada Santista

Planta originária do Sudeste Asiático foi identificada nos manguezais da Baixada Santista e mobiliza equipes de biólogos para conte-la

Tempo de leitura: 6 minutos

Ele chegou sem passaporte, provavelmente de carona na água de lastro de algum navio, e foi se instalando às margens do rio Perequê, em Cubatão, como se o lugar fosse dele. O problema é que, se ninguém fizer nada a respeito, vai ser mesmo.

O mangue-maçã (Sonneratia apetala) é uma espécie nativa do Sudeste Asiático — Índia, Bangladesh, Sri Lanka e Mianmar — que chegou à China em 1985 para ajudar na recuperação de manguezais degradados.

A ideia era boa, mas a planta é do tipo que, quando encontra um lugar que gosta, cresce sem pedir licença. E o estuário de Santos, aparentemente, ele adorou.

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Foto: Sonneratia apetala/ Divulgação IBAMA

Hoje, o Ibama e a Fundação Florestal de São Paulo trabalham juntos para erradicar a espécie antes que a janela para isso se feche. Analistas das duas instituições sobrevoaram a área com drones para mapear e quantificar os focos da invasão, além de ações em
campo voltadas à remoção de indivíduos da espécie.

Por que ele é um problema?

Pense assim: os manguezais da Baixada Santista funcionam como uma espécie de berçário natural. É lá que peixes, caranguejos, ostras e mexilhões se reproduzem.

O mangue-maçã cresce de 15 a 20 metros de altura, com troncos que chegam a cerca de 30 centímetros de diâmetro. A espécie pode apresentar porte superior ao das espécies nativas de mangue. Além disso, seus pneumatóforos — raízes respiratórias que emergem do solo pouco oxigenado do manguezal — podem atingir até cerca de 1 metro de altura, sendo significativamente maiores do que os observados nas espécies nativas.

“Em bosques onde a espécie ocorre, os indivíduos frequentemente atingem alturas superiores às das espécies nativas de manguezal. Isso pode conferir vantagem competitiva na ocupação do estuário”, explica Laís Jimenez, responsável pelo setor de manguezais da Fundação Florestal.

Há também indícios de competição por nutrientes no solo. Alguns estudos apontam possíveis interações com o mangue-branco (Laguncularia racemosa), espécie nativa importante para o ecossistema local — embora ainda sejam necessárias mais pesquisas para entender essa dinâmica no contexto brasileiro.

Como ele chegou até aqui?

A hipótese mais aceita aponta para a água de lastro dos navios. Trata-se da água que as embarcações carregam nos tanques para manter o equilíbrio quando estão sem carga — e que frequentemente vai parar nos portos de chegada junto com todo tipo de organismo que estava no mar de origem.

O Porto de Santos fica a apenas 2 quilômetros dos manguezais afetados. Para Laís, a proximidade não é coincidência.

“Os manguezais dessa região apresentam, em alguns trechos, graus elevados de vulnerabilidade ambiental, com histórico de presença de outras espécies exóticas que podem estar associadas à intensa atividade portuária e industrial. Isso criou um cenário favorável para a invasão”, conta ela.

Ainda não existem estudos detalhados que confirmem com precisão esse mecanismo, mas a hipótese é robusta o suficiente para orientar as ações de monitoramento.

Mapeamento

Até agora, foram mapeados cerca de 20 hectares com detalhamento em áreas de alta incidência conhecida. Nesse levantamento, foram identificados 218 polígonos de ocorrência da espécie — e cada polígono pode representar um ou mais indivíduos.

Portanto, a Fundação Florestal já removeu mais de 700 indivíduos adultos na região do estuário de Cubatão. Cerca de 650 foram retirados antes do mapeamento sistemático, e aproximadamente 50 depois, já dentro de uma estratégia mais estruturada de monitoramento e controle.

O que acontece se não houver intervenção?

Essa é a parte que preocupa os especialistas. Laís explica que existe, na gestão de espécies invasoras, um conceito importante: enquanto a espécie ainda pode ser completamente suprimida de uma região, considera-se que a erradicação ainda é possível.

“Caso não houvesse intervenção por cerca de dois anos, é bastante provável que o cenário mudasse de erradicação para controle. Ou seja, a espécie provavelmente não poderia mais ser completamente eliminada da região, passando a demandar ações permanentes de manejo para conter sua expansão”, alerta. 

Em outras palavras: o trabalho que está sendo feito agora evita um custo muito maior no futuro — ambiental e financeiro.

Mas e o manguezal nisso tudo?

Manguezais são ecossistemas extremamente sensíveis. O uso de herbicidas ou outros produtos químicos em ambientes alagados não é considerado ecologicamente adequado e, no contexto atual, não há autorização específica para esse tipo de aplicação no manejo da
espécie.

Assim, a metodologia aprovada pelo Ibama em 2024 — desenvolvida pela Fundação Florestal em parceria com a Unesp — aposta em soluções que usam os próprios recursos do ecossistema:

  • Corte raso dos indivíduos adultos
  • Cobertura do toco com lama do próprio manguezal, para evitar rebrota
  • Retirada manual de plântulas
  • Coleta manual dos frutos nos casos em que a remoção coincide com o período de frutificação, para evitar a dispersão de sementes

“Não estão sendo realizados testes experimentais em campo, pois esse tipo de procedimento depende de autorização específica do Ibama. A abordagem atual é baseada em soluções na natureza”, esclarece Laís.

É trabalho de formiguinha — feito literalmente com as mãos dentro do mangue. Contudo, é a única forma segura de agir sem comprometer o ecossistema que se quer proteger.

O manguezal é de todos 

O mangue não aparece muito nas conversas cotidianas da cidade, mas ele está no fundo de muita coisa que importa: no caranguejo que vai para a mesa, na proteção contra erosão da costa, no equilíbrio do estuário que banha a Baixada Santista.

Além disso, a batalha contra o mangue-maçã é, também, uma história sobre o que acontece quando o mundo está cada vez mais conectado por navios, portos e rotas comerciais — e o ecossistema local paga a conta.

A boa notícia é que ainda dá para resolver. Mas a questão é: a cidade vai acompanhar esse esforço com a atenção que ele merece?

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Vitor Fagundes
Texto por

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