Ludmilla Rossi
Texto porLudmilla Rossi
38 anos - Santos

Nenhuma mulher é vereadora na Câmara de Santos (alô, eleições municipais)

Faltam 5 meses para as eleições municipais 2016 e a luzinha mental já acendeu.

Um ano em que votar, após conhecer cada o rosto e a incongruência dos nossos deputados, não será a mesma coisa. As primeiras eleições depois do House of Cards brasileiro vão, no mínimo, levar todo mundo a apertar o verdinho com mais ponderação (assim esperamos). 

E essa reflexão começa agora, muitos meses antes. Confesso que não gosto de política e não me sinto bem ao admitir isso. Repito para mim mesma que não é questão de gostar ou de não gostar, mas sim de coerência. Quem não decide deixa o outro decidir. E, em 2016, é bom que a gente comece a entender que poder escolher é uma dádiva.

As eleições municipais em Santos trazem alguns recados para refletirmos sobre 2016.

“Depois de 80 anos da conquista do direito ao voto feminino, as mulheres em 2012 alcançaram 13,3% do total das cadeiras de vereadoras no país. A primeira versão da lei de cotas no Brasil data de 1995, válida para as eleições no ano seguinte quando foram eleitas 11,1% de vereadoras. Passadas 4 eleições municipais desde então e mesmo com a alteração no texto da lei cotas substituindo a palavra “reservará” por “preencherá o mínimo de 30% e o máximo de 70% para candidaturas de cada sexo”, o aumento da presença feminina nas câmaras de vereadores aumentou apenas 2,2% após 17 anos. Outra situação que chama atenção é o fato de que em 2008 – antes da alteração de texto na lei de cotas – o total de candidatas mulheres foi 21,1% enquanto em 2012 alcançou o preconizado na lei chegando a 30,9% de candidaturas femininas. Esse aumento em mais de 10% deveria ser fundamental para garantir a eleição de um percentual maior de mulheres vereadoras. Dentre as possibilidades do não aumento podemos citar: – os partidos políticos seguem indicando uma quantidade razoável de mulheres como “laranjas” apenas para compor a lista, sem condições efetivas de êxito eleitoral; – os partidos políticos apesar de cumprirem a legislação eleitoral de cotas, não priorizam as candidaturas de mulheres, não buscam sua sustentabilidade financeira e estrutural durante o processo de disputa eleitoral; – as mulheres candidatas não contam com o apoio, com a solidariedade e nem com a cumplicidade de suas colegas do mesmo sexo; aliado a essa falta de apoio, também falta a leveza de conseguirem afastar-se dos compromissos familiares para se dedicarem exclusivamente a campanha eleitoral, diferente do acontece com os homens candidatos, elas mesmo em período eleitoral seguem com a jornada doméstica e de cuidados com as crianças ou entes da família”. Fonte.

vereadores-camara-de-santos

Nós não temos nenhuma mulher ocupando o cargo de vereadora na Câmara Municipal de Santos.

Ok, você pode achar que eu estou exagerando (gaslighting mandou beijos), mas dá uma olhadinha no print do site da câmara. Me diga se não é chocante ver 100% das decisões e propostas sendo realizadas por um único gênero num mundo tão diverso.

PS.: Em Santos, há apenas uma suplente mulher (Fernanda Vannucci).

E não pensem que esse é um problema só de Santos. Em Florianópolis, em 2008 e 2012, nenhuma mulher foi eleita vereadora.

Santos e Florianópolis são dois exemplos e estão entre os 1.325 municípios brasileiros onde nenhuma mulher ocupa um cargo de vereadora na câmara municipal.

Minha gente, isso quer dizer que 1/4 dos municípios não tem vereadoras. E no Brasil são apenas 20 cidades onde as mulheres obtiveram maioria ou paridade de postos.

Eu disse, V-I-N-T-E.

www.juicysantos.com.br - por que a câmara de vereadores de santos não tem nenhuma mulher?

Em termos numéricos, segundo a Secretaria de Políticas para Mulheres, são 7.782 mulheres vereadoras em comparação a 49.825 homens. Nas câmaras municipais, as mulheres ocupam apenas 13,3% dos cargos. Quando falamos das prefeituras, o número cai para 12%. Na Câmara dos Deputados, (sim, aquele show bizarro que você assistiu ao vivo pela TV) o número é de míseros 10%.

Agora vamos lembrar que as mulheres correspondem à 51,4% dos nascimentos em território brasileiro.

Leitura recomendada e fonte: O avanço das mulheres nas eleições de 2012 e o déficit democrático de gênero

Vale lembrar que, nas eleições de 2014, uma campanha chamada Vote LGBT tentou conscientizar os eleitores para que essa parte da sociedade estivesse mais bem representada no Legislativo.

Há algo errado

O ponto, claro, não é apenas da política, mas no eixo da liderança como um todo. Se uma mulher diz que não percebe machismo no mundo corporativo, ela está muito desatenta. É só olhar para a frente, para as cadeiras ocupadas e perceber que quem ocupa as decisões SEMPRE tem um cromossomo Y.

A vitimização não é uma escolha e nem o caminho para resolver as questões que precisam de luz. Mas em alguns exercícios rápidos, como o que cito a seguir, deixam claro como o machismo é arraigado.

Estava procurando no Google “vereadoras mais votadas” e a demanda por esse termo é pífia. Em compensação o Brasil quer saber das vereadoras mais bonitas. Afinal, é isso que vai mudar o jogo?

vereadoras-m-machismo

Parece que o país não aprende. Já elegeram um presidente bonito (na época o Collor, I guess) e deu no que deu.

A resposta padrão aqui seria que Santos já teve uma prefeita mulher, que Cubatão e Guarujá têm prefeita mulher e que o país tem uma presidenta mulher. E, sem titubear, a maior parte vai afirmar que não são necessariamente bons exemplos de resultados.

No mínimo, são bons exemplos de sobrevivência. Ultrapassar a arrebentação do machismo carece de coragem e de pulmão – primeiro, é a aceitação familiar, depois das lideranças partidárias, depois, a aprovação dos colegas e, por último, a aprovação popular.

A gente sente uma insuficiência pulmonar ao perceber que ainda estamos muito longe da paridade e da justiça.

Não sabemos ainda quem são os pré-candidatos à Câmara de Santos e se teremos mulheres entre eles. Mas fica esse post para olharmos para as eleições municipais 2016 com mais cuidado – e para as mulheres sem protecionismo, mas sim encarando-as como uma transformação para a política local.

Aí nos comentários queremos ouvir a sua opinião. E conta pra gente se você já conhece alguma pré-candidata e por que ela ganharia (ou não) o seu voto.