30 anos no poder: quem realmente governa Santos?
Você provavelmente já ouviu isso numa discussão sobre Santos. E quem são "eles", afinal? Desde 1997, a prefeitura passou por diferentes nomes, com projetos muito parecidos de cidade. Nesse caminho, teve troca de partido, racha entre aliados e disputa pelo comando.
Um político que combina pragmatismo calculado, troca de partido por conveniência e lê, de forma precisa, as engrenagens do poder. Ele entende que quem controla as regras e o ambiente determina como as pessoas vão se comportar.
Se você pensou em algum nome recorrente da política local, o palpite é compreensível. Mas estamos falando de outro personagem e em um outro século.
Em 1943, durante um debate sobre a reconstrução da Câmara dos Comuns, o britânico Winston Churchill cravou uma das frases mais emblemáticas da ciência política: “Nós moldamos nossos prédios; depois, nossos prédios nos moldam”.
Décadas mais tarde, em 2010, o urbanista dinamarquês Jan Gehl trouxe o conceito para as ruas em seu célebre livro Cidades para Pessoas: “Primeiro nós moldamos as cidades, depois as cidades nos moldam”.
Churchill e Gehl partem de mundos e espectros ideológicos opostos. O primeiro fincado no conservadorismo institucional de centro-direita. O segundo, no progressismo humano e na democratização da vida pública. Mas ambos escancaram a exata mecanismo que move a Baixada Santista.
Há quase três décadas, a coalizão entre o mercado imobiliário, o setor portuário e a burocracia tradicional ergueu um verdadeiro espigão político e urbano em Santos. Hoje, é essa própria estrutura que molda o imaginário e alimenta o mantra que reaparece nos comentários de qualquer debate acalorado sobre a cidade.
Mas até que ponto essa máxima é real? Estamos mesmo diante de uma dinastia política homogênea e inabalável desde a década de 1990?
Para ir além das campanhas, conversamos com jornalistas de bastidores e cientistas políticos com a intenção de entender quem realmente governa a cidade mais grisalha da região e a mais feminina do Brasil.
Mais do mesmo
A repetição exaustiva de bordões políticos costuma funcionar como anestesia para a consciência de algumas pessoas.
“Eles estão há 30 anos no poder, por isso tá desse jeito e nada muda”
Não importa se estamos falando de verticalização desenfreada, de pessoas em situação de rua, de falta de segurança nas vias, da poluição nas praias ou do preço do aluguel, a frase é repetida por eleitores dos mais diferentes espectros ideológicos (ou da ausência deles).

Em Santos, essa máxima virou uma espécie de mantra político, uma explicação conveniente para frustrações coletivas. Quando paramos para refletir sobre as palavras declaradas, há muito mais por trás dessa redução.
O bordão volta com ainda mais força a cada quatro anos quando as campanhas ganham as ruas, com discursos inflamados prometendo “varrer o sistema” e trazer uma renovação messiânica para o território.
A dinâmica política da principal cidade da Baixada Santista dá a impressão de uma dinastia partidária ou de um grupo em uníssono em propostas e ações.
Mas, ao olharmos com mais atenção para esse mapa – e com a ajuda de quem acompanha a política local há décadas -, dá para começar a aprofundar o debate sem ignorar rupturas, rachas e disputas de bastidores de décadas.
Compreender quem realmente governa Santos requer que a gente, como cidadãs e cidadãos, consiga ultrapassar a superficialidade das campanhas em época de eleições e examinar quais forças invisíveis determinam os rumos da cidade.
Quem são “eles”?
Quando o fogo das paixões partidárias arrefece, a gente para e olha com calma, sem a polarização que dá o tom dos debates políticos de hoje, a história contada pelas urnas e pelos dados oficiais e se faz uma provocação necessária.
Afinal de contas, de quem o povo fala quando se refere a “eles”?
É realmente um único grupo coeso, familiar e engessado que manda na cidade desde a década de 1990, ou a política santista é movida por uma lógica muito mais complexa, capaz de se reinventar como um camaleão, trocar de pele e absorver conflitos para continuar no comando?
A verdadeira roda que faz o município girar se baseia em um sistema em que os interesses do setor imobiliário, a geopolítica do porto, a reciclagem de quadros burocráticos e uma maciça concentração de recursos orçamentários se unem em uma força política aparentemente imbatível.
Essa é a opinião de Marco Santana, jornalista com mais de 40 anos de experiência na cobertura política local, atualmente colunista do Diário do Litoral e autor de Cidade de Santos – um jornal santista até no nome.
De Beto Mansur a Rogério Santos no Executivo, entre rupturas e rachas
Para desconstruir o mito do “grupo único”, precisamos voltar no tempo.
Santos nem sempre esteve alinhada a essa “estabilidade” conservadora da centro-direita. Pelo contrário, a cidade sempre foi exemplo de uma das trajetórias mais marcantes de resistência progressista do país.
Curiosamente, o mesmo porto que originou a forte presença dos sindicatos, da imigração e a circulação internacional de ideias trabalhistas hoje sustenta o sistema que se perpetua.
A “Moscouzinha brasileira”, como era conhecida em referência à antiga capital soviética, sediou a primeira comemoração do 1º de Maio no Brasil, em 1895. Aqui, Pagu, militante histórica do Partido Comunista, foi presa e torturada. Vivemos na cidade que protagoniza “Agonia da Noite”, parte da trilogia “Os Subterrâneos da Liberdade”, de Jorge Amado, escrita no exílio e que critica de forma contundente a ditadura de Getúlio Vargas (1937 a 1945) e as lutas do Partido Comunista em São Paulo.
Essa vocação libertária e a intensa atuação do movimento operário tiveram consequências graves durante a ditadura militar iniciada em 1964. Em 1969, Santos teve sua autonomia política cassada e virou “área de segurança nacional”. As memórias dolorosas do navio Raul Soares estão aí pra contar essa história que jamais devemos esquecer.
Os prefeitos passaram a ser nomeados pelo governo federal até 1983, quando retomamos o direito de voto.
E tem um personagem bem importante aqui que precisa ser mencionado, Paulo Barbosa. Ele foi prefeito de Santos entre 1980 e 1984 como gestor nomeado pela ditadura militar. Logo voltaremos a ele.
Santos com sede de democracia
A identidade combativa santista encontrou um terreno fértil após 1984, com a redemocratização do país e a ascensão do Partido dos Trabalhadores (PT).
Segundo Santana, foram duas gestões altamente aprovadas e populares do PT, lideradas por Telma de Souza (1989 a 1992, falecida em outubro de 2026) e Davi Capistrano (1993 a 1996). Mesmo que, eventualmente, eles tenham divergido em várias questões, é fato que os dois implementaram políticas públicas marcantes. Algumas delas permanecem até hoje.
Se você toma vacina nas policlínicas, assiste a um filme no Cine Arte Posto 4 ou já ouviu falar de como Santos saiu de capital da Aids no Brasil para referência em políticas de saúde pública de HIV no mundo, foram eles que viabilizaram isso.
O ponto de virada se deu nas eleições municipais de 1996.
Essa derrota não veio do nada. Houve um desgaste orçamentário e um racha político entre Telma e Capistrano, conforme indica Santana.
A oposição de centro-direita explorou as críticas à vinda de técnicos de fora para gerir a prefeitura, apelidados pelo ex-prefeito Oswaldo Justo (do MDB, o primeiro a ser eleito pelo voto popular após a ditadura) como “gafanhotos”, lembra Santana.
O próprio Capistrano não era santista e seus opositores viviam usando esse argumento contra ele. E, em 2022 e em 2026, vale lembrar, São Paulo elegeu um governador originalmente carioca, o que não impede que Santos seja um de seus maiores redutos eleitorais.
Nesse cenário, Beto Mansur (então no PPB/PP) venceu as eleições de 1996 e assumiu a prefeitura em 1997, inaugurando a tal dinastia dos 30 anos.
Ao contrário do que muitos pensam, as décadas seguintes não foram nada tranquilas. Houve rupturas de estilo, disputas de ego e rearranjos profundos, como recorda Sandro Thadeu, jornalista especializado em política e colunista de Por Dentro da Política, do portal BS9.
Beto Mansur (1997 a 2004) representava o perfil da direita tradicional ligada ao conservadorismo paulista. Seu forte era a comunicação de massa, já que sua família é ligada a rádios e emissoras de televisão. Na conta, entram, ainda, um forte marketing direto e obras altamente visíveis para o eleitorado, como a construção das ciclovias da orla em meados de 2003 (dando sequência a um projeto que Telma havia iniciado na área portuária nos anos 1990).
Em seguida, veio João Paulo Papa (2005 a 2012). Engenheiro de carreira e ex-diretor da Sabesp, Papa tinha suas origens no MDB e trouxe uma quebra radical de estilo. Tecnocrata e focado no planejamento de longo prazo, deslocou o foco do marketing para a burocracia eficiente, investimentos pesados em macrodrenagem, trânsito, saneamento, o programa de infraestrutura Santos Novos Tempos e a ampla revisão do Plano Diretor. Era um governo formal, voltado para os números e para a gestão institucional.
Em 2012, surgiu a maior prova de que o campo governista não estava unificado. Em uma disputa tripla de egos e poder, Beto Mansur tentou voltar ao cargo fazendo oposição ao governo do seu sucessor, que havia sido secretário em sua gestão.
Papa se recusou a apoiar os planos do PSDB e tentou emplacar seu próprio secretário, Sérgio Aquino, no pleito.
O jovem deputado estadual Paulo Alexandre Barbosa (PSDB), herdeiro direto do ex-prefeito Paulo Barbosa e então com 33 anos, se lançou de forma independente e atropelou ambos no primeiro turno, como recorda Thadeu.
Foi dessa época que surgiu o clássico meme político local “É obra do Beto”, que satirizava as tentativas de Mansur de reivindicar a autoria das intervenções urbanas da cidade.
Entre Papa e Paulo Alexandre, não houve uma passagem pacífica de bastão; foi uma tomada de território.
O grupo do Papa só foi assimilado pelo de Paulo Alexandre anos depois, por pura conveniência política, quando Papa migrou para o PSDB para concorrer a deputado. Na segunda gestão de Rogério Santos (sucessor de Paulo Alexandre), o filho do Papa (Thiago Papa) virou secretário de turismo.
Foto: PMS
Tucano raiz
Paulo Alexandre Barbosa (2013 a 2020) seguia a escola política tucana de raiz do também santista Mário Covas e de Geraldo Alckmin. Em seus dois governos, juntou duas visões aparentemente opostas: a atração agressiva de capital privado via Parcerias Público-Privadas (PPPs), com a reurbanização da Ponta da Praia, o novo Mercado de Peixes e o Centro de Convenções, com uma forte presença social descentralizada, criando as primeiras Vilas Criativas e escolas de tempo integral na Zona Noroeste e nos morros.
Foi nesse período que a cidade passou a flertar cada vez mais e mais com a economia criativa. A busca de Santos pelo selo de Cidade Criativa da Unesco, iniciada em 2013, tinha como ponto de partida a ideia de fazer da vocação cultural da cidade uma estratégia de desenvolvimento. O cinema foi o caminho escolhido – e deu certo. Santos recebeu o reconhecimento em 11 de dezembro de 2015 e ingressou, oficialmente, na Rede de Cidades Criativas da Unesco na categoria Cinema, tornando-se a primeira cidade brasileira no segmento.
Durante a pandemia, em uma campanha atípica, fez seu sucessor em Rogério Santos (2021 até a atualidade). Ex-secretário de Governo e chefe de gabinete de Paulo Alexandre, ele assumiu a prefeitura representando a adaptação do centro-direita a um novo momento político do país, mais polarizado e menos tolerante do que nunca.
Em uma manobra estritamente pragmática de governabilidade, saiu do PSDB para o Republicanos, tudo para alinhar o município ao governo estadual de Tarcísio de Freitas.
Desde que entrou em exercício, Rogério Santos tenta equilibrar a defesa da gestão técnica e das Metas de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU com um pragmatismo que, nas eleições de 2024, derrotou a direita conservadora radical em um segundo turno duríssimo contra Rosana Valle (PL, antes do progressista PSB, o que é algo a se observar com cautela também).
Estabilidade ou apatia?
Se a sopa de letrinhas das siglas foi mudando – PPB, PMDB, PSDB, Republicanos, PSD – e os prefeitos brigaram entre si ao longo do caminho, por que a população sente que “nada muda”?
A resposta de Christiane Disconsi, cientista política e jornalista, é bem pragmática: quem governa Santos há três décadas não é uma pessoa ou um partido, mas sim um modelo de cidade sustentado por três pilares invisíveis.
“No caso de Santos, considero mais adequado falar em um campo político de centro ou centro-direita com forte vocação conciliadora e gerencial. É uma política que tende a enfatizar gestão, obras, continuidade, diálogo institucional e capacidade administrativa, evitando discursos excessivamente ideológicos”, explica Christiane.
1. O PIB local, composto por mercado imobiliário e o porto
Santos abriga o maior porto da América Latina, a principal artéria do comércio exterior do hemisfério sul. Por isso, o município representa um corredor geopolítico estratégico de infraestrutura e logística. Ao mesmo tempo, a cidade possui um dos mercados imobiliários mais aquecidos e valorizados do país. Para quem pode pagar pelo metro quadrado, obviamente.
“Setores como a construção civil e a gestão portuária exercem forte influência no planejamento urbano. Exemplo disso são as frequentes alterações na legislação municipal para permitir a construção de edifícios mais altos, que comprometem a qualidade de vida e a insolação em áreas críticas, como a orla, em benefício desses interesses privados”, opina Santana.
Para esse PIB local, formado por operadores logísticos, terminais e grandes construtoras, a manutenção de uma linha gerencial de centro-direita garante uma suposta previsibilidade para os negócios, segurança jurídica e a contínua valorização do metro quadrado da construção civil.
Esse setor econômico pressiona e financia o mesmo projeto de cidade desde 1996, influenciando revisões do Plano Diretor que autorizam a verticalização acelerada e a construção de edifícios cada vez mais altos na orla, por vezes em detrimento de prejuízos ambientais e climáticos e da justiça social.
2. Mesmas pessoas, cargos diferentes
Os prefeitos passam pelo Palácio José Bonifácio, tiram suas fotos e deixam os mandatos, mas a máquina pública que realmente faz a Prefeitura de Santos funcionar de fato permanece quase igual há 30 anos.
Há um corpo de diretores, engenheiros, assessores jurídicos e secretários que são continuamente “reciclados” entre gestões e pastas, de uma para a outra, preservando a memória institucional de quem governa.
Um exemplo emblemático citado por Sandro Thadeu é o caso do engenheiro Antônio Carlos Silva Gonçalves, o “Fifi”. Ele ocupa cargos do alto escalão do executivo municipal ininterruptamente desde 1997. Já foi secretário de Obras, secretário de Infraestrutura e Edificações, presidente do Parque Tecnológico, comandante da Prodesan e presidente da CET-Santos. Assim como ele, dezenas de quadros de segundo e terceiro escalão atravessam mandatos mantendo a mesma engrenagem administrativa rodando.
3. O perfil de “prefeito síndico da orla”
Santos é uma cidade única, demograficamente falando. De acordo com os dados do Censo do IBGE, mais de 25% da população santista tem 60 anos ou mais e essa é a maior proporção de idosos de toda a Baixada Santista.
Para Thadeu, embora a população idosa não seja um bloco ideológico homogêneo, a ciência política aponta que eleitores mais velhos tendem a valorizar a estabilidade, a previsibilidade dos serviços, a zeladoria urbana e a segurança do conhecido.
Christiane acrescenta: o eleitorado de classe média e alta dos bairros da praia rejeita aventuras ideológicas.
Ele busca o perfil do prefeito “síndico”. Quer um gestor focado na manutenção do asfalto, na iluminação, na segurança ostensiva da guarda municipal, nas vagas de estacionamento, na limpeza urbana e em uma estética de cidade bem cuidada. A centro-direita santista especializou-se em entregar exatamente isso.
Como as emendas parlamentares blindam os mandatos
Se a engrenagem econômica e social ajuda a explicar a simpatia do eleitorado pelo governismo, existe um fator financeiro que atua como uma verdadeira blindagem contra a renovação política: o uso estratégico do orçamento público.
Nas últimas duas décadas, o sistema político brasileiro passou por reformas que aumentaram drasticamente o poder financeiro de quem já ocupa um mandato (a chamada “vantagem do incumbente”). Quem já está dentro do sistema, seja municipal, estadual ou federal, tem ali aquele dinheiro público garantido para irrigar suas bases eleitorais, inviabilizando a competitividade de novos concorrentes que tentam entrar na disputa sem a mesma estrutura.
Esse fenômeno acontece em duas escalas muito nítidas na nossa realidade local:
Na Câmara Municipal
Thadeu explica que a introdução e a ampliação das emendas impositivas mudaram completamente o jogo eleitoral.
“Em 2026, cada um dos 21 vereadores tem nas mãos R$ 4,1 milhões em emendas impositivas, totalizando R$ 86 milhões. Isso dá uma autonomia financeira absurda para o vereador fazer entregas diretas no bairro, atender entidades e blindar a sua base eleitoral, o que ajuda a explicar a falta de renovação na Câmara”, conta.
Na prática, esses valores funcionam como uma ferramenta de fidelização comunitária super relevante.
O vereador em exercício destina verbas diretas para reformas de praças, compra de equipamentos para hospitais, apoio a entidades assistenciais e projetos em bairros do seu interesse.
Quando a eleição chega, ele não apresenta apenas promessas ao eleitor, ali tem entregas concretas financiadas pelo próprio cofre municipal. Para um candidato novato, que não possui esse orçamento na mão, a disputa torna-se profundamente desigual.
No federal, concentração em 4 mãos
O mesmo afunilamento se dá na busca por representação no Congresso Nacional. Dados do portal de monitoramento De Olho em Você, com base no Portal da Transparência da União, revelam um dado impressionante. Entre os anos de 2025 e 2026, apenas dois parlamentares, o ex-prefeito e deputado federal Paulo Alexandre Barbosa (PSD) e a deputada federal Rosana Valle (PL), concentraram juntos 80,2% do total de emendas parlamentares destinadas ao município de Santos. Ambos se reelegeram no pleito de 2026.
Rosana direcionou R$ 4,1 milhões de reais para a cidade, com os maiores montantes para desporto/lazer (R$ 1,5 milhão) e assistência social (R$ 500 mil). Já Paulo Alexandre mandou R$ 2,9 milhões, com prioridade para cultura (R$ 800 mil), comércio e serviços (R$ 500 mil) e desporto/lazer (R$ 392 mil).

O direcionamento enorme desse volume de recursos federais permite que os dois líderes da região financiem obras de impacto local, enfatizando suas presenças institucionais ao lado do Executivo local e reduzindo muito os custos de mobilização das suas campanhas de reeleição. Para qualquer outra liderança regional que almeje uma cadeira na Câmara dos Deputados, o tabuleiro fica praticamente interditado pela força do dinheiro público.
O curioso caso da oposição antagonista
Para que exista alternância de poder na democracia, não basta que o governo erre: é preciso que a oposição seja percebida como uma alternativa viável, competente e preparada para gerir a cidade.
Após o esgotamento do ciclo de Telma de Souza (ela ainda chegaria a ter mandatos muito bem sucedidos como vereadora e concorrer mais uma vez à prefeitura) e Davi Capistrano (falecido em 2000) nos anos 1990, o campo progressista e de esquerda em Santos enfrentou uma severa crise de sucessão.
Ao contrário do governismo, que conseguiu formar novos nomes e assimilar quadros jovens em suas estruturas, a oposição sofreu com o envelhecimento de suas lideranças históricas e não conseguiu projetar novas figuras com apelo de massa para disputar o Executivo.
Claro que existem nomes fortes e que precisam ser mencionados, como a reeleição de Débora Camilo (PSOL) como a mais votada da cidade, com mais de 8 mil votos, em 2024.
“Vejo que, enquanto o Executivo exige uma rota mais ao centro e conciliadora para vencer, o Legislativo aceita muito bem nichos ideológicos super engajados dos dois lados”, diz Thadeu.
A estrutura social da cidade também mudou. Santana atribui à modernização das operações do Porto de Santos, à automação dos terminais e às transformações nas relações de trabalho o enfraquecimento da base sindical operária tradicional que, nas décadas de 1980 e 1990, dava fôlego à esquerda na cidade. Uma parcela significativa da classe trabalhadora migrou para municípios vizinhos da Baixada (como São Vicente e Cubatão), enquanto Santos consolidou-se como um polo de serviços, logística, turismo e a fama de “cidade para se aposentar”.
O resultado disso ficou bem claro nas eleições municipais para o Executivo em 2024. O eleitorado santista optou, já no primeiro turno, por descartar qualquer alternativa progressista. A disputa do segundo turno afunilou-se entre duas vertentes da própria direita: de um lado, o continuísmo moderado de centro-direita representado por Rogério Santos (Republicanos); do outro, a direita conservadora alinhada ao Bolsonarismo, representada por Rosana Valle (PL).
Somando-se a isso, a Baixada Santista acumula um contingente impressionante de quase 600 mil votos brancos e nulos nas disputas proporcionais, um claro sintoma (nacional, diga-se, como vimos nas eleições nacionais de 2026) de desengajamento cívico e de eleitores que não se sentem representados por nenhuma das opções colocadas no tabuleiro tradicional.
Montar esse complexo quebra-cabeça e pensar sobre suas causas e consequências nos ajuda a entender de forma consciente quem são os personagens desse jogo e valorizar a democracia que anda tão frágil no nosso país.
2028 vem aí
Reclamar dos últimos 30 anos é um atalho que anestesia a consciência. O bordão cria a ilusão de que somos vítimas passivas de um grupo inabalável quando, na verdade, somos cúmplices daquilo que criticamos.
O modelo de centro-direita que governa Santos desde 1997 não se perpetua por alinhamento ou continuidade total, mas por vontade e hiperconcentração de poder econômico. Se a cidade mais feminina do Brasil aceita uma política dominada por homens, e se o eleitorado grisalho se satisfaz com o repertório do passado, o setor público entrega apenas o que foi convidado a replicar.
“Quando o poder político é ocupado sempre por pessoas com trajetórias e origens semelhantes, há maior risco de que determinados problemas se tornem invisíveis. Não necessariamente por má-fé, mas porque ninguém consegue representar experiências que desconhece completamente”, ressalta Christiane.
A maturidade cívica passa por questionar esses moldes.
Se primeiro somos nós que moldamos, sejam as instituições de Churchill ou as cidades de Jan Gehl, para depois sermos moldados por elas, é preciso enxergar o amplo espectro de intenções por trás de cada discurso que se define como novo.
Afinal, mesmo quando as narrativas parecem iguais, cabe a nós escolher como queremos que Santos nos molde. Ou que cidade vamos moldar.