Tania Regina Pinto
Texto porTania Regina Pinto
Jornalista, Santos (SP)

O que é letramento racial – como desconstruir o racismo pela reeducação

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Nesta edição, Vozes Pretas faz ecoar o pensamento da antropóloga afro-americana France Winddance Twine, criadora da ideia de letramento racial como estratégia para responder individualmente às tensões raciais, lado a lado com respostas coletivas, por meio de políticas públicas.

É uma proposta que, para dar certo, envolve negros, brancos, amarelos, vermelhos, a humanidade enfim. A meta é desconstruir o racismo, a partir da reeducação. 

Como nos reeducamos quando vivemos em uma sociedade na qual o quesito cor impede a igualdade de oportunidades?

O reconhecimento sobre o privilégio que se desfruta só por conta da cor da pele é primordial – escrevemos sobre o assunto na estreia desta coluna.  A partir daí, é preciso ampliar o olhar para nossas  atitudes, palavras, sentimentos, crenças, comportamentos, de modo a barrarmos tal dinâmica.

A cor da pele não pode ser quesito único para nada, nunca.

O preconceito nosso de cada dia

Por que não estranhamos a ausência de negros como espectadores nos espaços culturais?

Por que, no nosso local de trabalho, nunca questionamos a ausência de pessoas negras ou consideramos normal que só ocupem cargos considerados de subalternidade?

O que leva as pessoas a suspeitarem da competência de um médico negro?

Não são poucas as pessoas negras que têm sua disposição para o trabalho, sua higiene e sua honestidade postas em xeque, apesar de, em muitos lares e no mercado de trabalho em geral, serem contratadas essas mesmas pessoas para cuidar da limpeza, das crianças, da alimentação, da segurança…

Por que tamanha contradição?

Um dos pilares do conceito de letramento racial é exatamente desenvolver a capacidade de interpretar códigos e práticas racistas que estão no nosso dia a dia. E as perguntas acima propõem esta reflexão. Muita coisa a gente nem imagina por que faz, fala, acredita… Precisamos começar a pensar no nosso discurso, nos responder estas questões.

E isso não tem nada a ver com ser “politicamente correto”. A meta, reafirmo, é banir o racismo do planeta.

Por que?

Porque em uma sociedade racista, todos perdem.

O que é letramento racial

O racismo é como um  vírus: democrático.  Todos são contaminados:  parte não sente nada ou consegue se tratar em casa; outra parte adoece, mas consegue sobreviver, e outra parte morre.

O letramento racial é a possibilidade de vacina. Possibilidade por conta da abrangência, da ideia de reeducação de todos, de curar a todos, salvar a todos.

Só que todos, também, precisamos ser diagnosticados, de modo a diminuir o contágio, os riscos de doença e morte. A nosso favor, o fato de que os testes estão à disposição. Basta querermos nos colocar a prova. E sem sair de casa.

Vocabulário racial

Um exemplo de teste doméstico é o nosso vocabulário. Sobram palavras, expressões, já incorporadas no nosso cotidiano, que promovem a discriminação.

A professora Thais Silveira, em campanha social da Universidade La Salle, produziu o vídeo Tire o racismo do seu vocabulário!, em que condena expressões e palavras  como “ter um pé na cozinha”, “denegrir” e “não sou tuas negas”, entre outras, vinculadas, de forma pejorativa, ao ser negro. Mas ela não se limita a denunciar o errado, e sim propõe alternativas respeitosas a todos.

É a correção no pensar e no agir, desconstruindo formas discriminatórias, naturalizadas na sociedade, como, por exemplo, atirar bananas em atletas negros em eventos esportivos.

O desprezo por nossas dores

O preconceito nas redes sociais é uma crescente – quanto mais tomamos posse de nós mesmos, maior a resistência dos que têm dificuldade em perceber que somos todos iguais. A desqualificação virtual, a partir da cor, não tem limite, ao lado do desprezo por nossas dores, comparando-as ao choro de crianças mimadas, entre outras muitas possibilidades que a crueldade humana é capaz de inventar.

Isso tudo apesar de o racismo ser identificado, na Constituição Federal, como uma forma de violação dos direitos e liberdades individuais. E nos termos do Artigo 5º, Inciso XLII, explicitar que a sua prática “constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão”.

O culto à beleza branca também tem lugar nas formas de pensar naturalizadas, com uma estratégia deliberada de ofuscar a beleza negra, seja por conta de nossos lábios grossos e carnudos; nossos cabelos crespos, que ficam lisos quando queremos ou trançados, dias a fios, em penteados estonteantes; seja o nosso tom de pele, perseguido todo verão pelos não negros; seja por nossa sensualidade natural…

Primeira negra

Michelle Obama, em seu livro Minha Vida, conta como teve de lutar para não se deixar destruir, quando seu marido decidiu candidatar-se à presidência dos Estados Unidos. No caminho para a conquista do pioneirismo como primeira mulher negra a se tornar primeira dama dos Estados Unidos da América, matriarca da primeira família negra a morar na Casa Branca, até de racista e terrorista ela foi acusada.

Nem a largura de seus quadris ou seu visual foi deixado de lado. A dúvida, registrada na imprensa americana, sobre seu modo de vestir, de apresentar-se ao mundo, foi: “Majestoso ou Intimidante”? E em tudo estava implícita a estratégia de invalidá-la.

“Eu estava me cansando, não física, mas emocionalmente. Os golpes machucavam… Era como se existisse uma versão caricatural de mim (…) Minha sensação era de que nada que eu fizesse estaria certo (…) Eu era mulher, negra e forte, o que para certas pessoas só poderia traduzir-se em ‘raivosa’. Outro clichê sempre empregado para varrer para o canto as mulheres de minorias, um sinal inconsciente de que não deveriam escutar o que tínhamos a dizer…”

E ela ainda escreve:

“Quantas ‘mulheres negras raivosas’ ficaram presas na lógica circular dessa expressão? (…) Eu estava esgotada pela crueldade, mas convicta de que não havia chance de eu desistir.”

Mergulho

A história dos negros não começa na escravidão, assim como a história dos imigrantes não começa no Brasil. Parece óbvio, não? Mas o que se sabe da origem da metade da população brasileira não branca? O que se ensina nas escolas sobre a origem negra do povo brasileiro? Quem sabe quais países formam a África? Quantos? Quem sabe que a África é um continente?

No Brasil, as leis 10.639/03 e 11.645/08 garantem que a história e as culturas africanas, afro brasileiras e indígenas façam parte do currículo escolar. Mas enquanto a lei não sai do papel, façamos a nossa parte em casa, incluindo o viver negro no cotidiano das crianças.

www.juicysantos.com.br - conceito de letramento racial e como ensinar as crianças

Livros infantis com negros como protagonistas e personagens importantes da nossa história podem fazer toda a diferença na formação dos adultos do amanhã e nas brincadeiras nos playgrounds, praças, parques e praias no hoje.

Desenhos, como os do Kiriku, a lenda do bebê guerreiro que salvou sua aldeia, são um jeito bacana de incluir o continente e a cultura africana no universo infantil

É possível, ainda, nestes tempos de quarentena apresentar à família a mancala, considerado “o pai dos jogos”, que existe há mais de 7.000 anos e foi criado no Egito, país do continente africano. É um jogo de estratégia, de raciocínio lógico, relacionado à semeadura, que pode ser feito com embalagem de ovos e sementes de feijão.

Uma última sugestão é criar abayomis, bonecas que as mulheres escravizadas faziam, rasgando a própria roupa, para distrair as suas crianças, quando estavam presas nos navios negreiros. Sem cola nem costura!

Tudo isso é letramento racial.

Sinônimo de auto questionamento, reflexão, prática de empatia, reeducar-se, reconstruir-se. É investimento em um mundo, uma sociedade melhor.