Victória Silva
Texto porVictória Silva
Jornalista, 23 anos - Santos

Youtuber e deficiente visual: conheça a história da Mari Romano

Santos é uma cidade de pessoas solícitas. E o cartão postal da cidade tem a imagem da renovação. A orla exala liberdade e energia, em seus movimentos e sons.

Ali tudo some. É só você e as ondas do mar.

É assim que Mari Romano enxerga a cidade onde vive.

Um belo olhar, de uma Santos que ela nunca viu em cores… Desde que nasceu, Mari é deficiente visual. No entanto, isso nunca representou exatamente um problema em sua vida: como qualquer jovem de 20 anos, ela gosta de mexer no celular e ir ao cinema, estuda (cursa Jornalismo) e adora namorar.

Mari (1)

#PraCegoVer: Ao fundo uma parede branca. Sentada em um sofá de cor clara, Mari sorri para a foto

Mas tem algo que a diferencia de muitos deficientes visuais: desde 2012, ela passou a dividir a sua vida na internet, mais especificamente no YouTube.

“Quando eu tinha uns 16 anos, passava a tarde assistindo conteúdo de youtubers. E eu decidi que queria me expressar daquela maneira na rede. Aí eu criei o canal para falar das coisas que eu gostava – filmes, músicas, series e outras coisas. Atualmente, ainda faço tudo isso, mas também falo sobre as pessoas com deficiência visual”, explica.

Segundo ela, inicialmente, o foco não estava na sua deficiência, pois ela acreditava que não falar a respeito era uma maneira de fazer com que as pessoas a tratassem normalmente. Mas, ao dar início ao curso de Jornalismo, ela mudou de pensamento. Outro fator que pesou: o fato de as pessoas que viam seus vídeos pedirem esse tipo de post.

Entre os vídeos postados – duas vezes por semana –, um dos temas é a vida de um cego, no quadro Cegosfera. Com um quê de ativismo, as gravações abordam suas frustrações com a falta de acessibilidade nos vídeo games, moda e respostas a curiosidades do público.

No canal da Mari Romano, o tom é sempre de bom humor e dito de uma forma que todos possam entender.

“Eu gosto do que eu faço. É isso. Eu me encontrei.  Meu objetivo é que mais pessoas escutem o que eu tenho para falar. Foi por conta do canal que eu fui estudar Jornalismo”, lembra.

Santos é acessível?

Uma vez por mês a Mari pega o ônibus e vai ao estúdio gravar os vídeos. Toda as noites, vai para a faculdade, também de ônibus. Por isso, ela não tem dúvidas em responder: infelizmente, falta muito para a cidade ser de todos.

Entre os pontos que deixam a desejar no dia-a-dia, ela aponta a calçada com piso tátil, sistema sonoro no transporte público e semáforos com o mesmo sistema. Sobre o último, Mari brinca:

“Eu não confio. Nunca dá para saber se funciona ou não, além de que em alguns pontos da cidade você encontra e, no restante, fica na mão. Acho mais fácil esperar alguém me oferecer ajuda!”.

A falta de confiança, por enquanto, não está só na travessa das ruas.

A Mari adora filmes e é viciada em Netflix, ou seja, ama ver as estreias com uma boa companhia, pipoca e refrigerante. No entanto, passou por uma situação desagradável outro dia em um cinema da cidade. O atendente levou ela e amiga (também deficiente visual) até a sala e combinou de ir busca-las, mas simplesmente não apareceu no final da sessão!

Pode isso? Não, óbvio! Ela prometeu que, numa próxima ocasião, vai reclamar. Até o Juicy Santos levou uns puxões de orelha e passou por uma curadoria do que tem que melhorar (estamos trabalhando nisso, Mari).

Apesar desses obstáculos, ela segue sorridente e com a certeza de que sua deficiência não a faz diferente. Afinal, tem coisas que ela faz e um monte de gente que enxerga não consegue, como, por exemplo, cantar e tocar violão.

Mari (3)

#PraCegoVer: Ao fundo uma parede branca. Mari está sentada em um sofá, onde toca violão.