Helle Alves: a jornalista pioneira que abriu caminhos para nós
A história da repórter que noticiou a morte de Che Guevara e entrevistou nomes como Pablo Neruda, a rainha Elizabeth II, o bispo Dom Hélder Câmara e presidentes brasileiros, entre eles Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros
Numa tarde de sábado qualquer na Estação da Cidadania, entre pilhas de livros usados, uma senhora pequena, de pouco mais de um 1m50, pega o microfone com as duas mãos. Os cabelos brancos, os óculos grandes e o sorriso calmo poderiam enganar. Ali, apresentando a Festa do Livro que ela mesma idealizou, ela parece “só” mais uma santista de coração apaixonada por literatura. Difícil é imaginar que essas mesmas mãos já apontaram para um helicóptero militar na Bolívia, em 1967, quando a repórter brasileira que viu de perto o corpo de Ernesto Che Guevara contou ao mundo o que havia acontecido.
Entre a Avenida Ana Costa e o vilarejo de Vallegrande, está Helle Alves, uma jornalista que abriu caminho para mim e outras tantas que vieram depois na cidade.

Uma lutadora
Helle Alves não nasceu em Santos, mas é impossível falar de jornalismo na Baixada Santista sem passar por ela.
Mineira de nascimento, santista por escolha e vanguardista por teimosia, ela transformou a própria vida em uma ponte entre jornalismo, literatura e direitos humanos.
Ela foi uma das repórteres mais importantes do século 20 no Brasil, conhecida por noticiar em primeira mão a morte de Ernesto Che Guevara na Bolívia e por ser referência para muitas outras mulheres dentro das redações.
Sonhos e inspiração
Helle Alves nasceu em 7 de dezembro de 1926, em Itanhandu, cidade do interior de Minas Gerais. Aos 15 anos, já colaborava com pequenos jornais e revistas com poemas e textos, iniciando precocemente a relação com a palavra impressa.
Já adulta, escreveu para diferentes veículos da imprensa escrita e da televisão, inclusive na extinta TV Tupi, um dos berços do audiovisual brasileiro.
Em 1959, ingressou nos Diários Associados, grupo de comunicação liderado por Assis Chateaubriand, trabalhando em jornais como Diário da Noite e Diário de São Paulo, numa época em que pouquíssimas mulheres conseguiam atuar como repórteres de hard news.
Sim, era um ambiente predominantemente masculino e machista. Mas isso não impediu Helle de se tornar repórter de geral, editoria que lhe permitia transitar por diferentes temas e territórios, do centro de São Paulo ao Xingu e à Amazônia. E Helle brilhava nesse papel..
A repórter que viu a morte de Che Guevara
O episódio mais conhecido da carreira de Helle Alves ocorreu em outubro de 1967, quando foi escalada pelos Diários Associados para cobrir, na Bolívia, o julgamento do francês Régis Debray, ligado à guerrilha de Che Guevara.
Percebendo a movimentação militar e a possibilidade de algo maior acontecendo, Helle mudou o rumo da pauta e decidiu acompanhar os desdobramentos que levaram ao anúncio da captura e morte do líder guerrilheiro.
Helle, o fotógrafo Antônio Moura e o cinegrafista Walter Gianello foram responsáveis pelas imagens e pelo relato que confirmaram ao mundo a morte de Che Guevara, a partir de Vallegrande.
Pois é, esse se tornou um dos maiores “furos” internacionais da imprensa brasileira.
O olhar privilegiado da jornalista sobre o episódio deu origem ao livro de memórias “Eu vi – quando mataram Che Guevara e outros momentos da História”, lançado em 2012 em Santos.
O livro reúne não apenas a cobertura da morte de Che, mas também outros momentos marcantes do século 20 no Brasil, como o misterioso acidente aéreo que matou o ex-presidente Castelo Branco e reportagens sobre temas sociais e de direitos humanos.
Ela falava de temas incômodos
Além da notícia sobre Che Guevara, Helle apostava em reportagens que afrontavam o moralismo e o conservadorismo de sua época.
Em seus textos para os Diários Associados, tratou a prostituição sob viés social, discutiu a opressão às mulheres casadas que dependiam de autorização escrita dos maridos para trabalhar fora e desmascarou uma quadrilha de pedófilos da elite paulistana.
Também entrevistou figuras centrais da política e da cultura mundial, como o poeta Pablo Neruda, Chico Buarque de Hollanda, a rainha Elizabeth II, o bispo Dom Hélder Câmara e presidentes brasileiros, entre eles Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros.
Em uma época em que poucas mulheres tinham acesso a essas fontes, sua atuação contribuiu para abrir espaço às jornalistas nas coberturas de política e de internacional.
E como Helle veio parar em Santos?
Depois de décadas de trabalho em São Paulo (e tendo perdido um filho, o cineasta Lael Rodrigues), a eterna repórter fixou residência aqui, onde viveu mais de 20 anos até sua morte.
Em entrevistas e textos autobiográficos, registrou que, já aposentada, encontrou na cidade um lugar para continuar atuando em causas sociais, especialmente ligadas à terceira idade e ao direito à leitura.
Na cidade, envolveu-se em movimentos de defesa dos direitos da pessoa idosa e participou da mobilização em torno do Estatuto do Idoso, aproximando comunicação, cidadania e envelhecimento ativo. Também deu oficinas de comunicação e criatividade para idosos em um centro de convivência, aproximando quem já tinha vivido muito das ferramentas de expressão e de narrativa sobre si.
Literatura, resistência e Festa do Livro
Em seu novo “lar, Helle era muito mais do que uma cidadã aposentada, como tantas que vemos por aí e cujas histórias de pioneirismo talvez não conheçamos.
Ela virou um ícone para quem pensa literatura como ferramenta de inclusão e resistência.

Já na maturidade, lançou seu primeiro romance, “Beco das calêndulas”. No livro, conduz a história para um universo mais íntimo e cotidiano, em que um beco e suas calêndulas viram palco de afetos, memórias e tensões miúdas. Aquelas que dizem muito sobre o Brasil profundo e também sobre cidades como Santos. Com uma prosa direta, mas cheia de imagens e detalhes, traz um clima de crônica com personagens que poderiam estar em uma rua da Vila Belmiro ou da Vila Mathias, diálogos que soam familiares e uma delicadeza que não exclui o olhar crítico de repórter, apenas o desloca para as frestas da vida comum.
A Festa do Livro na Estação da Cidadania, que agora acontece anualmente, foi idealizada por ela. Querido pela comunidade cultural santista, o evento do Fórum da Cidadania democratiza o acesso a obras e ao encontro entre autores e leitores.
Em 2009, deu um depoimento extenso ao Museu da Imagem e do Som de Santos contando suas memórias.
A despedida
Helle Alves morreu em 27 de janeiro de 2019, aos 92 anos, em Santos, vítima de infarto. O velório aconteceu na Beneficência Portuguesa e o enterro, no Cemitério da Areia Branca.
Após sua morte, a Festa do Livro seguiu, sempre valorizando a presença de autores do litoral paulista e do Vale do Ribeira, com destaque para literatura negra e povos originários.
Cidadania e diversidade andam juntas
Em entrevistas, a jornalista sempre enfatizava a importância da leitura como ferramenta de autonomia e senso crítico. Atuando de forma voluntária em projetos culturais e educativos, conectou escolas, coletivos e espaços públicos em torno de páginas – fosse no jornal ou nos livros.
Obrigada, Helle!. Sem você, nós não estaríamos aqui.