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Edméa Ladevig: o nome que Santos escolheu esquecer

Com um decreto, a Prefeitura de Santos apagou o único equipamento público que guardava a memória de Edméa Ladevig

Tempo de leitura: 5 minutos

O movimento Diretas Já foi a maior campanha popular da história brasileira. Milhões de pessoas foram às ruas exigir o fim da ditadura militar e o retorno das eleições diretas para presidente. O movimento garantiu a redemocratização e constituiu a democracia que vivemos hoje.

Muitas figuras conhecidas apoiaram a causa: Sócrates, Lula, Pelé, entre outros. Mas você sabia que uma mulher que vivia em Santos também foi peça fundamental nessa luta?

Seu nome era Edméa Ladevig. E não se assuste por não conhecer. Afinal, sua história foi tão apagada ao longo dos anos que ela parece mesmo apenas um fantasma de Santos.

www.juicysantos.com.br - Edméa LadevigFoto: Prefeitura de Santos

Tão apagada que, em 2024, os alunos da UME que carregava seu nome precisaram fazer um levantamento bibliográfico para descobrir mais sobre a patrona da própria escola. A falta de registros era tanta que os estudantes foram até a ex-prefeita Telma de Souza, uma das poucas pessoas que ainda guardava a memória de Edméa, para conseguir informações básicas sobre ela.

Isso já seria triste o suficiente. Mas Santos foi além.

Quem foi Edméa Ladevig?

Ela nasceu em Leme, no interior paulista, em 13 de fevereiro de 1942. Trabalhou como operária têxtil na Lupo. Mudou-se para Santos no início dos anos 1970 e aqui fincou raízes, criou sua filha Lara e construiu uma vida inteira de luta.

Em Santos, Edméa não parou um minuto.

Trabalhou com pescadores artesanais no Sítio Conceiçãozinha, no Guarujá, junto a universitários do Projeto Rondon. Discutiu com moradores sobre organização comunitária, posse da terra e sustentabilidade da pesca, muito antes de essas palavras virarem pauta de qualquer agenda pública.

Atuou no Sindicato dos Trabalhadores da Alimentação e na indústria pesqueira de Bertioga. Participou ativamente do Comitê Brasileiro por Anistia, na luta para que os exilados políticos da ditadura pudessem voltar para casa.

Foi fundadora do PT em Santos. A sede do partido, na época da fundação, era a própria casa de Edméa, na Rua Lopes Trovão, número 5, no bairro José Menino. Em 1982, candidatou-se a deputada estadual e recebeu 25 mil votos.

E, mesmo sem nunca ter sido vereadora, foi a primeira mulher a presidir a Câmara Municipal de Santos.

Ela morreu em 1984, durante uma panfletagem para o movimento Diretas Já.

O último rastro

A escola no bairro Gonzaga era o único equipamento público de Santos com o nome de Edméa. Batizada pela Lei Municipal 783/1991, sancionada pela então prefeita Telma de Souza, ela era o único sinal oficial de que essa mulher havia existido na cidade.

No dia 10 de fevereiro de 2026, o Decreto 11.136/2026 foi publicado no Diário Oficial do Município. A UME Edméa Ladevig passa a se chamar UME Edson Arantes do Nascimento.

www.juicysantos.com.br - Edméa Ladevig o nome que Santos escolheu esquecerFoto: Dougy Fernandes/Prefeitura de Santos

Em uma jogada de ironia histórica, foi a própria Telma de Souza que deu nome à escola em 1991. E é o Instituto Telma de Souza que hoje questiona a decisão de apagá-la.

Pelé merece homenagem. Mas essa troca faz sentido?

Essa é a pergunta que precisa ser feita com honestidade.

Edson Arantes do Nascimento é um dos maiores fenômenos esportivos que o mundo já produziu. Chegou ao Santos em julho de 1955, aos 15 anos, vindo de Três Corações (MG). Jogou no clube até 1974. Marcou 1.091 gols em 1.116 partidas. Conquistou três Copas do Mundo pela Seleção Brasileira. Tornou-se símbolo do Brasil para o mundo inteiro.

Além disso, Santos já conta com o Museu Pelé, que narra toda essa trajetória. O Rei já dá nome a ruas, estátuas, espaços e instituições. Enquanto vereadora, a própria Telma de Souza havia proposto nomear a pista da orla sentido São Vicente-Santos como Avenida Rei Pelé, uma homenagem que não precisaria apagar ninguém.

Assim, a questão não é se Pelé merece homenagem. Merece, e muito. A questão é: por que essa homenagem precisou custar o nome de Edméa?

Vale também lembrar que o próprio Edson fazia questão de separar Edson do Pelé. Um era o ser humano, com grandezas e contradições, inclusive a de não ter reconhecido a filha Sandra Regina, fruto de um relacionamento com a empregada doméstica Anísia Machado.

Sandra morreu em 2006, aos 42 anos, com metástase de um câncer de mama, após anos de batalha judicial para ser reconhecida como herdeira. Ela só conseguiu usar o sobrenome Arantes do Nascimento em 1996, com prova de DNA. O rei do futebol deu essa bola fora.

Homenagear o legado esportivo de Edson é legítimo. Mas a imagem que uma escola carrega difere de uma estátua ou de uma avenida. Uma escola nomeia um exemplo. E aqui vale perguntar: qual exemplo Santos quer dar às crianças e jovens? 

Santos precisa decidir que memórias vai guardar

Toda cidade escolhe, consciente ou não, quem vai lembrar e quem vai esquecer. Santos tem um museu para Pelé, estátuas de Pelé, ruas com o nome de Pelé. Pelé já está guardado. Edméa Ladevig tinha uma única escola.

A mulher que fundou o PT em Santos, que lutou pelos pescadores, pelos direitos das mulheres, pela anistia e pela democracia, que morreu nas ruas panfletando para que os brasileiros pudessem votar, merecia pelo menos isso.

Santos pode homenagear Pelé de outras formas. A pergunta que fica para a cidade é: quando uma mulher da periferia, operária, feminista e ativista, que morreu lutando pela democracia, não merece nem uma escola com seu nome, o que isso diz sobre quem Santos decide lembrar?

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