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Antes da internet, os cinemas de Santos foram palco de uma “guerra do pornô”

A cidade que hoje discute questões de moralidade, também teve quarenta anos de sessão adulta sem disfarce nenhum

Tempo de leitura: 6 minutos

Existe uma regra muito conhecida da internet, a de número 34, que diz que se algo existe, há pornografia sobre isso. Sem exceção.

Parando para pensar, essa é uma regra não escrita da vida bem mais antiga do que a internet. Acontece desde que o mundo é mundo: pinturas rupestres, esculturas de civilizações milenares e os bacanais da Roma Antiga já provavam esse ponto muito antes de alguém inventar a aba anônima do navegador.

www.juicysantos.com.br - bacanal

Claro que nem sempre por uma ótica de erotização explícita, mas talvez como necessidade humana de expressar sentimento e experiência. Afinal, sexo faz parte da natureza humana, mesmo quando a natureza humana finge muita inocência depois.

A sétima arte, portanto, não ficaria de fora dessa regra. Ainda assim, a ideia de assistir a uma cena de sexo cercado de desconhecidos na plateia soa hoje meio constrangedora.

Para quem gosta do cinema nacional, ao invés de só elogiar Glauber Rocha, vale puxar um fio bem mais suado: o circuito de salas que, da Belle Époque à pandemia, transformou parte do Centro e do Gonzaga em terra do tesão institucionalizado.

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Santos já teve fila de cinema para filme pornô. No Centro, em horário comercial, com poltrona de couro e tudo. Nada de motel disfarçado ou DVD pirata debaixo do balcão. Era ingresso, bilheteria e cartaz na calçada, igual a qualquer outra sessão.

Tudo isso no meio de uma ditadura pregando moral e bons costumes enquanto a cidade lotava poltronas para ver justamente o oposto disso.

A Rua XV já nasceu dividida

Em 1909, a Rua XV de Novembro concentrava o entretenimento santista. Surgia ali o Cine Moderno, com filmes europeus e americanos embalados por orquestra ao vivo.

Contudo, na mesma rua, o Cine Pathé já funcionava antes dele, e carregava um título que nenhum guia turístico menciona: foi o primeiro cinema de Santos a exibir filmes adultos. Pioneirismo é isso aí.

O teatro mais chique da cidade também passou por isso

O Teatro Guarany hoje é símbolo cultural, prédio protegido, point de espetáculo família. Mas nem sempre foi assim.

Depois da Primeira Guerra Mundial, esse mesmo endereço virou o cinema mais luxuoso de Santos, com poltronas de couro e ar condicionado importado.

Só que o glamour não durou para sempre. Nos anos 70, com a crise do cinema brasileiro, o Guarany perdeu o público nobre e, consequentemente, passou a exibir kung fu e pornochanchada para sobreviver. Pulou de plateia chique para plateia mais pipoca, e sem trocar de tapete (que devia estar grudento).

O Teatro Coliseu seguiu caminho parecido.

Os dois só voltaram à vocação original de teatro décadas depois e, hoje, são patrimônio municipal, sem placa nenhuma contando essa fase da biografia.

A guerra do pornô em Santos

Jornais da época registraram, em 1980, uma disputa comercial explícita entre os cinemas da cidade. Era, basicamente, um campeonato, com pôster e marketing mais agressivo que loja de colchão na Black Friday.

www.juicysantos.com.br - cartaz porno

O Cine Caiçara, no Boqueirão, abriu o confronto exibindo “Estória de O”, baseado em um grande clássico da literatura fetichista.

Em resposta, o Roxy, no Gonzaga, trouxe “Vanessa” e foi além: estampou no próprio cartaz o documento da Censura Federal, provando que aquele filme era libidinoso.

www.juicysantos.com.br - Censura Federal

Enquanto isso, o Cine Indaiá lançava “Giselle”, considerado o primeiro espetáculo pornográfico brasileiro. Bastava comprar ingresso para entrar, em pleno Centro e pleno Gonzaga, sem clandestinidade nenhuma envolvida e sem precisar sussurrar o nome do filme na bilheteria.

A ditadura, a moral e os bons costumes

Esse circuito funcionou, em boa parte, durante a ditadura militar, regime que se vendia como guardião da moral e dos bons costumes e perseguia comportamento lido como subversivo.

Ao mesmo tempo em que a ditadura proibia até beijos em locais públicos (e a perna cabeluda fiscalizava), salas inteiras de Santos exibiam filme adulto com aval explícito da Censura Federal estampado em cartaz. Moral seletiva é a especialidade da casa, aparentemente.

Logo, a repressão política conviveu, sem qualquer constrangimento aparente, com um mercado erótico institucionalizado. Tudo sob o mesmo governo, na mesma cidade, com o mesmo carimbo oficial liberando a sessão. Censor de dia, plateia de noite, quem sabe.

Um produto pensado para homens

Esse circuito, contudo, foi construído majoritariamente em torno do prazer masculino. Cartaz, propaganda, tudo trazia imagens de mulheres extremamente erotizadas e objetificadas, focando em atrair o público masculino.

Ainda assim, a pornochanchada tinha humor e roteiro com certa irreverência compartilhada, mesmo torta. Já o circuito mais hardcore não negociava sutileza nenhuma: a mulher aparecia quase sempre como objeto de exibição, raramente como alguém imaginado pela indústria sentado na plateia ao lado da pipoca.

Vai muito além da pornochanchada

Resumir essa história a comédia picante dos anos 70, com elenco descolado e trilha sonora animada, deixa de fora o que havia de mais denso no circuito santista.

O Cine Fugitivo, por exemplo, na Travessa Dona Adelina, perto da zona portuária, só programava filmes eróticos. Nada de comédia, nada de meio-termo, direto ao ponto desde o nome, que já avisava o programa da noite.

Já o Cine Alhambra, no Gonzaga, manteve sessão adulta nos anos 90 para tentar escapar do fechamento, que veio mesmo assim em 1999.

www.juicysantos.com.br - A história dos cinemas pornôs de SantosFoto: Carlos Pimentel Mendes

O sobrevivente de todos, porém, foi o Cine Júlio Dantas, aberto em 1979 na Rua São Francisco, 195. Enquanto o Roxy voltou à programação família e o Guarany virou teatro municipal, o Júlio Dantas seguiu firme por quatro décadas inteiras só com filmes adultos.

Fechou em setembro de 2020, vítima combinada de pandemia e internet, que já vinha roubando público havia anos. Restaram apenas os aparelhos de ar condicionado como testemunha do que ali funcionou por tanto tempo, no melhor estilo “se essas paredes falassem”. Se ligassem uma luz negra no local, provavelmente seria muito parecido a qualquer quadro de Jackson Pollock.

Porto de tudo, inclusive disso

Santos sempre foi porto de chegada. Gente de fora, costume de fora, navio carregado de novidade que outras cidades do interior só viam no jornal. Era questão de tempo até virar também porto de filme proibido.

A Regra 34 não escolhe cidade nem década. Funcionou nos bacanais, funcionou nas pinturas rupestres e funcionou direitinho na Avenida Ana Costa, com ar condicionado e poltrona reclinável.

A ditadura pode até ter pregado moral e bons costumes do palanque. Na bilheteria ao lado, porém, vendia ingresso para o contrário disso, com carimbo oficial e tudo.

Sempre que você escutar alguém dizendo “na minha época, o mundo era mais comportado”, pode contar que a história mostra outra coisa.

Se quiser conhecer outra história de um tempo em que Santos era bem menos careta (ou, pelo menos, fazia muita coisa no sigilo), leia nossa matéria e assista ao documentário sobre a icônica boate Pink Panther

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