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4 histórias que provam que Santos é uma capital do rock

Enquanto o resto do país ainda descobria o rock nacional pela MTV, o santista já tinha visto Titãs, Legião Urbana e Paralamas suando numa danceteria

Tempo de leitura: 5 minutos

Imagine a cena: início dos anos 1980, sol de rachar, fila na porta de uma danceteria. De um lado, moleque de bermuda e prancha debaixo do braço. Do outro, cara de jaqueta de couro suando litros no calor da Baixada. Os dois esperando pra ver uma banda que ninguém em São Paulo tinha ouvido falar direito ainda.

www.juicysantos.com.br - Santos, capital do rock a cidade que bate cabeça 

Foto: Reprodução

Essa banda, um ano depois, estaria em todas as rádios do Brasil.

Antes de virar hino nacional, o rock passou por Santos. A cidade recebeu as bandas ainda cruas, testou repertório novo antes da capital e, em algumas noites, viu carreiras inteiras chegarem ao fim.

1. A danceteria que virou porta de entrada pro rock nacional

Tudo começou com um empresário chamado Toninho Campos, hoje à frente da rede de cinemas Roxy. No Réveillon de 1982 para 1983, ele abriu a Heavy Metal, primeiro video bar do Brasil, onde videoclipes tocavam num telão gigante antes mesmo de existir MTV por aqui.

A casa ficava no lugar do extinto Cinema 1, de frente pra praia do Boqueirão. E o espaço recebeu nomes que ainda engatinhavam na carreira: Titãs na fase iê-iê-iê, Legião Urbana e Paralamas do Sucesso ainda dependendo de fita demo, Ultraje a Rigor com Roger Moreira testando repertório novo. O Ira! chegou a se envolver numa briga generalizada com surfistas locais durante um dos primeiros shows.

Capital Inicial e Kid Abelha também carimbavam passaporte na Heavy Metal na rota entre Rio e São Paulo. Santos, afinal, tinha fama de público exigente e fiel, difícil de enganar com hype.

2. Quando 6 mil pessoas lotaram um clube e viraram disco

Enquanto a Heavy Metal servia de laboratório, o Caiçara Music Hall funcionava como a grande arena da cidade. Ali, o Camisa de Vênus reuniu mais de 6 mil pessoas em março de 1986, com uma energia tão insana que a banda decidiu gravar o show ao vivo. Nascia o álbum Viva, hoje considerado um dos registros mais viscerais do rock nacional.

RPM também lotou o Caiçara no auge da RPM-mania, quando Paulo Ricardo era sinônimo de esgotar ingresso em qualquer cidade do país.

O Caiçara também guarda uma cicatriz. Foi lá que Cazuza subiu ao palco pela última vez com o Barão Vermelho, em julho de 1985, depois de uma negociação de bastidor que envolveu um empresário santista disposto a ir até o Rio de Janeiro convencer um artista em crise. O show terminou com Cazuza saindo do palco sem avisar. Nunca mais voltou pro grupo.

3. A cidade que viu mais de um fim

Santos parece ter um talento nada sutil pra testemunhar despedidas. O último show da Legião Urbana aconteceu na saudosa Reggae Night, no Morro da Nova Cintra, em janeiro de 1995. Renato Russo brigou com o público por causa de uma latinha jogada no palco e, meses depois, a turnê foi cancelada. O cantor morreria naquele mesmo ano.

A mesma Reggae Night recebeu os Mamonas Assassinas em dois shows lotados, em 1995. A curiosidade é que a música mais famosa da banda leva o nome de Santos, mas a história por trás da letra rolou em Praia Grande. A cidade ficou com o crédito mesmo assim.

E tem Chorão, que não nasceu santista, mas escolheu a cidade pra criar o Charlie Brown Jr. em 1992. O nome da banda nasceu numa barraca de coco na praia. A pizzaria onde ele comemorou aniversário, o skate park que ele mesmo construiu, a igreja onde se casou: tudo isso marcou a cidade como pistas de uma trilha sonora que nunca parou de tocar.

4. De dentro pra fora: as bandas que nasceram aqui

Além de receber os grandes nomes, Santos também exportou som pesado pro Brasil inteiro. O Vulcano, formado em 1981, é hoje reconhecido como um dos pioneiros do black e death metal da América Latina, com influência direta sobre o Sepultura e até sobre a cena norueguesa dos anos 90.

O Garage Fuzz, formado em 1991, construiu carreira sólida no hardcore melódico nacional cantando em inglês, influenciando toda uma geração de bandas independentes que surgiram nos anos 2000. A loja Sound Of Fish, no Gonzaga, funcionou como escola informal de rock alternativo pra quem cresceu na Baixada naquela época.

A Zimbra representa a geração seguinte, misturando indie rock e MPB, com shows que já cruzaram fronteira. Vale lembrar também da Harry, banda formada em 1985 e apontada por críticos como pioneira do rock eletrônico brasileiro, e da Aliados, que levou o rock melódico santista pra trilhas de novela e clipe de MTV.

O rock nunca foi embora, só trocou de palco

Nenhuma dessas histórias caberia num só show. A Heavy Metal virou igreja evangélica, a Reggae Night não existe mais e o Caiçara também ficou no passado, mas quem cresceu ouvindo essas histórias sabe que o rock santista nunca precisou de endereço fixo pra sobreviver.

No Dia do Rock, vale erguer o volume e lembrar que a Baixada Santista ajudou a escrever essa trilha sonora inteira.

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