Victória Silva
Texto porVictória Silva
Jornalista, 24 anos - Santos

Robinho no Santos Futebol Clube e os significados dessa contratação

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Conhecido por revelar craques a cada temporada, o Santos Futebol Clube tem uma história emocionante – seja você santista ou não. E mesmo se não gostar de futebol.

Quem nunca ouviu falar que o time parou uma guerra?

No Ensino Fundamental, meu professor de Educação Física também dava aulas de história e era santista roxo. Citou esse episódio, que aconteceu em 1969 durante a Guerra de Biafra, inúmeras vezes. Na mesma época, Robinho estava despontando como o nome da temporada na Vila Belmiro.

Era ficar distraído e levar um “pedala, Robinho” na nuca.

www.juicysantos.com.br - robinho de volta ao santos fc

E aí chegamos a 2020. Nos últimos anos, o time de marketing do clube deu aula de posicionamento. A faixa do #AcreditaNelas foi de arrepiar e a homenagem do Dia da Mulher também emocionou de tão linda. Isso sem contar o que rolou em várias outras ocasiões – como, por exemplo, o apoio à visibilidade do futebol feminino na época da Copa do Mundo.

Era tudo tão bem planejado que, em 2019, o marketing do time concorreu ao Troféu Conafut.

O Santos Futebol Clube era gigante

Era. Pois na última semana, a gente ficou sabendo que voltaremos a ver Robinho no Santos Futebol Clube. Aos 36 anos, o menino da Vila, rei das pedaladas, está de volta.

Acontece que agora ele não é tão menino assim…

Se você não sabe, Robinho saiu do Santos F.C pela primeira vez em 2005. Seu destino foi o Real Madrid e a transferência foi bem conturbada. Depois, ele voltou à Vila Belmiro em 2010 e em 2014. Em ambos os casos, graças a empréstimos feitos com outras equipes.

Acontece que, entre essas idas e vindas, Robinho deixou de ser apenas jogador.

O ídolo do Santos FC participou de um estupro coletivo na Itália em 2013.

A justiça italiana o condenou em primeira instância anos depois, em 2017, a nove anos de prisão. Não é um suposto estupro. É um caso condenação em primeira instância de um estupro coletivo – ele recorreu da decisão, que segue em segunda instância e pode ser arrasta por anos até a terceira (e última) delas.

A defesa de Robinho, de acordo com matéria da revista Veja, alega que ainda cabem recursos em relação à condenação em primeira instância.

Sem contrato milionário

E aí  na última semana o jogador, que em 2017 recebia R$ 1 milhão por mês, aceitou voltar ao Santos com um contrato de cinco meses e R$ 1.500 de salário. Logo em seguida, uma nova negociação deve ser feita e o valor, multiplicado algumas dezenas de vezes.

A conta não fecha.

E não estamos falando sobre o fato do Robinho receber, nos próximos meses, menos do que muita gente que você conhece. O posicionamento do time, que já falou que mulheres merecem respeito e que a culpa nunca é da vítima,  agora não faz sentido. Basta o mínimo de conhecimento em marketing e comunicação para saber: as ações de mídia precisam ser coniventes com as decisões tomadas pela diretoria da empresa.

+ Elas são o futebol feminino em Santos e têm um recado para dar

Nesse caso, não houve qualquer alinhamento.

No Brasil, anualmente, 66 mil pessoas sofrem estupro, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Só para ilustrar, no primeiro semestre de 2019, foram 251 casos registrados na Baixada Santista.

Vale lembrar que Santos é a cidade mais feminina de São Paulo. Por aqui, as mulheres representam 53,8% da população. Ou seja, cerca de 231 mil minas contra cerca de 198 mil homens.

Na arquibancada dos jogos de futebol, eles são a maioria. Não porque não existem mulheres torcendo pelo Santos FC, mas por que esse ainda é um ambiente opressor para elas. Ainda assim, há vários coletivos de torcedoras do time. Entre elas, o coro é unânime: o retorno de Robinho não é motivo de felicidade. Nem no campo, nem fora dele.

Talvez ‘falta de respeito’ seja a melhor expressão. É difícil colocar em palavras.  

Entre eles, há quem comemore. Mas parte dos torcedores também demonstrou insatisfação com a contratação do jogador nas redes sociais.

Que já não é tão brilhante assim

Antes de firmar contrato com o Santos, Robinho estava jogando na Turquia. Por lá, o jogador estava no banco de reservas. De 18 jogos da temporada só entrou em campo sete vezes.

O saldo de gols ficou zerado.

Neste sentido, a volta ao futebol brasileiro pode significar uma melhora no desempenho e, quem sabe, mais mídia para o jogador. Além disso, o Santos tem uma dívida de R$ 3 milhões que deve ser quitada agora que o camisa 7 está de volta.

A dívida, no entanto, passa a ser com as mulheres que sempre estiveram na torcida. Afinal de contas, a contratação escancara o quanto o discurso em prol das mulheres era frágil. Talvez a equipe de marketing do Santos não mereça o time. Talvez o time não mereça a diretoria que tem… O fato é que fica difícil colocar “torcer pelo Santos” como uma coisa tipicamente santista de agora em diante.

O Jabaquara e a Portuguesa, até então segunda opção de muitos santistas, se mostram mais dignos do orgulho caiçara.

Mais páginas policiais nessa história

Ter o Robinho no Santos Futebol Clube não é motivo de orgulho.

Mas, enquanto escrevíamos essa matéria, acabamos por descobrir que já faz algum tempo que outra manchete sobre estupro transita livremente pela Vila Belmiro. Cuca, técnico da equipe desde agosto desse ano, também tem esse feito em sua história.

Assim como o “novo” jogador da equipe, ele foi acusado, condenado e não cumpriu a pena pelo estupro de uma garota de 13 anos.

O caso em questão aconteceu há 33 anos, na Suíça, e rendeu 28 dias de detenção para o então atleta do Grêmio. Aparentemente, isso é página virada desde sempre no futebol e na sociedade brasileira. Já que o histórico do treinador tem passagem por diversos times brasileiros. Nos quais, muitas vezes, é chamado de professor.

O patriarcado continua ensinando. E eles seguem aprendendo direitinho.