Sangue latino: figurinos de Ney Matogrosso chegam a Santos
Os icônicos trajes do camaleão da música brasileira chegam ao Senac de Santos em março
Quem nunca ficou de boca aberta diante de Ney Matogrosso no palco? O homem que fez da roupa uma extensão da alma – e da voz, uma arma – chega à Baixada Santista de um jeito diferente. Infelizmente, não em carne e osso, mas em couro, plumas, tecido e história. A exposição de figurinos do artista ocupa o Senac Santos durante todo o mês de março, com entrada gratuita.

São peças usadas ao longo de décadas de carreira. Muitas delas desenhadas pelo próprio Ney. Isso mesmo: além de cantar como ninguém, o cara ainda assina os próprios looks.
Quero Ser Livre, ele já cantou. E livre ele é — inclusive para reinventar a moda brasileira do jeito dele.
Se você assistiu ao filme Homem com H e se encantou pelos looks do ícone, não dá pra perder essa mostra.
A roupa como manifesto
Ney Matogrosso nunca usou figurino só para se cobrir. Cada peça é um posicionamento. Uma declaração. Assim, ver essas roupas de perto é quase uma aula de comportamento e estética embalada em glitter e atitude.
Fotos: Laécio Lacerda
Santos, aliás, entende bem esse papo. A cidade tem uma cena criativa que vai muito além das praias. Aqui na Baixada, a moda também é potência – e cada vez mais consciente, plural e autoral.
A moda que nasce da areia
A Baixada Santista vai muito além de praia e porto. Seus criadores transformam tecido em identidade. Estilistas da região carregam no DNA aquela mistura particular de mar, diversidade e periferia que resulta em algo genuíno e insubstituível.
Além disso, esse movimento vai longe — literalmente. Uma santista está levando a moda inclusiva para a London Fashion Week. E não faltam talentos emergindo por aqui: os estilistas da Baixada Santista transbordam criatividade no design de moda e merecem tanto holofote quanto qualquer grande centro.
A chegada de uma exposição como a de Ney Matogrosso nos lembra que moda é política, é arte, é história – e Santos tem tudo isso em abundância.
Para quem não tinha coragem de ser, Ney tinha por todos
No Brasil da ditadura, subir num palco com o rosto pintado, o corpo seminu e uma voz que desafiava qualquer definição de gênero era um ato político — mesmo que ninguém chamasse assim na época.
Ney Matogrosso fez exatamente isso. E pagou o preço: seus shows foram progressivamente proibidos para menores, numa tentativa de conter o que o regime enxergava como ameaça à moral.
Portanto, não é exagero dizer que Ney foi um dos primeiros artistas brasileiros a tornar a existência LGBTQIA+ visível em horário nobre. Quando apareceu no Fantástico em 1973, com os Secos e Molhados, deixou o Brasil em choque — inclusive crianças que, décadas depois, admitiram que aquela figura andrógina e hipnótica foi sua primeira janela para um mundo além dos padrões.
Vale cada segundo
Afinal, o maior ensinamento de Ney Matogrosso talvez não esteja na voz nem na dança. Está na coragem de aparecer do jeito que você é — sem pedir licença. Assim, março em Santos ganha mais uma razão para sair de casa.
Serviço
Senac Santos — Avenida Conselheiro Nébias, 309, Vila Mathias, Santos/SP
Período: 2 a 31 de março de 2026
Horários: Segunda a sexta, das 8h às 21h | sábados, das 8h às 12h
Entrada gratuita