Texto porLeandro Marçal
Escritor e jornalista, Santos - SP

Vingança literária

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Antes de dar as costas e ignorar meus chamados, ela jogou a pá de cal: achava ridículo me ver mudando nomes de personagens, me camuflando num narrador diferente a cada texto para despejar angústias e rancores.

Não adiantava eu disfarçar, em eventos literários, alegando ao público ter somente fios de inspiração no dia a dia, a partir dos quais criava ficções, gerando empatia e identificação dos leitores, que pensavam ler a vida real do cronista.
Ela abominava minha suja estratégia de vingança literária contra as agruras do cotidiano.

E foi embora.

Nos momentos de briga, usamos armas capazes de reabrir velhas feridas nos oponentes. É como arrastar a faca cravada na barriga para destruir de vez os órgãos internos de quem foi golpeado. Crueldade pura.

www.juicysantos.com.br - vingança literária - uma crônica de leandro marçal

Tentei desencanar, a última das agressões gratuitas tentava me atingir o espírito. Busquei fugir do questionamento desnecessário em minha conduta. Revivi mentalmente um almoço de domingo. Me vi obrigado a explicar que meus pais na ficção não são meus pais da vida real.

Outra vez, tive problemas com um amigo próximo. Naquela semana, escrevi sobre quem esquece os boletos amigáveis para desfrutar de viagens inesquecíveis. Caiu como indireta. A Terra gira ao redor do sol, não de você, eu disse. Nunca mais nos falamos e a dívida comigo segue até hoje. Desisti de cobrá-lo.

Sem contar os conhecidos que me excluíram de suas redes sociais por não suportarem personagens caricatos.

Criados desde as últimas eleições, eram apoiadores desse governo sinistro. Frustrados, menos que medíocres. Os conhecidos se viram nas sátiras, fazendo arminha para resolver problemas como um bolo solado e o desemprego.

Pura coincidência. Essas pequenas ficções diárias têm só um pé na canoa da realidade, mas logo vão para outro destino, no meio de um mar vasto e sem bússola.

Num país com baixos índices de leitura, são normais as suspeitas de cutucões, alfinetadas e indiretas. Como se eu usasse dos raros espaços das crônicas para escrever textões de Facebook.

É possível, até, que estas linhas sejam entendidas como uma explicação desnecessária, o primeiro passo para denunciar a própria culpa no cartório.

Não duvido, ainda, que haja quem acredite nas histórias contadas acima como fatos, não pequenas ficções, me perguntando a quem me referi no quarto parágrafo e se a moça da abertura do texto era aquela da foto postada tempos atrás.

Na dúvida, se me perguntam, nego até a morte o uso da ficção como meio de vingança contra os pequenos inimigos diários. Para isso, eu teria que escrever muito mais, muito mais.