Texto porLeandro Marçal
Escritor e jornalista, Santos - SP

Um prédio novo

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O cheiro estranho permanecia. Depois de uns dias, virou fumaça e seu carro não saía do lugar.

Sem habilidades para a mecânica, acionou o seguro. Não havia previsão de quando seu bebê ficaria pronto. Avisou a chefia o motivo do atraso, passaria a semana indo ao escritório em transporte público.

Não lembrava a última vez em que acordou mais cedo, caminhou até o ponto e se deparou com outros trabalhadores e trabalhadoras. Olhando para o celular, descolavam os olhos da tela ao perceber a chegada de um ônibus. Conferiam o número da linha e voltavam a se distrair virtualmente.

Sabiam os horários e se cumprimentavam, se conheciam, conversavam sobre amenidades do cotidiano. Era um estranho vendo aquele contato. Perguntou se aquele que vinha passava na avenida do escritório.

“Passa sim. Aí o senhor tem que descer um ponto depois da igreja, a amarela grandona.”

Teria de andar uma quadra. Subiu e lamentou a falta de educação do motorista. A cara feia ao notar o pagamento com a nota de 20 foi constrangedora. Pensava nos relatórios a entregar, era fechamento de mês, à tarde cobraria o seguro.

Paciência, transporte público tem dessas coisas, ninguém é feliz de manhã, cobrando e dirigindo.

Encontrou um banco solitário lá no fundo. Prestava atenção nas mães, levando suas crianças ao colégio. Abriu a janela para tomar um ar, ficou impaciente ao ver mais gente entrando. O ônibus parava a cada ponto, havia mochilas pesadas estreitando o corredor, braços levantados se apoiando, a cordinha azul balançando esperando ser puxada. Voltou a olhar pela janela.

Pouco depois do semáforo, viu a construção gigantesca. A placa indicava uma entrega dali a uns meses. Mais um condomínio de incontáveis andares, sepultando o clube em que nadava duas vezes por semana e jogava futsal às sextas-feiras antes de entrar na faculdade.

Desde quando aquele prédio estava ali? Por que ninguém avisou nada?
De carro, cortava caminho e não passava naquele trecho estreito, entupido de veículos nos horários de pico. Dirigindo, não tinha tempo para olhar a paisagem, precisava se preocupar com quem passasse à frente, com os reflexos nos retrovisores, com a sinfonia dos pés na embreagem, acelerador e freio, conduzidas por duas mãos no volante, uma flertando com a janela, outra dando ordens ao câmbio manual.

A cidade rendida ao concreto, às alturas. E a algo mais. O velho clube abrigava lembranças da juventude. Tudo agora enterrado por futuros elevadores, estacionamentos, piscinas, academia e espaço gourmet. Deveria ser crime ver espaços da nossa infância, como quitandas familiares, dando lugar a construções que nos fazem doer o pescoço para enxergar seu topo. Deveria ser crime o sequestro do trânsito, que lhe impedia de observar ao redor as mudanças urbanas.

Restou se conformar. Deu sinal, desceu no ponto depois da igreja amarela e grandona. Viu que ela estava em reforma, respirou. Apressou o passo, teve medo de se atrasar.

Atravessou a rua, cumprimentou o porteiro, bateu o cartão e começou o expediente.