Texto porLeandro Marçal
Escritor e jornalista, Santos - SP

Travessia

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Pessoal, chegou a hora.

Temos que encarar esse mar agitado. Eu também fico com medo, muito medo, das ondas gigantes, do risco não chegar ao outro lado, nem dá pra enxergar nada a terra lá, tão longe. Mas não tem outra alternativa.

Olhem pra trás.

Viram?

Eles estão cada vez mais perto.

Se atravessarmos, podemos morrer. Se a gente ficar, a morte é certa. Sem chance, questão de tempo.

Não sei vocês, mas prefiro lutar pela vida do que me entregar assim, de bandeja.

Não temos a mínima chance contra eles.

www.juicysantos.com.br - pessoa atravessa o mar a nado

Não cheguei aqui pra ver cada um de nós ser assim, exterminado, se rendendo passivamente.

Priorizem os coletes salva-vidas pra quem não sabe nadar. Sejam honestos, pensem no coletivo. Por favor.

Os mais fracos, sem coordenação pra mexer braços e pernas, para flutuar na água e puxar uns aos outros, precisam da colaboração de cada um de nós. Seria muito cretino usar o colete e deixar quem mais precisa se afogar nos primeiros metros da travessia.

É impossível saber quem vai chegar até o outro lado. Uns vão sucumbir na metade do caminho, outros não resistirão às cãibras entre uma braçada e outra, haverá quem perca o fôlego antes de pisar em terra. Não saberemos quem terá boa ou má sorte sem tentar, sem arriscar.

É o jeito, é a vida.

Paciência.

Não estou preocupado em como serão as coisas do outro lado. Só quero chegar lá, com vocês, com o máximo de vocês. Se fosse possível, com todos vocês. Daqui pra frente, pouco me importam as picuinhas, os desentendimentos, prejuízos financeiros, ganância e falta de caráter, canalhices que destruíram amizades e famílias, filhos da puta que me tiraram o sono em noites eternas.

Só me importa chegar lá, do outro lado.

Os bons nadadores precisam ter consciência, precisamos de suas braçadas fortes e pernas batendo na água. Eu errei, nós erramos esse tempo todo. E seguiremos errando depois, não se enganem.

Quando a travessia terminar, pensamos no que fazer, em como será, nas formas de secar o corpo para impedir a hipotermia e outras complicações da friagem do mar desconhecido.

Nem adianta perguntar. A travessia pode ser demorada, mais demorada, ou muito mais que demorada. Não esperem facilidades. Ninguém precisa se jogar na água assim, de repente, há mais de 100 anos. Nem o maior campeão de maratonas aquáticas é capaz de dizer com precisão o potencial de estrago que essa água vai nos causar.

Bem, falei demais. Eles estão cada vez mais perto. Seja o que Deus quiser. Vou pular. Nos vemos em terra, do outro lado, mais fortes, talvez mais sábios.