Querelas do Brasil
Quando dizem que o Brasil acabou, tratam essas terras como um legítimo país de merda, repetem a impossibilidade de darmos certo como nação – seja lá o que isso signifique – rebato com uma pergunta: de qual Brasil você está falando?
Em geral, as pessoas estranham, pedem mais uma cerveja, se for possível, e me pedem explicações mais aprofundadas.
Cito, então, o mestre Aldir Blanc e a lenda Elis Regina. Há uma música composta por ele e famosa na voz dela cujo título é o mesmo dessa crônica.
O Brazil não conhece o Brasil, o Brasil nunca foi ao Brazil
Não acredito em otimismo, só para deixar claro.
Tomo um gole e digo, sem gaguejar: não há o Brasil, mas os Brasis. O meu Brasil, por exemplo, é esse aí, de Aldir Blanc e Elis Regina. Não é o Brazil, com Z, do vira-latismo. Não é o Brazil da profusão exagerada de estrangeirismos desnecessários. O Brasil que acredito é lindo de dar inveja aos que acham linda nossa capacidade de autodestruição.
Sou um entusiasta do Brasil onde nasce flor. O Brasil de Mano Brown. Não curto a ideia do Brasil que enterra infâncias em desigualdade, violência e outras querelas. O Brasil que me inspira é criador, renovador, animador. Talvez o Brasil de quem inspira o Brazil não seja possível para mim, fica irrespirável, quase. Meu Brasil é raro, mesmo dentro do Brasil desses dias.
O Brazil não merece o Brasil, o Brazil tá matando o Brasil
Diariamente, o Brasil do racismo me envergonha. O Brasil da homofobia, da misoginia, do ódio ao pobre, dos preconceitos, também. E o que falar do Brasil da politicagem? Não falo de política, porque esta é uma nobre atividade para melhorar a vida da população. Politicagem é outra coisa. Péssima, pérfida, terrível, gananciosa. Esse Brasil vai aparecer já já, em tempos de eleição.
Esse Brasil que me entristece sente um prazer quase sexual com a destruição da Amazônia, goza com violência policial, relincha com a brutalidade parida pela desigualdade.
Esse não é o meu Brasil. Deve ser o Brazil.
O Brasil que eu acredito é cultura e arte, até onde não há saneamento básico e pão na mesa. Meu Brasil não aceita a ideia de um sotaque bonito e outro feio. Isso é coisa do Brazil, porque os sotaques dos Brasis são todos maravilhosos. Não existe o Brasil, existem os Brasis.
O da praia, o do campo, o do interior do interior, o das fronteiras. Há Brasis que desconhecem outros Brasis, mais profundos.
Aldir Blanc sabia disso, Elis cantou alto, Maria Rita repetiu a mãe. Na certa, não há Brasil a salvo nos últimos tempos. Precisamos entender mais os tantos Brasis e tomar mais um gole, depois de repensar as querelas do Brasil. Dos Brasis.