Juicy Santos
Texto porJuicy Santos
Santos

Entrevista com a escritora Beth Soares

Para os amantes dos livros, uma novidade bacana. Após o lançamento de Vermelha é a Cor da Esperança, da professora Ana Rosa Zuffo, a editora santista Ateliê de Palavras – Conteúdo e Edições, recém-criada pelos jornalistas Marcus Vinicius Batista e Beth Soares, se prepara para lançar seu segundo livro: Até o Fim, escrito por Beth Soares e Jessika Nobre, com capa de Kitty Yoshioka.

Neste livro-reportagem, as autoras abordam um tema muitas vezes temido: a morte, através do retrato de quatro mulheres, que não se conhecem, mas que têm em comum o desafio de superar doenças. Apesar do tema, o livro busca celebrar a vida.

Abaixo, confira uma entrevista com uma das autoras, a santista Beth Soares.

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Como surgiu a ideia de se tornar escritora?

Na verdade não sei se a ideia “surgiu”. Acredito que tenha sido um processo que começou na faculdade de Jornalismo. Fui tendo contato com o jornalismo literário, uma linguagem do jornalismo que me fazia gostar muito de escrever. Conheci textos de alguns jornalistas dessa vertente, como John Hersey, Gay Talese, Truman Capote e da brasileira Eliane Brum. Fui sendo levada por esse caminho e, em dado momento, nas aulas de Estudos da Linguagem, tive contato com a ficção, especialmente conto e alguma coisa de poesia, estudando letras de músicas de compositores brasileiros. Percebi, quando me formei, que estava sabotando todas as possibilidades de trabalho em jornal diário, TV e coisas do tipo. Então, tive que encarar que eu não queria ter aquela vida corrida de jornalista. Eu sentia prazer mesmo era em escrever. Mas sinceramente não me considero uma escritora. Atualmente faço pós-graduação em Formação de Escritores. Talvez quando concluir o curso eu me sinta mais segura para, um dia, com a prática, me sentir à vontade para me auto-intitular escritora.

O que te motivou a escrever Até o Fim? O que você pensa sobre a morte? Como é escrever sobre um tema destes, forte e muitas vezes temido? 

Até o Fim surgiu do meu TCC em Jornalismo. Eu e a Jessika Nobre optamos em falar de morte porque ambas já tivemos trabalhos que lidavam com o assunto. Minha primeira graduação foi em Serviço Social e quando terminei a faculdade meu primeiro trabalho foi em um hospital estadual, o Guilherme Álvaro. Trabalhei na enfermaria onde ficavam os pacientes terminais. Durante o período que fiquei lá, me incomodava muito a maneira como a maioria dos profissionais de saúde lidavam com a morte dos pacientes, a forma como tratavam os familiares, como empurravam para assistentes sociais e psicólogos a tarefa de ter que falar sobre isso, embora fizessem parte do cotidiano deles. É maluco e contraditório como eles fogem do tema. Então, fomos pesquisar sobre o assunto e descobrimos os Cuidados Paliativos. É uma alternativa para pessoas que têm doenças sem possibilidade de cura. Conversamos com muita gente, até conhecermos as quatro personagens que têm doenças incuráveis, cujas histórias tratamos no livro. Também conversamos com médicos e destinamos dois capítulos para falar de suas histórias e lutas dentro da área da saúde, para que se fale sobre morte. Aprendi, nesse processo de pesquisas e entrevistas com essas pessoas que a morte não é o oposto da vida. Ela é um dos processos da vida, faz parte dela, inevitavelmente. Então, ao invés de fugir e fingir que “não é conosco”, por que não tentar lidar com a finitude de uma maneira mais leve, sendo honesto, falando sobre isso com todas as letras, sem usar palavras bonitinhas para esconder o medo que temos?

Além disso, como foi escrever o livro em parceria? 

Foi um desafio! Uma experiência e tanto, pois nem sempre é fácil casar horários, ideias e disponibilidade. Mas acredito que o resultado tenha sido bom.

Além de jornalista e escritora, você também é uma das proprietárias da editora Ateliê de Palavras. Como surgiu a ideia de criar uma editora?

A ideia surgiu durante a campanha de financiamento coletivo para o livro do Marcus, Quando os Mudos Conversam. Nós trabalhamos muito durante os meses de campanha e, depois, para divulgação do livro. Vimos que, com a ajuda desse tipo de financiamento, era possível trazer a público obras de profissionais que têm muito talento, mas não conseguem espaço no mercado editorial para publicarem seus trabalhos. Contamos para essas pessoas nossa ideia e elas toparam tentar editar conosco. Corremos atrás de cursos para nos prepararmos para a parte administrativa e burocrática (que é chata, mas necessária) e iniciamos… O primeiro livro já foi lançado, o segundo, que é o Até o Fim, será lançado no próximo dia 28 e o terceiro será em maio… e tem mais dois já em andamento. É uma correria, porque temos nossos trabalhos formais, que ainda são o que seguram as contas… rsrsrs. Mas acreditamos que vai dar certo.

Quais os desafios que está enfrentando? Como é trabalhar neste ramo em Santos? E como você concilia os múltiplos papéis (de proprietária e autora)?

Não é fácil. O principal desafio é o tempo. Como disse anteriormente, eu e o Marcus ainda trabalhamos formalmente, ele na Unisantos e Unisanta e eu na Prefeitura de Santos. Temos que cumprir expediente lá e, quando chegamos em casa, ainda tem um monte de trabalho da editora esperando, coisas que nem sempre podem esperar. O resultado são poucas horas de sono e de lazer. Mas toda essa correria vale a pena, pois fazemos com muito prazer. Até agora não sentimos muito a limitação geográfica pelo fato de estarmos em Santos, porque usamos basicamente a internet para todos os processos. A gráfica com a qual trabalhamos, por exemplo, fica em Curitiba… Mas no sentido cultural, embora não se compare à Capital em diversidade de opções, Santos tem seus lados bons. Sabemos que este ramo é difícil em todos os lugares, seja numa cidade de médio porte ou numa grande metrópole. O que desde o início colocamos na cabeça é que precisamos de um diferencial: o jeito de lidar com o autor. Trazê-lo para perto, ouvi-lo, ter respeito por ele e pela obra dele. Aí está a carência, não só neste ramo, mas em muitos outros, em Santos e em outros lugares.

Para lançar o primeiro livro da editora, Vermelha é a Cor da Esperança, vocês criaram uma campanha de financiamento coletivo na internet. Além disso, vocês utilizam rede social para divulgar trechos dos livros, informar o andamento do processo de confecção do livro aos leitores. Fale-nos mais sobre este modo tão interativo da editora de vocês. Que respostas estão tendo do público? O que estão aprendendo com a experiência?

É uma oportunidade incrível para todo mundo, editores, autores e leitores. Todo mundo ganha. Fico impressionada como algumas pessoas só conseguem ver o lado ruim da tecnologia e insistem em dizer que ela só afasta as pessoas. Isso não é verdade. Existem muitas possibilidades de estreitarmos o contato e temos percebido isso neste trabalho. As pessoas que contribuem com a campanha, que são os leitores, usam as redes sociais e e-mails para falar diretamente com o autor e conosco. Isso é ótimo, porque podemos saber onde acertamos e onde erramos numa velocidade incrível, algumas vezes a tempo de corrigir erros que poderiam dificultar muito o trabalho. Estamos aprendendo a aproveitar ao máximo esse lado positivo.

Você já tem planos para um próximo livro?

Como editores, vários! Depois de lançarmos o Até o Fim, será a vez de lançar, em maio, a obra O Berro da Ovelha Negra, do desenhista de humor Osvaldo DaCosta. O livro conta a história do Jornal Ovelha Negra, publicado na década de 1970, feito por cartunistas, que tinha como objetivo criticar a ditadura militar brasileira. Também está no forno um livro de contos do jornalista e professor universitário André Rittes. Planos como autores? Sim, também. Marcus tem alguns projetos – um segundo livro de crônicas e outro sobre racismo -, e eu também já pensei em compilar algumas de minhas crônicas, mas por enquanto são planos.

E sobre a editora Ateliê de Palavras, você pode nos adiantar alguma novidade?

Além dos livros do DaCosta e do André Rittes, estamos com o projeto de uma biografia, sobre um sobrevivente de campo de concentração da Segunda Guerra, que mora no Brasil. A Ateliê de Palavras está, aos pouquinhos, buscando seu espaço, mas não pretende se tornar uma grande, talvez nem mesmo média empresa. Acho que o mérito está justamente em ser bem pequena, estar perto de leitores e autores, cuidando de cada obra com respeito e carinho. Talvez essa seja a grande novidade, que há tempos muitos esperavam de uma editora, inclusive eu e o Marcus.

Informações sobre o livro e o lançamento:

Livro: Até o Fim
Autoras: Beth Soares e Jessika Nobre
Editora: Ateliê de Palavras – Conteúdo e Edições
Data: 28 de março (sábado)
Horário: 18 às 21h
Local: Estação da Cidadania (Av. Ana Costa, 340 – em frente ao Hipermercado Extra)