Texto porLeandro Marçal
Escritor e jornalista, Santos - SP

Copo quebrado

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Convidei meus dois melhores amigos para tomar cerveja no novo apartamento. Comprei copos americanos para essas ocasiões. Seria a primeira visita deles ao meu novo lar.

Agradeci os parabéns e me vi obrigado a cumprir a ingrata tarefa de mostrar todos os cômodos, esse costume estranho de provar que dei certo na vida. Resultado de muito esforço e trabalho, fazia questão de compartilhar o momento com quem tinha tratamento e intimidade de irmãos.

Depois da terceira garrafa, o copo escorregou da minha mão e se espatifou em incontáveis pedaços. Rindo, me perguntaram se eu já estava bêbado.

“Minha mão tava molhada”, respondi.

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Fui buscar a vassoura para recolher os cacos, a pá para agrupá-los e o jornal para o embrulho. Aprendi com minha mãe a usar notícias antigas para proteger as mãos dos profissionais da coleta de lixo de eventuais cortes. Poderiam lhes causar doenças sérias, ela repetia a cada lição de moral depois de ver vasilhas, pratos e xícaras novas quebrados por problemas de coordenação motora.

Pisei no pedal da lixeira e conferi se não havia mais cacos perdidos no piso novo. Reparei nos dois amigos de longa data se divertindo. Eles não repararam no meu trabalho para limpar a sujeira.

Pensei nas vezes em que recolhi cacos sem ajuda de ninguém. Antes de o copo ruir, há sorrisos e abraços. Depois de ver o vidro no chão, há quem se priorize o próximo gole. A garganta seca.

Nessas horas, noto a indisposição de quem me cerca para buscar o jornal. É raro alguém se dirigir até a área de serviço para trazer a vassoura e posicionar a pá. Preferem continuar bebendo na minha ausência. Daí a importância de aprender com minha mãe a recolher o lixo, para não me sentir perdido em meio ao líquido derramado.

A cada caco recolhido, ouvia as risadas no cômodo vizinho. Tentei desencanar: a casa é minha, eu precisava me virar sozinho. Afinal, eram meus melhores amigos e estavam ali para tomar umas. Ninguém é obrigado a recolher os cacos alheios. Cada um toma conta do próprio copo.

Ouvi passos e o pedido por mais uma cerveja. Levantei os olhos e dei um sorriso sem graça.

-Pô, não vai passar um pano? Assim vai ficar tudo melecado…

No dia seguinte, fui até o banheiro e pisei em um pedaço de vidro. Não é tão fácil recolher os cacos e o chão parece que nunca mais será o mesmo antes que eu passe um produto de limpeza.