Clique aqui e confira também nosso tema da semana

Este jogo fez jovens olharem para o patrimônio histórico de Santos de outro jeito

Entre jogos, oficinas e passeios pelo Centro Histórico, estudantes de Santos descobriram que a história da cidade não está apenas nos livros, mas também nas ruas, fachadas e memórias que fazem parte do dia a dia

Tempo de leitura: 7 minutos

Toda cidade é cheia de histórias escondidas em fachadas, praças, monumentos e ruas por onde várias pessoas passam todos os dias sem reparar.

Tem gente por aí que conhece mais castelos europeus ou atrações da Disney do que os prédios históricos das ruas e avenidas de onde mora.

Mas o curioso é que, aqui em Santos, boa parte desses lugares está justamente no Centro Histórico, um dos bairros mais visitados e, ao mesmo tempo, menos observados da cidade.

Foi desse desafio que nasceu o City Tour Game Santos: Educando para Preservar, Conhecendo para Pertencer, projeto que troca a aula tradicional por uma mistura de jogo, passeio e descoberta.

Mulher em camisa amarela joga board game verde com temática de cidade, outras pessoas observam.

A proposta é simples na teoria: apresentar o patrimônio cultural santista para estudantes. Mas, na real, faz algo bem mais interessante. Mostra que a história da cidade não está apenas em museus ou livros didáticos. Ela se espalha por aí de um jeito orgânico e vivo. 

Desenvolvido pelas arquitetas Rita Yoshitaka e Amanda Guerra, em parceria com o Instituto Procomum, e recebeu apoio do edital CAU Educa, do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU/SP), o projeto levou alunos do 9º ano da UME Avelino da Paz Vieira para uma jornada que começou em sala de aula, passou por oficinas e terminou caminhando pelo Centro Histórico com um olhar completamente diferente.

Cuidar da memória também é pensar o futuro

Quem pega o bonde turístico provavelmente já viu aquelas fachadas centenárias. Mas conhecer um lugar e entender um lugar são coisas diferentes.

Durante as atividades, muitos estudantes descobriram exatamente isso. 

Grupo de jovens e adultos posando sorridentes em frente a uma imponente igreja com cúpula azul

Alguns contaram que já tinham visitado aqueles espaços com familiares. Outros revelaram que estavam conhecendo pontos turísticos da própria cidade pela primeira vez.

Quando a turma saiu da escola e foi para as ruas, a percepção mudou.

“Os estudantes começaram a observar detalhes das fachadas, identificar elementos arquitetônicos e compreender que cada prédio, praça ou monumento guarda histórias importantes sobre a formação da cidade”, explicam Rita Yoshitaka e Amanda Guerra.

Foi então que o Centro Histórico deixou de ser cenário e virou personagem da própria história deles. 

Santos da aula

O City Tour Game Santos nasceu de uma provocação simples: como falar sobre patrimônio histórico para crianças e adolescentes sem transformar o assunto em uma sequência de datas para decorar?

A resposta veio na forma de um tabuleiro.

Contemplado pelo edital CAU Educa, do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU/SP), a ideia era fazer um jogo educativo que apresentasse conceitos ligados ao patrimônio material e imaterial da cidade.

Mulher apresenta mapa aéreo do Google Maps em tela interativa para uma audiência em sala de aula.

Porém, o jogo é apenas uma parte da vivência.

Ao longo do processo, estudantes participaram de oficinas, atividades práticas, debates, aulas de educação patrimonial e da construção de mapas afetivos. Além disso, professores de Artes e História e estagiárias de Arquitetura também integraram as ações.

“Muitas pessoas imaginam que patrimônio histórico é algo distante ou restrito aos especialistas. Queríamos mostrar que ele faz parte do cotidiano, das memórias familiares e dos lugares que frequentamos”, afirmam as arquitetas.

Para além dos livros, o patrimônio de uma cidade ou país está nos nossos trajetos diários, nas histórias das famílias, nos edifícios que resistem ao tempo e até nos lugares pelos quais passamos sem notar. 

Quando um prédio deixa de ser apenas um prédio

Uma das transformações mais interessantes percebidas pela equipe não aconteceu durante o passeio. Ela começou antes.

Ainda nas oficinas, os estudantes passaram a fazer perguntas que antes não faziam. Queriam saber quem construiu determinados edifícios, por que algumas fachadas eram diferentes das outras e quais histórias estavam escondidas atrás daqueles espaços.

Grupo de jovens e adultos sorrindo em frente a uma igreja grandiosa com cúpula azul claro, em um passeio urbano.

Segundo Rita e Amanda, o objetivo nunca foi apenas ensinar arquitetura ou urbanismo.

“Quando o aprendizado acontece de forma lúdica, ele deixa de ser uma obrigação e vira uma descoberta. O jogo cria um ambiente em que os alunos aprendem enquanto interagem, resolvem desafios e compartilham experiências”.

Isso desenvolve algo que costuma faltar nos debates sobre a cidade: o sentimento de pertencimento.

Afinal, é difícil cuidar daquilo que não se conhece. Mais difícil ainda é defender algo que parece não fazer parte da própria história.

Quem vai cuidar da memória de Santos no futuro?

As arquitetas acreditam que iniciativas como essa podem despertar futuras vocações profissionais. Alguns estudantes acabam por descobrir um interesse por Arquitetura, Urbanismo, História ou preservação cultural.

Mas o impacto não depende dessa escolha.

“Mesmo que não sigam essas profissões, já teremos alcançado um resultado muito importante: formar cidadãos mais conscientes, que compreendem o valor da memória, respeitam os espaços públicos e reconhecem seu papel na construção de uma cidade melhor.”

Em uma cidade que frequentemente discute o futuro do Centro Histórico, a fala faz sentido.

Além da fiscalização

Quando se fala em Conselho de Arquitetura e Urbanismo, muita gente pensa apenas em registros profissionais, documentos e fiscalização.

Existe uma frente de atuação, no entanto, que passa longe dos escritórios.

Segundo Gustavo T. de Miranda, coordenador do Escritório Descentralizado do CAU/SP em Santos, o conselho realiza anualmente editais para apoiar projetos desenvolvidos por organizações da sociedade civil em parceria com arquitetos e urbanistas.

Essas iniciativas estão divididas em três áreas principais.

A primeira é a Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS), voltada para melhorias habitacionais e regularização fundiária em áreas vulnerabilizadas.

A segunda é o CAU Educa, linha que apoiou o City Tour Game Santos e incentiva projetos de educação urbana, ambiental e patrimonial.

Já a terceira é o PAT Cultural, direcionado à preservação do patrimônio arquitetônico e cultural.

“O conselho busca fomentar ações fundamentais para a sociedade e mostrar como a arquitetura e o urbanismo estão presentes no cotidiano das pessoas”, explica Miranda.

Segundo ele, esses projetos também ajudam a aproximar debates importantes sobre habitação, patrimônio, mobilidade e uso dos espaços públicos da realidade da população.

Além disso, reafirmam o papel dos arquitetos e urbanistas na construção de cidades mais justas e sustentáveis.

Patrimônio não fica no passado

Existe uma ideia comum de que patrimônio histórico é algo parado no tempo. Mas a experiência dos estudantes com o City Tour Game Santos mostra justamente o contrário.

O patrimônio continua vivo enquanto alguém reconhece seu valor, quando uma criança descobre a história de um prédio que via todos os dias sem perceber ou uma família retorna ao Centro Histórico porque um filho decidiu mostrar algo novo que aprendeu sobre a própria cidade.

Santos costuma olhar para frente. E faz bem.

Mas talvez parte do futuro da cidade depende também da capacidade de olhar ao redor e perceber tudo aquilo que já está ou estava aqui antes. 

Serviço

Projeto: City Tour Game Santos: Educando para Preservar, Conhecendo para Pertencer
Idealização: Rita Yoshitaka e Amanda Guerra
Realização: Instituto Procomum
Apoio: Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU/SP), por meio do edital CAU Educa

Compartilhar