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Como seria Santos sem Telma de Souza?

Entre 1989 e 1992, sua gestão aproximou o poder público da vida real em Santos, levando policlínicas aos bairros, enfrentando o isolamento de pessoas em sofrimento psíquico e melhorando a balneabilidade das praias, entre outras coisas

Tempo de leitura: 12 minutos

Santos tinha acabado de eleger sua primeira prefeita. Era 1988 e Telma de Souza chorou. Quem estava por perto imaginava que fosse a emoção da vitória. Mas, anos depois, ela explicaria que havia outro sentimento por trás das lágrimas.

Por trás da política de opiniões fortes, também havia um certo temor.

Ela mesma revelou essa memória anos mais tarde no podcast Baixada em Pauta, contando como se sentiu ao ser eleita.

“Fiquei uns dois, três dias chorando e todo mundo dizia: Como ela é sensível, como está emocionada. Que nada, eu estava com medo, porque eu sabia o que eu não devia fazer, mas não tinha certeza daquilo que eu devia fazer”, lembrou.

Difícil imaginar Telma sentindo medo. Mas ela era assim.

Genuína, firme, alegre, combativa, guerreira, pelo povo.

Luiz Inácio Lula da Silva discursando em evento, com mulher sorrindo e criança entediada na plateia em foto preto e branco. Foto: acervo/Telma de Souza/PT Santos

Santos amanheceu sem Telma no dia 10 de outubro de 2026.

Mas a real é que Santos nunca mais esquecerá Telma, porque as decisões que ela tomou enquanto sentou na cadeira de prefeita ecoam em muitos lugares e serviços que tornam a vida aqui melhor. Já fazem parte do nosso cotidiano e da nossa paisagem.

Entre 1989 e 1992, sua gestão implantou policlínicas nos bairros, enfrentou a exclusão de pessoas em sofrimento psíquico e colocou Santos entre as referências brasileiras da luta antimanicomial. Foi do seu gabinete que surgiram políticas públicas que se tornaram referência no país e alcançaram quem mais precisava de atendimento, de cuidado e de uma chance de viver com mais dignidade.

Como seria Santos sem Telma de Souza? Para chegar perto de uma resposta, é preciso voltar à história daquela professora que, mesmo apavorada, topou esse desafio.

De onde Telma veio

Telma Sandra Augusto de Souza nasceu em Santos em 29 de setembro de 1944. Era filha de João Inácio de Souza, conhecido como Joãozinho do Instituto, vereador cassado pela ditadura militar em 1964, e de Hilda Augusto de Souza, que também exerceu mandato na Câmara Municipal. Pois é, a política permeava sua árvore genealóica, inclusive pela experiência da repressão.

Mas resumir sua formação à condição de filha de políticos deixaria de fora uma parte importante da personagem. Pedagoga e advogada formada pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), com pós-graduação pela PUC-SP, Telma construiu sua militância no movimento pela anistia e fazendo organização coletiva entre docentes por meio da Apeoesp.

Antes de se tornar a mulher que marcou a história política da cidade, Telma era professora. E muita gente se lembra dela assim, na sala de aula.

Foto: acervo/Telma de Souza/PT Santos

Em 1980, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores. Dois anos depois, foi eleita vereadora de Santos, exercendo o mandato de 1983 a 1986. Na eleição de 1986, conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo, onde atuou em 1987 e 1988.

Seu desafio seguinte virou uma responsabilidade enorme: governar o lugar no qual nasceu, construiu sua vida e aprendeu a se posicionar politicamente. Juntou a experiência da docência com a militância no pós-ditadura, com uma pitada de movimento sindical e dos mandatos como vereadora e deputada estadual.

Ainda assim, para Telma, chegar à Prefeitura significava entrar em um terreno novo.

Como Telma de Souza chegou à Prefeitura de Santos

A vitória de Telma em 1988 precisa ser lida dentro da reconstrução democrática de Santos. A cidade havia perdido sua autonomia política durante a ditadura, sob o enquadramento como área de segurança nacional. A possibilidade de voltar a escolher o prefeito foi recuperada em 1984, numa eleição vencida por Oswaldo Justo.

Telma também disputou aquela eleição. Ficou em terceiro lugar, com 34.252 votos, segundo notícia em A Tribuna preservada pelo arquivo histórico Novo Milênio. Sua primeira tentativa, portanto, terminou sem o cargo, mas com uma base eleitoral que a colocava entre as principais lideranças progressistas de Santos.

Quatro anos depois, foi eleita pelo PT. Assumiu em janeiro de 1989, poucos meses após a promulgação da Constituição de 1988, levando ao Executivo municipal uma trajetória ligada ao sindicalismo, à redemocratização e aos direitos sociais.

Era também uma ruptura de gênero: pela primeira vez, uma mulher ocuparia o comando da Prefeitura de Santos.

Cidade sem manicômio

Uma das respostas mais concretas à pergunta “como seria Santos sem Telma?” tem a ver com uma questão super atual, a saúde mental.

Em 3 de maio de 1989, sua administração interveio na Casa de Saúde Anchieta. A medida tornou-se um marco da luta antimanicomial brasileira e abriu caminho para uma mudança no modelo de atendimento.

Em vez de concentrar o cuidado na instituição psiquiátrica, Santos passou a construir uma rede de serviços territoriais, os Núcleos de Atenção Psicossocial, conhecidos como Naps. A transformação era mais do que só trocar o nome ou endereço, mas sim reconhecer pessoas em sofrimento psíquico como cidadãos, com vínculos familiares, vida comunitária e direitos, e não como indivíduos destinados ao isolamento.

Pra quem quer entender como o Brasil tratava a saúde mental até então, recomenda-se assistir a Holocausto Brasileiro, documentário da jornalista Daniela Arbex (disponível na Netflix).

David Capistrano, secretário de Saúde de Telma e depois seu sucessor na Prefeitura, teve papel central na construção das políticas municipais de saúde. A própria ex-prefeita lembrava a implantação das policlínicas como uma realização compartilhada com ele. A dupla juntava conhecimento técnico dele com o pulso firme dela para priorizar medidas que eram extremamente modernas para a época. A Lei da Reforma Psiquiátrica seria sancionada apenas em 2001, estabelecendo a prioridade do tratamento fora do hospital quando possível. Sim, Santos começou a fazer isso bem antes.

Policlínicas, Aids e a saúde perto das pessoas

Outra marca do governo Telma foi a implantação das policlínicas nos bairros. A ideia era aproximar o atendimento da população, estruturando uma rede municipal de saúde que não dependesse apenas da procura por hospitais.

Para quem vive na Baixada Santista, a diferença é bastante concreta, porque ter um serviço perto de casa aumenta a possibilidade de buscar atendimento, acompanhar uma condição de saúde e manter contato com a rede pública.

Sua gestão também criou o Centro de Referência e Treinamento em Aids, o Craids. Nos anos 1990, essa foi uma resposta ousada à epidemia que assolava o Brasil e o mundo. O plano de Telma combinava assistência, prevenção e enfrentamento da discriminação.

Se o SUS hoje consegue distribuir medicamentos, profilaxia e métodos anticoncepcionais, tem dedo de Telma nisso.

Não era só normalizar a doença, mas também ter o direito de ser atendido ou atendida sem julgamento.

Outro fator bastante polêmico à época era a redução de danos, já que a Aids e outras doenças como hepatites se proliferavam muito entre viciados em drogas injetáveis com o uso de agulhas reutilizadas. Assim, passou a ser política pública o fornecimento de seringas e agulhas estéreis e descartáveis de uso individual para evitar o compartilhamento, assim como a distribuição de itens s como água destilada, algodão com álcool, recipientes para preparo e preservativos pelo Ministério da Saúde e organizações da sociedade civil.

Esse é um jeito bem prático e nada abstrato de explicar o olhar progressista do governo de Telma.

Ela trocou exclusão por cuidado ao enxergar a saúde como responsabilidade cada vez mais pública.

E Telma não deixou de cuidar depois que saiu da prefeitura. Na Câmara dos Deputados, ela coordenou a Frente Parlamentar em HIV/Aids, dando continuidade ao trabalho que fez localmente.

Praias, morros e moradia

Para Telma, Santos não cabia apenas na faixa de areia. A administração dela olhou para além da orla, alcançando os morros e áreas de habitação precária, territórios com necessidades diferentes, mas igualmente importantes para a cidade.

Na recuperação das praias, seu governo iniciou, em novembro de 1990, um programa com cooperação técnica da Sabesp. O trabalho envolveu recuperar comportas do sistema de canais e identificar ligações irregulares de esgoto, buscando reduzir a chegada de águas contaminadas à baía.

Foi a primeira vez, depois de muitos anos, que o mar de Santos ficou limpo. Telma devolveu a balneabilidade das praias de Santos.

Sua gestão conectou saneamento e vida urbana, porque, se hoje parece óbvio que qualidade da água significa saúde, lazer e condições para o turismo, naquela época não era. A praia que todo mundo ama e quer fotografar depende de uma infraestrutura que, muitas vezes, não dá visibilidade política.

Nos morros, a administração estabeleceu parcerias com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas para identificar áreas de risco, também em uma ação pioneira para os anos 90. O programa incluía cadastramento de famílias, remoção das situações mais perigosas e participação dos moradores em núcleos de Defesa Civil. A proposta articulava conhecimento técnico e organização comunitária, um modelo que até hoje é usado no órgão municipal.

E, em uma visão de meio ambiente pioneira para aqueles tempos, Telma também iniciou a implementação da coleta seletiva em Santos, uma das primeiras do Brasil, como lembrado por Marina Silva em post homenageando a amiga no Instagram.

A prefeita que tomou partido pelo trabalho

Na cidade do maior porto da América Latina, defender empregos significa mexer diretamente com a vida de milhares de famílias.

Em 1991, Telma participou da mobilização contra as demissões de trabalhadores portuários promovidas durante o governo Fernando Collor. Os empregos foram retomados em 28 de fevereiro, episódio associado ao Dia da Resistência Portuária.

Telma conhecia muito bem o componente histórico da identidade santista, essa relação entre cidade, trabalho e organização sindical. O porto não era só o gigante econômico, mas também lugar de pessoas cujos empregos sustentavam o nosso dia a dia.

Aprovada!

A chegada de Telma à Prefeitura também abriu uma disputa sobre como suas decisões chegavam até as pessoas.

Em entrevistas registradas no acervo do Instituto Telma de Souza, ela descreve a cobertura de A Tribuna como um “cerco”, associando o jornal às forças conservadoras de Santos. Em abril de 1989, criou o D.O. Urgente, versão jornalística do Diário Oficial que, entre outras funções, reproduzia notícias da imprensa e publicava a resposta do governo.

O episódio mostra o quão conflituosa era a relação com o centenário diário local.

Telma encerrou seu mandato com surreais 97%  de aprovação (segundo pesquisas de Ibope e Datafolha).

Em janeiro de 1993, passou o cargo ao médico sanitarista David Capistrano, também do PT. Embora houvessem trabalhado juntos, relatos de analistas políticos sobre esse período de transição dão conta de que suas ideias e opiniões divergiam em vários temas. De toda forma, a sucessão permitiu a continuidade de políticas iniciadas em 1989, embora cada um tivesse responsabilidades e entregas próprias.

Aliás, existem ações de Telma que ecoam pela cidade até hoje.

Se você pode ir assistir a um filme por preços módicos no Cine Arte Posto 4 ou praticar esportes gratuitos no canal 6, saiba que é por causa dela.

Ela não parou

A carreira política de Telma seguiu depois da prefeitura. Ela voltou para Brasília e exerceu três mandatos consecutivos como deputada federal, entre 1995 e 2007. Lá, priorizou pautas sociais e os interesses da Baixada Santista, incluindo temas portuários e direitos de crianças e adolescentes.

Em 2008, foi eleita novamente vereadora de Santos, com 20.631 votos. Mais tarde, voltou a exercer mandato entre 2017 e 2024 e disputou novamente a Prefeitura em 2024.

Há algo a se destacar aqui, para quem acompanhou de perto aqueles anos. Mesmo sendo oposição ao chefe do Executivo por conta do partido, Telma sempre foi extremamente respeitada até mesmo pelos adversários, como o atual prefeito Rogério Santos, que fez um post emotivo no falecimento dela. Não era raro ver os dois se abraçando e conversando, enquanto tentavam encontrar meios de conciliação, o que parece até uma utopia no presente momento político brasileiro.

Telma de Souza deputada e DJApaixonada por música e cultura, Telma fez uma única apresentação como DJ no Torto Bar em 2012

Quem a via por aí nos eventos reconhecia a mesma garra de quando ela começou e, dizem histórias da época, recebia aplausos da população quando andava pela cidade.

Santos sem Telma não seria necessariamente uma cidade sem políticas sociais, porque nenhuma transformação depende de uma única pessoa. Mas essa liderança que ajudou a converter demandas de movimentos sociais, profissionais e moradores em decisões de governo foi fundamental para a identidade santista atual.

E não dá pra deixar de mencionar a questão da representatividade. Ela continua sendo a única mulher, em 480 anos de existência de Santos, a ter comandado o Palácio José Bonifácio.

Ver Telma sentada naquela cadeira fez muitas mulheres enxergarem que sim, existe lugar para nós nessa luta.

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