Como comer bem e gastar pouco em Santos, segundo nutricionista
Para a professora Mariana Bordinhon, arroz, feijão e peixe da região valem mais do que salmão e quinoa na hora de cuidar da saúde
Existe um estigma de que alimentação saudável é coisa para poucos: salmão, frutas vermelhas, chia, quinoa, produtos sem glúten, suplementos importados. Tudo muito bonito. E, na maioria das vezes, caro.

Mas comer bem não precisa custar caro. Para a professora Dra. Mariana Bordinhon, coordenadora dos cursos de Nutrição e Gastronomia da São Judas Campus Unimonte, o primeiro passo é abandonar essa imagem de vitrine. Uma alimentação adequada precisa considerar a renda, o tempo, a cultura e o território de quem está comendo, não um padrão importado de rede social.
O mito da alimentação cara tem endereço certo
A ideia de que comer bem é caro não nasceu por acaso. Ela vem de décadas de publicidade associando saúde a produtos específicos: salmão, castanhas importadas, frutas vermelhas fora de época, suplementos, itens sem glúten. Esse conjunto criou o que Mariana chama de mito estético, a crença de que existe um cardápio único e caro para quem quer viver melhor.
“Esse tipo de alimento realmente é caro. Mas uma alimentação baseada em arroz, feijão, ovos, peixes como a sardinha, legumes e frutas da estação é muito mais acessível”, explica a professora.
O próprio Guia Alimentar para a População Brasileira, documento do Ministério da Saúde elaborado com pesquisadores da USP, reforça esse ponto. O guia organiza os alimentos pelo nível de processamento industrial: de um lado estão os alimentos in natura ou minimamente processados, que devem ser a base do prato.
Do outro, os ultraprocessados, cheios de sódio, açúcar e gordura ruim, que deveriam ocupar o menor espaço possível na rotina. No meio ficam os ingredientes culinários, como óleo, sal e açúcar, usados com moderação, e os processados, como queijo e conserva, consumidos em menor quantidade.
Dados do IBGE citados pelo próprio guia mostram que uma dieta baseada em alimentos in natura ainda sai mais barata no Brasil do que uma rotina de ultraprocessados.
O prato saudável pode ser bem brasileiro
Antes de pensar na dieta da moda, vale olhar pro prato que já está na mesa de milhões de brasileiros todos os dias.
Arroz entra como fonte de energia. Feijão garante proteína vegetal, ferro e fibra. Ovo é proteína animal barata e de alta biodisponibilidade. Abóbora e couve fecham a receita sem desperdício algum, já que as sementes tostadas da abóbora dão crocância à salada e os talos da couve rendem sopa ou omelete.
Na Baixada Santista, a proteína animal pode vir direto da região. Mariana cita a sardinha, incluindo o pescado que sai da produção da Ilha Diana, como alternativa mais barata e igualmente nutritivas às carnes vermelhas e aos peixes importados.
“Não precisamos de um prato gourmet”, resume a professora.
Também não é preciso recorrer a suplementos para fechar a conta de proteína. Um copo de leite comum, segundo Mariana, já entrega bastante proteína por um preço muito menor do que um “toddynho” enriquecido ou uma barrinha de cereal.
A xepa também é estratégia de nutricionista
Quem precisa economizar não precisa cortar fruta, verdura e legume da lista. Basta prestar atenção na época de cada alimento.
Produto na safra tem mais oferta. Mais oferta derruba preço. E, de quebra, alimento da estação costuma vir com mais nutriente e mais sabor, porque passou menos tempo entre a colheita e o prato.
A ferramenta mais conhecida por quem frequenta feira é a xepa, aquele fim de expediente em que o feirante prefere negociar a levar tudo de volta pra casa. Mariana recomenda ir direto atrás desse horário, negociar com o feirante e experimentar o que estiver sobrando em maior quantidade naquele dia. Muitas vezes esse é justamente o alimento que a pessoa nunca provou, e que acaba descobrindo que gosta.
Nada precisa ir pro lixo antes de passar pela panela. Talo, folha, semente e casca também são comida. Folha de cenoura vira pesto, semente de melão vira leite vegetal, sabugo de milho rende bolo.
Comer bem não precisa seguir moda, nem remédio
Chia, quinoa, salmão, barrinha proteica, pão sem glúten: nenhum desses é obrigatório pra uma dieta equilibrada, por mais que o marketing insista nisso. Cortar glúten sem indicação médica, reforça Mariana, também não torna ninguém automaticamente mais saudável. Restrição alimentar precisa de diagnóstico, não de tendência.
O mesmo raciocínio explica outro fenômeno recente na cidade: pessoas de baixa renda recorrendo a canetas emagrecedoras, muitas vezes sem prescrição médica.
Mariana prefere chamá-las de medicamentos para obesidade e reconhece o valor delas em tratamentos com indicação clara, como obesidade e diabetes. O que preocupa a professora é a lógica por trás da busca: a crença de que emagrecer exige comprar um remédio caro, porque manter uma alimentação saudável todos os dias parece um caminho fechado.
“Precisamos desconstruir esse mito social de que a alimentação saudável é cara, bem como essa obsessão pela magreza“, afirma.
Para ela, arroz, feijão, salada e fruta seguem sendo, na maioria dos casos, um caminho mais sustentável de emagrecimento do que qualquer injeção, sempre com acompanhamento profissional individual.
O prato também previne doenças
Doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no país e no mundo, muitas vezes ligadas a colesterol alto e pressão descontrolada. Diabetes, hipertensão e obesidade completam a lista de doenças crônicas não transmissíveis que avançam junto com o consumo regular de ultraprocessados.
Frutas, verduras e legumes ricos em antioxidantes e compostos anti-inflamatórios trabalham no sentido contrário, protegendo o metabolismo e reduzindo o risco de agravamento dessas condições. O próprio Estado brasileiro reconhece esse peso: a legislação sobre a cesta básica prioriza alimentos in natura ou minimamente processados, reduzindo o espaço para os ultraprocessados.
Uma questão de direito, não só de escolha
Por isso Mariana resiste a tratar alimentação saudável apenas como força de vontade individual. Renda, tempo, acesso, conhecimento culinário e cultura local pesam tanto quanto o desejo de comer melhor. Uma pessoa pode saber exatamente o que deveria comer e ainda assim não ter feira, mercado de peixe ou tempo de cozinha por perto.
Na Baixada Santista, parte dessa equação já está montada. Feiras livres, o Mercado de Peixe de Santos, o Bom Prato e cursos gratuitos de culinária formam uma rede que boa parte da cidade ainda não explora o suficiente.
Formar profissionais capazes de enxergar essa realidade, e não só prescrever uma lista de alimentos inacessíveis, é justamente o compromisso do curso de Nutrição da São Judas Campus Unimonte, que Mariana coordena ao lado da Gastronomia.
A formação combina base científica sólida, prática em laboratórios especializados e vivências supervisionadas, preparando o aluno para atuar com ética e olhar humanizado sobre quem está do outro lado da mesa. É essa mesma lógica que sustenta, na prática, o trabalho que a professora descreve: nutrição que cabe no bolso porque nasceu pensando nele desde o início.
“Dá para economizar e comer bem e saudável. A nutrição deve ser e é para ser de todos”, resume Mariana.
No Dia do Nutricionista (31/08), talvez essa seja a mensagem que mais vale repetir em Santos: cuidar da própria alimentação não deveria depender de conta bancária recheada. Deveria depender de informação, acesso e escolhas que façam sentido pra vida de cada um.
Essa matéria é uma publieditorial em parceria com a São Judas Campus Unimonte