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Saúde mental em Praia Grande: a rede existe, mas está à altura de quem precisa?

A cidade tem quatro CAPS, 31 Usafas e uma nota da prefeitura cheia de boas intenções. O que os moradores relatam, porém, conta uma história diferente

Tempo de leitura: 5 minutos

A dor não avisa. Não espera setembro, não respeita segunda-feira, não consulta o horário de funcionamento do serviço. Quem já precisou de ajuda em saúde mental sabe que o momento de crise não tem agenda.

www.juicysantos.com.br - Saúde mental em Praia Grande a rede existe, mas está à altura de quem precisa

Praia Grande tem uma estrutura pública de atendimento psicossocial. Isso é real e precisa ser dito. No entanto, entre o papel e a prática, os moradores encontram uma lacuna que a gente deve discutir com sinceridade.

Setembro Amarelo: consciência ou conforto?

Todo ano, em setembro, a cor amarela toma as redes sociais. Prefeituras publicam artes, escolas fazem rodas de conversa, empresas postam sobre saúde mental. E aí outubro chega.

E tá tudo bem, porque é preciso falar sobre o tema. Só que esse não pode ser o único momento em que a cidade aborda a saúde mental.

Especialistas apontam um risco real nessa dinâmica. Concentrar o debate em 30 dias pode gerar uma sensação de dever cumprido, quando o cuidado precisa ser permanente. Além disso, o formato de campanha tende a superficializar um problema estrutural. Ansiedade, depressão e ideação suicida não esperam o próximo setembro para aparecer.

Os números confirmam a urgência. O Brasil já é o país com maior número de pessoas ansiosas do mundo: cerca de 9,3% da população, segundo a OMS. Em 2019, o suicídio foi a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no país. Pois é, falar sobre isso uma vez por ano não é prevenção.

O que Praia Grande oferece

A estrutura existe. A Secretaria de Saúde Pública mantém quatro Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) na cidade, além de 31 Unidades de Saúde da Família (Usafas), que funcionam como porta de entrada para a rede.

Segundo a prefeitura, as equipes das Usafas recebem capacitação em saúde mental. Médicos de família estão preparados para casos de menor gravidade. Há também psicólogos vinculados ao Programa de Residência Multiprofissional, academias da saúde e ações de matriciamento espalhadas pelos bairros.

No papel, portanto, é uma rede ampla.

O que os moradores encontram na prática

Os relatos de quem usou os serviços contam uma história que a nota oficial não menciona.

Há registros de consultas canceladas sem aviso prévio, com pacientes chegando depois de meses de espera para descobrir na recepção que o atendimento não aconteceria. Há relatos de infraestrutura precária: falta de ventilação, banheiros sem condições, telefones que não atendem e dependência de registros manuais por falha nos sistemas.

O ponto mais grave, porém, é o acolhimento. Ou a ausência dele.

Moradores descrevem experiências em que chegaram em crise e foram recebidos com frieza. Uma das situações relatadas envolve alguém em ataque de pânico, sozinho, tremendo, que ficou sentado em um banco sem que nenhum profissional se aproximasse por um longo período. Ao perguntar sobre alternativas de atendimento, a resposta foi um “não” seco.

Esses não são casos isolados. O padrão nos relatos aponta para problemas sistêmicos: falta de empatia no atendimento inicial, longos períodos de espera entre consultas, dificuldade para acessar psiquiatras e ausência de protocolos claros para situações de urgência.

A pergunta que fica é direta: uma estrutura que não acolhe em crise está cumprindo sua função?

Onde buscar ajuda em Praia Grande agora

Se você ou alguém próximo precisa de apoio, estes são os serviços disponíveis na cidade:

  • CAPS II “José Zulianni” – Boqueirão Rua Cidade de Santos, 89 – Boqueirão Segunda a sexta, das 7h às 16h30
  • CAPS II – Nova Mirim Rua Nossa Sra. da Conceição, s/nº – Nova Mirim Segunda a sexta, das 8h às 17h
  • CAPS AD III – Álcool e Drogas Rua São Caetano, 400 – Boqueirão Todos os dias, das 7h às 19h (único com atendimento nos fins de semana)
  • CAPS Infantil Rua São Bernardo, 401 – Boqueirão Segunda a sexta, das 7h às 17h
  • Usafas (31 unidades espalhadas pela cidade) Funcionam como porta de entrada. Procure a mais próxima da sua casa.

CVV: quando não dá para esperar

Para momentos de crise aguda, o CVV atende 24 horas por dia, todos os dias do ano.

Ligue 188, de qualquer telefone, sem custo, em todo o Brasil. O atendimento é sigiloso, voluntário e sem julgamento. Não é preciso estar no limite para ligar. Qualquer angústia já é motivo suficiente.

Aliás, se você quer ir além de receber ajuda e oferecer escuta a quem precisa, é possível se tornar voluntário do CVV. As inscrições podem ser feitas pelo link.

A estrutura é o começo, não o fim

Praia Grande tem equipamentos. Isso importa. Contudo, equipamento sem acolhimento é só endereço.

A cidade merece serviços de saúde mental que tratem o morador como alguém que chegou pedindo ajuda, não como um número na fila. E os profissionais que trabalham nesses espaços também merecem condições dignas para exercer uma das funções mais exigentes da saúde pública.

A pergunta que fica para a prefeitura, para os gestores e para quem define orçamento: quando foi a última vez que alguém em crise saiu de um CAPS de Praia Grande sentindo que foi cuidado de verdade?

Se você ou alguém próximo está em sofrimento: ligue 188. CVV, 24 horas, gratuito e sigiloso.

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