Odoyá! Praia Grande celebra Iemanjá com cortejo
Ocupar as ruas com fé é também ocupar espaços de poder e memória
Existem tradições que resistem ao tempo não por serem antigas, mas por serem necessárias. A devoção a Iemanjá carrega consigo séculos de memória, luta e pertencimento — cada oferenda lançada ao mar é também um grito de existência. Além disso, cada cântico entoado na areia é prova de que nem o oceano, nem o preconceito conseguiram apagar as raízes africanas que formam este país.
Neste sábado (7 de fevereiro), acontece a 3ª Procissão para Iemanjá em Praia Grande. O evento transcende a religiosidade e se firma como ato de resistência cultural e luta contra a intolerância.
Foto: Fred Casagrande/Prefeitura de Praia Grande
Por que essa procissão importa para toda a região?
As religiões de matriz africana enfrentam diariamente o desafio da invisibilidade e do preconceito. Segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos, aliás, os casos de intolerância religiosa contra essas comunidades cresceram 141% entre 2019 e 2023. Nesse contexto, portanto, eventos públicos como a procissão de Praia Grande ganham dimensão política.
A celebração foi organizada pela Comissão de Matrizes Africanas da Cidade, pelo Conselho Municipal de Política Racial e pelo Conselho da Promoção da Igualdade Racial, com apoio da Prefeitura de Praia Grande. Diferente de manifestações religiosas espontâneas, contudo, essa articulação institucional demonstra avanços importantes no reconhecimento das tradições afro-brasileiras. Assim, reconhece-se como legítimo patrimônio cultural.
O percurso da fé e da resistência
A concentração está marcada para as 15h no bairro Maracanã. De lá, em seguida, os devotos seguirão pela Avenida Presidente Kennedy, no sentido Boqueirão, até a Rua 1º de Maio, no bairro Mirim. O trajeto segue então em direção à orla, onde está instalada a Estátua de Iemanjá. Este é um marco visual que materializa a presença dessas tradições no espaço público da cidade.
Além disso, haverá alterações pontuais no trânsito para garantir a segurança de pedestres e motoristas. Por isso, a Prefeitura orienta que condutores evitem o percurso ou planejem rotas alternativas durante o período da tarde.
Iemanjá: muito além do sincretismo
Iemanjá é o orixá feminino das águas salgadas, mãe de outros orixás e protetora dos navegantes e pescadores. No candomblé e na umbanda, ela representa a maternidade, a fertilidade e o acolhimento. Tradicionalmente, ela é celebrada em 2 de fevereiro. Essa data coincide com o dia de Nossa Senhora dos Navegantes no calendário católico. Além disso, a divindade ganhou especial devoção nas cidades litorâneas brasileiras.
Contudo, a festa vai além do sincretismo religioso. Na verdade, ela é expressão direta das heranças africanas que fundaram a cultura brasileira. Isso se destaca especialmente nas regiões portuárias como a Baixada Santista. Neste local, a presença negra foi historicamente determinante desde o período colonial.
Reconhecimento institucional e combate à intolerância
Vale lembrar, inclusive, que na Baixada Santista, diversas cidades têm criado políticas públicas de combate à intolerância religiosa e valorização das tradições afro-brasileiras. Dessa forma, iniciativas como essa, somadas às procissões públicas, fortalecem o diálogo inter-religioso e criam espaços de convivência pacífica.
Fé que se faz na rua, com o povo
A procissão de Praia Grande não é apenas um evento religioso isolado — é, sobretudo, um termômetro de como a cidade reconhece e valoriza sua própria identidade cultural. Quando devotos de Iemanjá caminham pelas ruas em direção ao mar, eles reafirmam um direito básico que ainda precisa ser defendido. Trata-se do direito de existir, crer e celebrar sem medo. Portanto, prestigiar essa manifestação, independente da sua fé, é contribuir para uma sociedade onde o respeito à diferença seja regra, não exceção.
Serviço
3ª Procissão para Iemanjá – Praia Grande
Quando: Sábado, 7 de fevereiro, a partir das 15h
Concentração: Bairro Maracanã
Percurso: Avenida Presidente Kennedy (sentido Boqueirão) → Rua 1º de Maio (Mirim) → Orla da Praia (Estátua de Iemanjá)
Evento gratuito e aberto ao público
Mais informações: Secretaria de Diversidade e Inclusão de Praia Grande