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Livro infantil vira alvo nas redes sociais com acusação de “ideologia de gênero”

O escritor e professor Jeff Mercadante viu seu livro infantil virar alvo de uma polêmica sobre diversidade após uma visita a uma escola pública de Praia Grande. O caso levanta discussões sobre literatura, educação e desinformação nas redes sociais.

Tempo de leitura: 17 minutos

Existem personagens que nos ensinam a voar, outros que enfrentam monstros, descobrem mundos mágicos e vivem aventuras que dificilmente caberiam na rotina de uma criança. A leitura é um fio condutor de tudo isso, ensinando a sonhar e imaginar novos mundos e possibilidades. Existem, também, aqueles personagens que despertam perguntas sobre a vida, a família, os afetos e o lugar que cada pessoa ocupa no mundo.

A literatura infantil tem dessas coisas. Uma história começa entre duas capas, mas ninguém sabe exatamente onde ela vai parar depois que chega às mãos de um leitor. Pode virar desenho, conversa no recreio, lembrança de infância ou até uma pergunta que a criança não tinha encontrado coragem de fazer antes.

Em maio de 2026, uma turma do 5º ano de uma escola municipal de Praia Grande descobriu um pouco dessa magia ao conhecer Jeff Mercadante, autor de Cadê você, Antônio?. 

Foto: Livro Cadê você, Antônio?

Os estudantes já tinham lido o livro com a professora e prepararam perguntas para o encontro.

As crianças da sala desenharam, escreveram cartinhas e pediram autógrafos. Uma delas se emocionou ao ouvir Mercadante falar sobre a morte da própria mãe, experiência que contribuiu para o nascimento do livro, e perguntou se poderia abraçá-lo. Outras crianças quiseram esse carinho.

No fim da manhã, o escritor saiu da escola com uma nova promessa: escrever “Antônio 2”, a continuação que os pequenos leitores fizeram questão de encomendar.

Até aí, temos uma história bonita sobre literatura, educação pública e o encontro entre um escritor e seus leitores. O problema é que, quatro meses depois, imagens daquela mesma atividade começaram a circular nas redes sociais associadas à expressão “ideologia de gênero”.

A conversa que havia rendido perguntas, desenhos e abraços passou a ser apresentada sob uma perspectiva bastante diferente. E é nesse desencontro entre o que aconteceu na escola e a interpretação que ganhou espaço nas redes que começa uma parte dessa história. 

História fora de contexto

Jeff Mercadante é escritor, professor da rede pública e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Morador da Baixada Santista, ele já conhecia profissionais da rede municipal de ensino antes do encontro em Praia Grande.

Em março, quando lançou Cadê você, Antônio? em Santos, o escritor recebeu professores entre os convidados. Uma diretora e uma professora que estavam presentes conheceram a obra e, posteriormente, a educadora trabalhou a história com sua turma de 5º ano.

Segundo Mercadante, as crianças receberam o livro com interesse. Em maio, quando ele foi à escola para substituir uma licença-prêmio, surgiu a oportunidade de conversar com os estudantes.

A atividade foi organizada a partir da leitura que a turma já havia feito. As crianças prepararam perguntas e se reuniram na biblioteca para conhecer o processo de criação do livro e conversar com o autor.

“Segundo a professora, quando souberam que ela conhecia o autor do livro que tinham lido, as crianças ficaram empolgadas e curiosas porque ainda existe essa ideia de que escritores são pessoas distantes, inacessíveis”, conta o autor.

As perguntas acabaram conduzindo boa parte da conversa. Algumas eram sobre Antônio e as escolhas narrativas; outras revelavam a relação que os estudantes já haviam construído com a história. Eles falaram sobre a coragem do personagem e compartilharam coisas que gostariam de ter coragem para fazer, como dançar ou gravar vídeos sobre jogos nas redes sociais.

Houve também espaço para uma conversa mais íntima. Ao contar que a morte da mãe foi uma das experiências que desencadearam a escrita do livro, ele emocionou uma das crianças.

“Foi uma manhã profundamente emocionante, um encontro entre crianças que tinham lido um livro e queriam conversar sobre o que aquela história havia despertado nelas”, relembra.

A atividade, conforme o relato do escritor, havia sido comunicada às famílias e autorizada pelos responsáveis.

Depois da aula 

Quatro meses depois, porém, os registros desse encontro voltaram a circular fora de seu contexto original. Primeiro, um story publicado pelo perfil @armagedom_pg classificou a atividade como “lamentável” e “vergonhosa”. De acordo com o material encaminhado pelo escritor, a publicação foi retirada do ar pouco tempo depois.

Cerca de uma semana mais tarde, em 25 de setembro, o perfil @rosana_marques.oficial publicou um reel que utilizava imagens da atividade, a capa de Cadê você, Antônio? e uma fotografia de seu autor. A chamada era “IDEOLOGIA DE GÊNERO NAS ESCOLAS DE PG?”, acompanhada da pergunta “PAIS, VOCÊS CONCORDAM?”.

O conteúdo apresentava o livro e a atividade como se tivessem a finalidade de ensinar ou induzir crianças a serem LGBTQIAPN+.

Mercadante diz, ainda, que uma foto sua foi adulterada com inteligência artificial. Esse detalhe merece ser tratado com base na comparação dos registros originais e publicados, mas ajuda a dimensionar o que o escritor afirma ter enfrentado ao ver sua imagem associada à controvérsia.

“Foi perturbador ver uma atividade tão bonita, preparada com cuidado pela professora e comunicada às famílias, reaparecer quatro meses depois daquela forma”, diz.

O que chama a atenção nessa sequência é a diferença entre o encontro descrito pelo escritor e a interpretação apresentada nas publicações. As crianças que fizeram perguntas, produziram desenhos e conversaram sobre a obra deixaram de aparecer como leitoras curiosas. No lugar delas, surge uma narrativa sobre o que supostamente estariam sendo ensinadas a pensar ou a ser.

Uma imagem pode registrar um acontecimento. Não consegue, sozinha, explicar tudo o que aconteceu antes, durante e depois dele.

Quando registros são retirados de contexto e acompanhados de uma acusação, o público passa a receber uma interpretação antes mesmo de conhecer a história completa. E uma conversa literária acaba virando motivo de alarme.

“Ideologia de gênero”: o que essa expressão quer dizer?

A expressão não surgiu com o livro de Mercadante, muito menos começou a circular por causa de uma atividade em Praia Grande. Ela faz parte de uma disputa política mais ampla sobre gênero, sexualidade e educação.

Pesquisas acadêmicas brasileiras analisam como o termo ganhou espaço no debate público e passou a ser mobilizado por setores conservadores para contestar políticas educacionais relacionadas à igualdade de gênero e à diversidade sexual.

Um estudo publicado em 2021 na revista Práxis Educacional, por exemplo, examina a transformação do conceito em uma narrativa política usada para desqualificar estudos sobre gênero e conter avanços relacionados ao reconhecimento das diversidades sexuais.

Já um artigo da revista Agenda Política, da Universidade Federal de São Carlos, investigou o uso da expressão em pronunciamentos e projetos legislativos na Câmara dos Deputados entre 2003 e 2019. Os trabalhos ajudam a compreender a trajetória política do termo sem confundi-lo com uma descrição objetiva de uma prática pedagógica específica.

Na prática

A expressão costuma aparecer em controvérsias nas quais conteúdos sobre gênero, orientação sexual e diversidade são apresentados como ameaças às crianças e às famílias. Com esse enquadramento, a discussão escala e vira um alerta. Em vez de analisar o livro, a proposta pedagógica ou o contexto da atividade, o público recebe primeiro a suspeita de que alguém esconde uma intenção.

Por isso, essa estratégia discursiva merece atenção, especialmente quando envolve escolas públicas, professores e estudantes. Afinal, apresentar um personagem com experiências diferentes das vividas pela maioria dos leitores significa tentar determinar a identidade de quem lê?

Essa interpretação parece atribuir à literatura um poder quase sobrenatural. Afinal, bastaria abrir um livro e conhecer um personagem para definir quem uma criança será? Se fosse assim, gerações de leitores já teriam saído das bibliotecas transformadas em detetives, astronautas, princesas, bruxos, duendes e protagonistas de todas as aventuras que encontraram nas páginas.

A vida real não funciona como um controle remoto de identidades

Conhecer uma experiência por meio de uma história não significa adotá-la como própria. Uma criança pode se identificar com um personagem, discordar dele, sentir curiosidade, ficar intrigada ou simplesmente gostar da narrativa. A leitura não produz uma reação única, programada e universal.

É justamente essa abertura que torna a arte tão rica.

No caso de Cadê você, Antônio?, a presença da diversidade não é um detalhe inventado depois da repercussão. Faz parte da proposta da obra. O que precisa ser questionado é a transformação dessa característica em prova de uma suposta intenção de induzir crianças a serem LGBTQIAPN+.

“Não existe uma prática pedagógica de transformar crianças em pessoas LGBTQIAPN+ por meio de livros”, afirma.

O escritor também chama a atenção para a maneira como o enquadramento das publicações interfere na compreensão do episódio. Para quem não estava na escola e conhece o encontro apenas pelo reel (vídeo curto do Instagram), a chamada já oferece uma interpretação antes que seja possível saber como a atividade foi organizada, o que foi lido ou o que as crianças perguntaram.

Isso não significa que atividades escolares estejam livres de questionamentos. Famílias podem querer conhecer os livros utilizados, entender os objetivos pedagógicos e conversar com professores. A questão é a diferença entre fazer perguntas sobre uma atividade concreta e atribuir a ela uma intenção que não está demonstrada pelos registros apresentados.

Em 2020, ao julgar ações relacionadas a restrições de conteúdos sobre gênero e orientação sexual nas escolas, o Supremo Tribunal Federal (STF) reafirmou princípios constitucionais como a liberdade de ensinar e aprender, o pluralismo de ideias e a valorização dos profissionais da educação. As decisões também trataram dos riscos de proibições genéricas que comprometem o debate e a liberdade acadêmica.

O debate sobre o que se ensina nas escolas é legítimo. O que não deveria ser dispensável para a sociedade é o cuidado de distinguir fatos de interpretações e acusações.

A equipe do Juicy Santos procurou a prefeitura de Praia Grande para comentar o caso, porém até a publicação dessa matéria, não houve retorno.

O livro que existe para além da polêmica

Antes de ser associado a uma controvérsia nas redes sociais, Cadê você, Antônio? já tinha uma trajetória própria.

Publicado pela Garoupa Editora em 2026, o livro acompanha um personagem que observa o mundo ao redor, escuta conversas de adultos e tenta compreender questões relacionadas ao corpo, ao medo, ao cuidado e à liberdade. A narrativa abre espaço para falar de afetos, diferenças, identidade e pertencimento.

A história tem uma origem pessoal para Mercadante, mas não se limita à experiência individual do autor. Ela aborda uma sensação que muitas crianças podem conhecer: a de não caber nas expectativas dos outros e querer ser reconhecida por quem se é.

“Não escrevi para oferecer uma resposta pronta. Quis criar uma história em que as crianças pudessem fazer perguntas, imaginar e talvez encontrar palavras para sentimentos que ainda não saibam nomear”, explica.

Essa intenção ajuda a entender por que o escritor não vê a diversidade como algo que precisa ser escondido para que uma obra possa chegar ao público infantil.

Para ele, levar as crianças a sério como leitoras significa reconhecer que elas já convivem com diferentes pessoas, famílias e experiências. A literatura pode oferecer possibilidades de identificação, mas também apresentar realidades que o leitor ainda não conhece.

Novos leitores 

Nem toda criança vai interpretar uma história da mesma maneira. Nem todo livro vai despertar o mesmo sentimento em quem o lê. E não há necessidade de que uma obra entregue uma conclusão definitiva para cumprir seu papel literário. Ele resume essa ideia a partir de sua própria trajetória:

“Eu cresci lendo histórias com personagens heterossexuais e sou um homem gay. Às vezes precisamos lembrar o óbvio: representar uma existência não é induzir alguém a vivê-la.”

A frase toca em um ponto importante da discussão. Se a presença de personagens heterossexuais em livros não determina a orientação sexual de todos os leitores, não há motivo para presumir que a representação de pessoas LGBTQIAPN+ funcione de maneira automática e oposta.

Representação não é prescrição. Uma história pode apresentar uma existência sem exigir que o leitor a reproduza, ao mesmo tempo que oferece reconhecimento a quem compartilha daquela experiência e amplia o repertório de quem não a conhece.

O livro, aliás, já circulava antes da controvérsia. De acordo com o material encaminhado pelo escritor, a obra passou por encontros com leitores e eventos literários em Santos, São Paulo, Praia Grande, Leme, São Vicente e Caconde. Em agosto, também foi indicada pela jornalista Cris Rogério na coluna “Livros que amamos”, da revista Crescer.

Essa trajetória não elimina a discussão que surgiu, mas ajuda a recolocar a obra em perspectiva. Cadê você, Antônio? já nasceu como uma proposta literária, um processo de criação e leitores que já haviam construído suas próprias relações com a narrativa, muito antes de virar assunto nas redes.

Entre matemática e literatura

A polêmica também abre espaço para uma discussão que ultrapassa o livro: qual é o lugar da literatura na formação de crianças e adolescentes?

Nas críticas à atividade, segundo Mercadante, apareceram comentários defendendo que a escola deveria se concentrar em ensinar matemática ou recuperar conteúdos associados à antiga disciplina de Moral e Cívica.

A matemática é fundamental. Assim como a língua portuguesa, as ciências, a história e todas as outras áreas do currículo. Mas por que o contato com a literatura precisaria competir com elas?

Ler uma obra literária também envolve linguagem, interpretação, imaginação e a capacidade de lidar com diferentes perspectivas. A arte não precisa substituir os conteúdos escolares para ter valor dentro da escola.

“Não quero que a arte precise provar sua utilidade para merecer estar na escola. O acesso a ela é um direito das crianças”, afirma o criador do livro. 

Para o professor, a leitura também depende do trabalho de quem acompanha a turma. Existe uma educadora que conhece os estudantes, escolhe uma obra, prepara a atividade e escuta as perguntas que surgem. Esse trabalho não pode ficar invisível quando alguém publica uma fotografia pontual do encontro.

Eles dizem “salvem as nossas crianças”. Mas salvar de quem?

Essa questão ganha ainda mais importância na escola pública, onde bibliotecas e atividades de leitura ampliam o acesso de muitas crianças aos livros e às experiências culturais.

Em Praia Grande, por exemplo, os estudantes já haviam lido e trabalhado a obra com a professora antes de conhecer Mercadante. Portanto, a conversa de maio deu continuidade a uma experiência que já fazia parte do cotidiano da turma. Reduzindo o encontro a uma chamada sobre “ideologia de gênero”, as publicações deixam de lado elementos fundamentais para compreender o episódio, como o trabalho da professora, a leitura prévia e a participação das crianças.

Além disso, o escritor contesta a ideia de que proteger os estudantes seja incompatível com apresentar a eles a diversidade presente na sociedade.

A literatura não precisa dizer a uma criança o que pensar. Pelo contrário, pode estimular perguntas, ajudar a reconhecer sentimentos e abrir espaço para conversas sobre as experiências encontradas nas páginas. Nesse processo, cada leitor também pode discordar de um personagem, não gostar de uma história ou interpretá-la de maneira diferente daquela que o autor imaginou.

Assim, quando a escola abre espaço para a literatura, ela continua cumprindo sua função educativa. Mais do que isso, a leitura pode ampliar o repertório dos estudantes e incentivá-los a participar de conversas que exigem escuta, interpretação e respeito.

Quem é Jeff Mercadante? 

A trajetória do autor não cabe apenas na discussão que envolveu seu livro. Sua relação com a literatura passa também pela sala de aula, pela pesquisa acadêmica e pela criação de espaços de leitura na Baixada Santista.

Doutor em Educação pela USP, ele conta que uma das experiências marcantes de sua formação foi a pesquisa com pessoas adultas e idosas da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Ao escutar as histórias dessas pessoas, ampliou sua maneira de compreender as experiências que cada indivíduo carrega consigo.

Essa perspectiva acompanha seu trabalho como educador e escritor. Para ele, ninguém chega a um livro sem uma história própria. As lembranças, as vivências e as perguntas de cada leitor interferem na maneira como ele recebe uma narrativa.

Sargaço

A mesma atenção à escuta aparece no Sargaço, projeto idealizado por ele para contribuir com a formação de uma comunidade leitora na Baixada Santista.

Entre as iniciativas está um clube de leitura LGBTQIAPN+ realizado mensalmente na Biblioteca Comunitária Conto de Fadas Periférico, com apoio do SisEB, da SP Leituras e do Governo do Estado de São Paulo.

O espaço amplia as possibilidades de contato com a literatura e permite que leitores compartilhem interpretações, conheçam outras obras e conversem sobre as experiências que encontram nos livros.

“Essas experiências se encontram na escuta”, diz.

A frase sintetiza uma parte importante de seu trabalho. Na escola, a escuta ajuda o educador a compreender as perguntas dos estudantes. Na escrita, permite construir personagens e histórias que dialogam com experiências humanas. Em um clube de leitura, abre espaço para que diferentes interpretações convivam.

Mercadante também destaca o papel da educação pública em sua própria trajetória.

“Eu sou fruto da escola pública e da universidade pública brasileira. Esses espaços foram fundamentais na minha formação e me ensinaram a importância de criar condições para que mais pessoas tenham acesso ao conhecimento e à literatura, e possam se reconhecer como leitoras e sujeitos de direito.”

A controvérsia envolve uma obra pessoal, mas também toca no trabalho de professores, no acesso à literatura e nas possibilidades de crianças encontrarem diferentes experiências representadas nas histórias que leem.

Até Antônio 2 chegar, esperamos que o Brasil continue livre para que um livro possa despertar perguntas, trazer lembranças, apresentar novas perspectivas ou simplesmente contar uma boa história.

Porque, para aprender a ler o mundo, uma criança não precisa enxergar uma ameaça em cada página.

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Vitor Fagundes
Texto por

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