Lembra da Cidade da Criança em Praia Grande? Saiba como ela está hoje
Em Praia Grande, um complexo que virou referência mundial foi abandonado. A história é real, mas parece roteiro de filme
Imagine uma cidade inteira construída para crianças. Com dormitórios, refeitório, campo de futebol, piscina, biblioteca, oficinas, padaria, gráfica, fábrica de sapatos e até usina hidroelétrica própria. Uma cidade autossuficiente, que não precisava do mundo lá fora para funcionar.
Não estamos falando da Terra do Nunca. Isso existiu aqui em Praia Grande e hoje está abandonada.
Foto: Claudio Sterque/reprodução
Caminhar pelo que restou da Cidade da Criança é entrar num cenário pós-apocalíptico de verdade. O ginásio tem árvores crescendo no piso. O telhado ruiu. O limo tomou as paredes. As máquinas enferrujadas que um dia formaram tipógrafos, marceneiros e sapateiros ficaram para trás. Roubaram os fios de cobre e arrancaram as letras de metal das paredes.
Quem conhece The Last of Us se sente dentro do universo com o cenário. A diferença é que nenhum fungo destruiu tudo isso, foi apenas o descaso.
Como Praia Grande ganhou uma cidade dentro da cidade
A ideia partiu de um grupo de empresários da região, liderados por Wadih Pedro no fim dos anos 1950. A proposta era criar um espaço que acolhesse crianças órfãs ou em situação de abandono e oferecesse a elas não só um teto, mas uma vida completa.
Adriano Dias dos Santos, português e proprietário de uma grande extensão de terras em Solemar, doou o terreno. Assim, a pedra fundamental foi lançada em 1960.
Segundo o historiador Claudio Sterque, do Histórias de Praia Grande, a estrutura logo contava com alojamentos, refeitório, salas de aula, piscina, campo de futebol, quadra coberta, biblioteca e diversas oficinas. Além disso, a água potável descia da Serra do Mar e a energia elétrica vinha de turbinas próprias, movidas pelo Rio Itinga, que atravessava o terreno.
Portanto, não era uma instituição de caridade comum. Era, de fato, uma cidade.
Foto: Claudio Sterque/reprodução
Na década de 1970, a UNESCO reconheceu o projeto como referência internacional no atendimento a crianças e adolescentes. Assim, Praia Grande exportava um modelo social para o mundo. Isso não aparece nos cartões-postais da cidade, mas deveria.
Vida real, não assistencialismo
Os meninos chegavam com cerca de 11 anos e ficavam até a convocação para o serviço militar. Eles estudavam em um período e trabalhavam no outro. As oficinas cobriam tipografia, marcenaria, mecânica, padaria, barbearia, colchoaria e fabricação de calçados.
Foto: Claudio Sterque/reprodução
Além disso, cada jovem recebia salário pelo trabalho, depositado em seu nome. Ao sair, ele recolhia o valor acumulado em cheque e já partia com uma profissão na mão.
A padaria chegou a produzir 1.500 pães diários. A fábrica de calçados, por sua vez, respondia por 40% da arrecadação de todo o complexo. Mais impressionante ainda: não havia muros, não havia guardas e, de acordo com os registros da época, nunca houveram fugas ou motins.
O ECA e o ponto de virada
Em 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) entrou em vigor. A lei representou um avanço civilizatório necessário. O trabalho infantil é e deve ser proibido.
Contudo, o modelo financeiro da Cidade da Criança dependia justamente da produção nas oficinas para se sustentar. Sem essa receita, a conta simplesmente não fechou mais.
Como aponta Claudio Sterque, do Histórias de Praia Grande, os fundadores originais foram envelhecendo e falecendo. Com isso, a gestão ficou cada vez mais difícil. Os estatutos da associação impediam intervenções externas. Nem a prefeitura, nem o estado conseguiam agir no espaço sem autorização específica.
O resultado foi o abandono total do complexo.
Promessas que ficaram no papel
Ao longo dos anos 2000, alguns projetos surgiram. Em 2001, uma proposta de R$ 80 milhões para transformar o espaço em vila olímpica não atraiu investidores. Já em 2005, o prefeito Alberto Mourão anunciou R$ 4 milhões para criar uma escola de período integral no local. Ficou no papel.
Foto: Claudio Sterque/reprodução
Em 2011, o presidente da associação gestora afirmou que R$ 5 milhões seriam suficientes para reerguer tudo e transformar o espaço num polo esportivo, educacional e turístico de referência para toda a Baixada Santista.
O dinheiro, contudo, não veio.15
O que resta hoje
As estruturas ainda estão lá, tomadas pelo tempo. As máquinas que formaram gerações de trabalhadores acumulam ferrugem ou estão presas por dívidas trabalhistas. O telhado do ginásio desabou e a natureza tomou conta do piso da quadra.
É difícil não sentir um aperto ao imaginar o que se poderia fazer com 220 mil metros quadrados de área plana, com infraestrutura histórica, às margens da Serra do Mar, numa das regiões litorâneas mais populosas do Brasil.
Enquanto isso, centenas de adolescentes do entorno seguem sem espaços de lazer, cultura ou formação profissional.
A Cidade da Criança não é só uma história de abandono. É uma pergunta incômoda sobre o que uma cidade faz com seu próprio patrimônio, especialmente quando alguém o construiu para quem tem menos.
Praia Grande tem nas mãos uma herança histórica reconhecida mundialmente. E já que o espaço está abandonado, não seria o local ideal para o tão sonhado SESC de Praia Grande?