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Festa de Iemanjá em Praia Grande termina sem energia elétrica apesar de liminar judicial

Tradição de mais de 50 anos é ameaçada por novas regras que organizadores consideram restritivas e discriminatórias, uma intolerância religiosa

Tempo de leitura: 5 minutos

A Festa de Iemanjá em Praia Grande, um dos maiores eventos religiosos afro-brasileiros do país, encerrou sua edição de 2025 marcada por uma disputa judicial e pela ausência de energia elétrica durante todos os dois fins de semana de celebração.

www.juicysantos.com.br - Festa de Iemanjá em Praia Grande enfrenta crise com a PrefeituraFoto: Prefeitura de Praia Grande

A celebração, que ocorreu nos dias 6, 7, 13 e 14 de dezembro, atraiu centenas de milhares de fiéis à orla, mas enfrentou sérios problemas de infraestrutura do início ao fim.

O que mudou

A Portaria nº 011/2025, divulgada em setembro, trouxe várias restrições que afetaram a organização. A prefeitura dificultou o uso de energia elétrica, exigiu Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) até para tendas simples, restringiu o acesso de veículos no sábado e limitou a montagem de barracas básicas.

As federações religiosas afirmaram que as novas regras inviabilizaram a festa.

“Sentimos um ato que pode ser visto como intolerância, pois nenhum outro segmento que usa espaço público sofre esse desrespeito”, declarou a organização.

Batalha judicial

Diante das novas regras, as federações Afro Brasil e ATUCO entraram com um Mandado de Segurança. Em 10 de outubro, o juiz concedeu uma liminar obrigando a prefeitura a restabelecer a energia elétrica e liberar itens antes proibidos. A decisão determinou:

  • Restabelecimento da energia pública, com um ponto por tenda
  • Liberação de gazebos e tendas 3×3 ou 4×4 sem ART universal
  • Montagem no sábado até 12 horas, com credenciamento
  • Proibição de som amplificado e cozinha industrial

A prefeitura recorreu. A advogada Ana Paula, que representa as federações, reforçou que qualquer mensagem negando a decisão “é inverídica e contraria a ordem judicial”.

Festival inteiro realizado sem energia

Apesar da liminar judicial, a festa ocorreu sem iluminação adequada durante os dois fins de semana. No primeiro fim de semana, a organização relatou: “Obtivemos decisão favorável, porém a Prefeitura não disponibilou a caixa de luz adequada”.

A situação se repetiu no segundo fim de semana. Mesmo com as denúncias e a ordem judicial vigente, a prefeitura não instalou os pontos de luz prometidos.

Como consequência, todos os terreiros precisaram improvisar iluminação com velas, lanternas, tochas e celulares durante toda a celebração.

“Tivemos que improvisar. Quem seguiu as regras não recebeu respeito”, relatou a Tenda de Umbanda Iemanjá e Cabocla Jurema.

Impacto econômico e cultural

A festa tem mais de 50 anos e é regulamentada por lei municipal. Além da importância religiosa, ela movimenta a economia de Praia Grande. Fieis de várias regiões alugam casas, hotéis e consomem no comércio local.

“Pagamos pela entrada de ônibus e taxas altas, além de promover a cidade”, afirmou a organização.

As federações também pagam R$ 70 por barraca e R$ 95 de taxa administrativa, que deveria cobrir limpeza, banheiros, energia e abastecimento de água.

Alegações de tratamento desigual

Os organizadores denunciaram tratamento diferente quando compararam o evento a celebrações de outras religiões.

“Você já viu algum evento católico ou evangélico em que a prefeitura controla tudo assim?”, questionaram.

Segundo eles, a fiscalização foi rígida apenas nas áreas das federações. A chamada “área de não federados”, por outro lado, não recebeu o mesmo rigor.

“O apagão é um descaso que outras religiões não enfrentam”, disseram.

Posicionamento da prefeitura

Em nota, a Prefeitura de Praia Grande, por meio da Secretaria de Cultura e Turismo, informou que a Portaria dos Festejos de Iemanjá de 2025 está de acordo com o Decreto Municipal nº 5565/2014 e sua nova redação, dada pelo Decreto nº 7968.

“Desde a alteração, sancionada no segundo semestre de 2024, a legislação não proibiu a utilização de energia elétrica, apenas condicionou o seu uso a um modelo seguro com fontes de energias renováveis e autônomas”, afirmou a prefeitura.

Quanto ao não fornecimento de energia, a administração municipal alegou que, para o fornecimento de energia elétrica, mesmo diante dos contatos feitos pela prefeitura, a empresa responsável por sua concessão na cidade informou que o prazo não poderia ser cumprido para realização do serviço.

A prefeitura destacou ainda que “todos os apontamentos de responsabilidade única da Administração Municipal, na liminar concedida pela justiça, estão sendo cumpridos criteriosamente” e ressaltou que o evento “seguiu normalmente com a participação de 16 federações e 1 área de não federados, reunindo dezenas de milhares de pessoas”.

Resistência e fé prevalecem

Apesar dos problemas estruturais, a festa aconteceu e reuniu milhares de fiéis que resistiram às dificuldades para homenagear Iemanjá, Rainha do Mar. A celebração se manteve viva graças à determinação dos organizadores e participantes, que improvisaram soluções durante todo o evento.

As federações religiosas prometem continuar a luta judicial e cobrar o cumprimento integral da liminar para as próximas edições. O caso levanta questões importantes sobre liberdade religiosa, uso do espaço público e o tratamento equitativo de diferentes manifestações de fé na cidade de Praia Grande.