SS Rotterdam: a dama que se recusou a morrer
Como um ícone da navegação ancorou no coração de uma cidade
Há uma beleza imensa na paisagem que se move como um monolito flutuante pela Ponta da Praia, com uma embarcação recheada de turistas cortando o mar entre os prédios, emocionando de santistas gélidos a turistas entusiasmados.
Nós, habitantes de uma cidade acostumada ao vai e vem portuário, conhecemos alguns dos navios pelos nomes que são adjetivos grandiosos: Preziosa, Magnifica, Splendida, Bellissima. No feminino.
Na língua portuguesa, temos navios como elementos masculinos, da mesma forma que olhamos para o nosso porto de Santos. Mas a fascinante lógica da linguagem, se escavada com a curiosidade feminina, revela outras camadas no convés.
Na tradição anglo-saxônica, a chegada dos navios é anunciada com um pronome que carrega séculos de afeto e superstição: “She is coming.” Em tradução livre, “ela está chegando”.
Para uma pessoa que trabalha no porto de Rotterdam ou em Nova York, o navio é sempre ela.
Essa fluidez de gênero marítimo encontra um eco ainda mais antigo no holandês da Era dos Descobrimentos, onde a grandiosidade dos feitos exigia outros pronomes. Lá, navios de grande porte eram referidos com o pronome haar (ela), alinhando-se às forças que governavam a vida de um marinheiro: die zee (o mar) e die zon (o sol), ambas entidades femininas na língua de Rembrandt.
Crédito: Iris van den Broek. SS Rotterdam em 2018
Essa também é a história do navio de passageiros construído na Holanda, lançado em 1958 pela Rainha Juliana.
Diante do SS Rotterdam, a gramática exige uma revisão de protocolo. Não estamos só diante de um navio, mas de uma grande dama que reivindica um novo hábito de nossa parte: a cortesia de tratarmos esta matriarca de aço pelo pronome que exige: ela.
Transatlântico pelo mundo
A história do SS Rotterdam não é muito diferente de uma biografia de carne e osso repleta de altos e baixos. Tal como, a narrativa não seguiu o roteiro da engenharia. Houve a glória, o fundo do poço da obsolescência e, finalmente, a teimosia em permanecer viva, como a maior parte das mulheres.
Em 1959, seu “corpo” já era um manifesto de ruptura com as expectativas. A remoção da chaminé clássica central foi apenas um marco de elegância moderna na indústria naval. Mas no exato momento em que essa modernidade tocava o mar, a aviação comercial redefiniu as distâncias.
Em pouco mais de uma década, a travessia de luxo dos transatlânticos clássicos cedeu ao turismo. Em 1971, o SS Rotterdam foi convertido para operar exclusivamente cruzeiros mundiais e caribenhos pela Holland America Line.
Foi comprado pela Premier Cruises e teve seu nome alterado para Rembrandt por um breve período. E foi sob esse pseudônimo artístico que a “grande dama” aportou em Santos no final dos anos 90. Há um registro visual desse período: a gigante embarcação holandesa diante do Monte Serrat e do Moinho Paulista, aqui no nosso mar.
Crédito: Edson Lucas. Imagem no acervo do cartofilista Laire José Giraud.
Navio Rembrandt em Santos, tendo ao fundo o Monte Serrat e o Moinho Paulista.
Poucos anos depois, essa história poderia ter acabado, com o navio sendo aposentado na virada do milênio, sob o risco de ser vendido para sucata. Mas a grande dama se recusou a desaparecer.
O porto e a cidade
O SS Rotterdam figura hoje menos como uma simples embarcação e mais como um manifesto naval de resiliência local e moral. Se a virada do milênio, no ano 2000, ameaçou consignar a grande dama ao desmonte, hoje quem visita a cidade de Rotterdam pode ver o futuro com seus próprios olhos.
Para os holandeses, a cultura marítima opera como um mecanismo de defesa temporal, uma forma sofisticada de blindar o passado enquanto se negocia o amanhã. Em Rotterdam reside o maior porto da Europa, que já ostentou o título de maior do mundo. O paralelo com Santos, o maior da na América Latina, seria inevitável da nossa parte.
Ambas as cidades carregam a mesma cicatriz: a relação entre a cidade e o porto. É um efeito crônico, uma fricção tectônica entre a vida e a infra-estrutura, sentida com intensidades diferentes em cada lugar.
Rotterdam guarda algumas pistas para transformar essa cicatriz em novas interfaces de convivência. Tradicionalmente dominada pelo porto e pela indústria, a região de Katendrecht é um desses exemplos. Passou a ser conhecida como Chinatown na década de 1950 com a chegada de milhares de imigrantes, que se juntaram aos marinheiros e prostitutas. Cheia de armazéns e tijolos vermelhos, a região viveu tanto um período de decadência quanto de retomada.
É ali, que desde 2008, está a embarcação SS Rotterdam. Agora ancorada de maneira definitiva na margem sul do rio Nieuwe Maas, onde visitantes podem comer, beber e dormir ou dar uma espiada nos bastidores do mundo naval através de uma visita guiada. De navio de passageiros a rodar pelo mundo, o SS Rotterdam tornou-se um indutor turístico do bairro misturando restaurante, hotel, espaço de eventos e atividades de entretenimento.
Como é estar lá?
É impossível percorrer esses conveses sem se assombrar pela improbabilidade de existência física do SS Rotterdam. O navio desafiou as forças caóticas que, no ano 2000, após a falência da Premier Cruises, quase condenaram este ativo da memória ao maçarico de um ferro-velho.
Esses esforços incluíram a Rotterdam Dry Dock Company (RDDC), a Fundação SS Rotterdam e, posteriormente, a rede de hotéis WestCord.
Ainda assim, a alma da embarcação é mantida por uma força mais sutil. A preservação contínua do navio é também atribuída em grande parte a muitos voluntários, que são fundamentais para manter as histórias e a estrutura, garantindo que ele funcione como um guardião da identidade para as gerações futuras.
Visitar essa grande dama é simbólico por sua natureza de cápsula do tempo, que mantém viva a atmosfera da era de ouro das viagens marítimas.
Crédito: Mauricio Matias. Ludmilla Rossi visitando o SS Rotterdam em 2025
O SS Rotterdam foi pioneiro em muitos aspectos da experiência do passageiro, um legado que continua em sua forma atual e que pode ser sentido, mesmo por quem apenas adentra o lugar e toma um espresso duplo.
No passado, a Holland America Line foi pioneira na introdução do papel de gerente de hotelaria, para lidar com as solicitações dos passageiros e da diretoria de cruzeiro, com foco no entretenimento. Atualmente, há mais modéstia na experiência dos visitantes, despida da pompa transatlântica original, mas mantendo um atendimento acolhedor nas recepções e visitas aos restaurantes.
Contudo, a reflexão mais provocadora que o navio suscita é a de ordem urbanística.
Identidade ancorada
Observando a reinvenção expansão de Katendrecht, há uma vitória na batalha entre o progresso e a memória. Quem vence? A identidade para a relação porto-cidade.
Se o bairro ganhou metros quadrados avançando sobre o mar, os holandeses recusaram-se a ceder sua gigante de aço ao esquecimento. Em vez de uma perda líquida para a modernização, houve uma integração. O navio tornou-se um equipamento turístico que ancora a identidade local.
Essa simbiose ficou evidente durante uma visita ao PortXL, um dos epicentros de inovação tecnológica de Rotterdam, localizado a 10 quilômetros de distância de Katendrecht. Ali, cercados pelo futuro, fomos recepcionados não apenas com dados sobre startups, mas com uma aula sobre identidade local. O anfitrião fez questão de apontar que pisávamos no chão onde o SS Rotterdam foi forjado, provando que, quem mora em Rotterdam sabe e se orgulha de sua história marítima.
O destino do SS Rotterdam oferece uma resposta tangível sobre como uma nação pode pensar e uma cidade pode fazer: o respeito à herança e à inovação devem ser síncronos. A Grande Dama não sobreviveu apenas por sorte, mas porque enfrentou as dualidades.
A resistência da memória
Não é aceito pelo povo holandês, que um testemunho vivo da engenharia e do design nacional, ícones da inovação dos anos 1950, sumissem do mapa. Hoje, ancorado no coração de Rotterdam, ele não é uma relíquia estática, mas uma arquitetura de presença, provando que, em uma verdadeira cidade portuária, o futuro não é apenas o que vem pela frente.
O navio recusou-se a desaparecer. Sua salvação, fruto de uma longa batalha, consagrou-o não apenas como a joia da coroa de Rotterdam, mas como uma provocação que segue flutuando.
A Grande Dama é uma mais uma das mulheres que lutou para viver. E permanece ali, como um ícone do porto, lembrando-nos de que cuidar da ancoragem das memórias é, talvez, a mais corajosa das ideias urbanas.
Lendárias & Portuárias
As visitas a cidade de Rotterdam, ao Museu Marítimo da cidade, ao SS Rotterdam e ao PortXL fizeram parte das filmagens para a terceira temporada do Lendárias & Portuárias, projeto incentivado pela Lei Municipal Alcides Mesquita, com patrocínio da DP World e apoio da ABTRA.
A terceira temporada estreia no dia 2 de fevereiro de 2026, aniversário de 134 anos do porto de Santos, com o primeiro episódio filmado em Rotterdam. Os episódios vão ao ar no YouTube do Juicy Santos
Em 2025 foi lançado um documentário que também está disponível gratuitamente no YouTube sobre o SS Rotterdam, chamado de O Navio Que Se Recusou a Desaparecer. A primeira viagem realizada pelo navio, em 1959, também está disponível na plataforma.