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SS Rotterdam: a dama que se recusou a morrer

Como um ícone da navegação ancorou no coração de uma cidade

Tempo de leitura: 9 minutos

Há uma beleza imensa na paisagem que se move como um monolito flutuante pela Ponta da Praia, com uma embarcação recheada de turistas cortando o mar entre os prédios, emocionando de santistas gélidos a turistas entusiasmados.

Nós, habitantes de uma cidade acostumada ao vai e vem portuário, conhecemos alguns dos navios pelos nomes que são adjetivos grandiosos: Preziosa, Magnifica, Splendida, Bellissima. No feminino.

Na língua portuguesa, temos navios como elementos masculinos, da mesma forma que olhamos para o nosso porto de Santos. Mas a fascinante lógica da linguagem, se escavada com a curiosidade feminina, revela outras camadas no convés.

Na tradição anglo-saxônica, a chegada dos navios é anunciada com um pronome que carrega séculos de afeto e superstição: “She is coming.” Em tradução livre, “ela está chegando”.

Para uma pessoa que trabalha no porto de Rotterdam ou em Nova York, o navio é sempre ela.

Essa fluidez de gênero marítimo encontra um eco ainda mais antigo no holandês da Era dos Descobrimentos, onde a grandiosidade dos feitos exigia outros pronomes. Lá, navios de grande porte eram referidos com o pronome haar (ela), alinhando-se às forças que governavam a vida de um marinheiro: die zee (o mar) e die zon (o sol), ambas entidades femininas na língua de Rembrandt.

www.juicysantos.com.br - SS Rotterdam: a dama que se recusou a morrerCrédito: Iris van den Broek. SS Rotterdam em 2018

Essa também é a história do navio de passageiros construído na Holanda, lançado em 1958 pela Rainha Juliana.

Diante do SS Rotterdam, a gramática exige uma revisão de protocolo. Não estamos só diante de um navio, mas de uma grande dama que reivindica um novo hábito de nossa parte: a cortesia de tratarmos esta matriarca de aço pelo pronome que exige: ela.

Transatlântico pelo mundo

A história do SS Rotterdam não é muito diferente de uma biografia de carne e osso repleta de altos e baixos. Tal como, a narrativa não seguiu o roteiro da engenharia. Houve a glória, o fundo do poço da obsolescência e, finalmente, a teimosia em permanecer viva, como a maior parte das mulheres.

Em 1959, seu “corpo” já era um manifesto de ruptura com as expectativas. A remoção da chaminé clássica central foi apenas um marco de elegância moderna na indústria naval. Mas no exato momento em que essa modernidade tocava o mar, a aviação comercial redefiniu as distâncias.

Em pouco mais de uma década, a travessia de luxo dos transatlânticos clássicos cedeu ao turismo. Em 1971, o SS Rotterdam foi convertido para operar exclusivamente cruzeiros mundiais e caribenhos pela Holland America Line.

Foi comprado pela Premier Cruises e teve seu nome alterado para Rembrandt por um breve período. E foi sob esse pseudônimo artístico que a “grande dama” aportou em Santos no final dos anos 90. Há um registro visual desse período: a gigante embarcação holandesa diante do Monte Serrat e do Moinho Paulista, aqui no nosso mar.

www.juicysantos.com.br - SS Rotterdam: a dama que se recusou a morrerCrédito: Edson Lucas. Imagem no acervo do cartofilista Laire José Giraud.
Navio Rembrandt em Santos, tendo ao fundo o Monte Serrat e o Moinho Paulista.

Poucos anos depois, essa história poderia ter acabado, com o navio sendo aposentado na virada do milênio, sob o risco de ser vendido para sucata. Mas a grande dama se recusou a desaparecer.

O porto e a cidade

O SS Rotterdam figura hoje menos como uma simples embarcação e mais como um manifesto naval de resiliência local e moral. Se a virada do milênio, no ano 2000, ameaçou consignar a grande dama ao desmonte, hoje quem visita a cidade de Rotterdam pode ver o futuro com seus próprios olhos.

Para os holandeses, a cultura marítima opera como um mecanismo de defesa temporal, uma forma sofisticada de blindar o passado enquanto se negocia o amanhã. Em Rotterdam reside o maior porto da Europa, que já ostentou o título de maior do mundo. O paralelo com Santos, o maior da na América Latina, seria inevitável da nossa parte.

Ambas as cidades carregam a mesma cicatriz: a relação entre a cidade e o porto. É um efeito crônico, uma fricção tectônica entre a vida e a infra-estrutura, sentida com intensidades diferentes em cada lugar.

Rotterdam guarda algumas pistas para transformar essa cicatriz em novas interfaces de convivência. Tradicionalmente dominada pelo porto e pela indústria, a região de Katendrecht é um desses exemplos. Passou a ser conhecida como Chinatown na década de 1950 com a chegada de milhares de imigrantes, que se juntaram aos marinheiros e prostitutas. Cheia de armazéns e tijolos vermelhos, a região viveu tanto um período de decadência quanto de retomada.

É ali, que desde 2008, está a embarcação SS Rotterdam. Agora ancorada de maneira definitiva na margem sul do rio Nieuwe Maas, onde visitantes podem comer, beber e dormir ou dar uma espiada nos bastidores do mundo naval através de uma visita guiada. De navio de passageiros a rodar pelo mundo, o SS Rotterdam tornou-se um indutor turístico do bairro misturando restaurante, hotel, espaço de eventos e atividades de entretenimento.

Como é estar lá?

É impossível percorrer esses conveses sem se assombrar pela improbabilidade de existência física do SS Rotterdam. O navio desafiou as forças caóticas que, no ano 2000, após a falência da Premier Cruises, quase condenaram este ativo da memória ao maçarico de um ferro-velho.

Esses esforços incluíram a Rotterdam Dry Dock Company (RDDC), a Fundação SS Rotterdam e, posteriormente, a rede de hotéis WestCord.

Ainda assim, a alma da embarcação é mantida por uma força mais sutil. A preservação contínua do navio é também atribuída em grande parte a muitos voluntários, que são fundamentais para manter as histórias e a estrutura, garantindo que ele funcione como um guardião da identidade para as gerações futuras.

Visitar essa grande dama é simbólico por sua natureza de cápsula do tempo, que mantém viva a atmosfera da era de ouro das viagens marítimas.

www.juicysantos.com.br - SS Rotterdam: a dama que se recusou a morrerCrédito: Mauricio Matias. Ludmilla Rossi visitando o SS Rotterdam em 2025

O SS Rotterdam foi pioneiro em muitos aspectos da experiência do passageiro, um legado que continua em sua forma atual e que pode ser sentido, mesmo por quem apenas adentra o lugar e toma um espresso duplo.

No passado, a Holland America Line foi pioneira na introdução do papel de gerente de hotelaria, para lidar com as solicitações dos passageiros e da diretoria de cruzeiro, com foco no entretenimento. Atualmente, há mais modéstia na experiência dos visitantes, despida da pompa transatlântica original, mas mantendo um atendimento acolhedor nas recepções e visitas aos restaurantes.

Contudo, a reflexão mais provocadora que o navio suscita é a de ordem urbanística.

Identidade ancorada

Observando a reinvenção expansão de Katendrecht, há uma vitória na batalha entre o progresso e a memória. Quem vence? A identidade para a relação porto-cidade.

Se o bairro ganhou metros quadrados avançando sobre o mar, os holandeses recusaram-se a ceder sua gigante de aço ao esquecimento. Em vez de uma perda líquida para a modernização, houve uma integração. O navio tornou-se um equipamento turístico que ancora a identidade local.

Essa simbiose ficou evidente durante uma visita ao PortXL, um dos epicentros de inovação tecnológica de Rotterdam, localizado a 10 quilômetros de distância de Katendrecht. Ali, cercados pelo futuro, fomos recepcionados não apenas com dados sobre startups, mas com uma aula sobre identidade local. O anfitrião fez questão de apontar que pisávamos no chão onde o SS Rotterdam foi forjado, provando que, quem mora em Rotterdam sabe e se orgulha de sua história marítima.

O destino do SS Rotterdam oferece uma resposta tangível sobre como uma nação pode pensar e uma cidade pode fazer: o respeito à herança e à inovação devem ser síncronos. A Grande Dama não sobreviveu apenas por sorte, mas porque enfrentou as dualidades.

A resistência da memória

Não é aceito pelo povo holandês, que um testemunho vivo da engenharia e do design nacional, ícones da inovação dos anos 1950, sumissem do mapa. Hoje, ancorado no coração de Rotterdam, ele não é uma relíquia estática, mas uma arquitetura de presença, provando que, em uma verdadeira cidade portuária, o futuro não é apenas o que vem pela frente.

O navio recusou-se a desaparecer. Sua salvação, fruto de uma longa batalha, consagrou-o não apenas como a joia da coroa de Rotterdam, mas como uma provocação que segue flutuando.

A Grande Dama é uma mais uma das mulheres que lutou para viver. E permanece ali, como um ícone do porto, lembrando-nos de que cuidar da ancoragem das memórias é, talvez, a mais corajosa das ideias urbanas.

Lendárias & Portuárias 

As visitas a cidade de Rotterdam, ao Museu Marítimo da cidade, ao SS Rotterdam e ao PortXL fizeram parte das filmagens para a terceira temporada do Lendárias & Portuárias, projeto incentivado pela Lei Municipal Alcides Mesquita, com patrocínio da DP World e apoio da ABTRA.

A terceira temporada estreia no dia 2 de fevereiro de 2026, aniversário de 134 anos do porto de Santos, com o primeiro episódio filmado em Rotterdam. Os episódios vão ao ar no YouTube do Juicy Santos

Em 2025 foi lançado um documentário que também está disponível gratuitamente no YouTube sobre o SS Rotterdam, chamado de O Navio Que Se Recusou a Desaparecer. A primeira viagem realizada pelo navio, em 1959, também está disponível na plataforma.

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