Memória afundada: qual será o destino do navio Besnard?
Uma operação de R$ 8,6 milhões vai tirá-lo do fundo do Porto. A questão mais difícil, porém, começa depois disso.
O Porto de Santos está gastando R$ 8,6 milhões para salvar um navio que não é seu. E faz isso porque não tinha outra escolha.

O Prof. W. Besnard, que cruzou o Atlântico Sul, chegou seis vezes à Antártida e ajudou a formar gerações inteiras de oceanógrafos brasileiros, adernou no dia 13 de março de 2026 no cais do Parque Valongo. Desde então, tornou-se oficialmente um problema do Porto de Santos.
Mas, como lembrou Anderson Pomini, presidente da Autoridade Portuária de Santos (APS), o problema não começou quando o navio tombou.
Não era do Porto, até virar
Pomini foi direto em entrevista coletiva nesta terça-feira (7 de abril): a responsabilidade pela manutenção do Besnard sempre foi do Instituto do Mar (IMAR), dono da embarcação. O Porto de Santos apenas cedia o cais para atracação. A bomba, as amarras, o estado geral do casco eram obrigação da associação sem fins lucrativos que cuida do navio.
“A responsabilidade não era nossa. Passou a ser depois que ele adernou”, afirmou Pomini.
Ele frisou também que não é hora de buscar culpados. Apontar dedos agora não tira o navio do fundo do porto. Contudo, a omissão que levou o Besnard a esse estado merece um capítulo à parte e a sociedade santista deve cobrar essa conversa mais adiante.
O que se sabe é que o IMAR lutou anos para angariar recursos e não conseguiu.
“Precisou acontecer algo do tipo para que todos nós nos movimentássemos”, reconheceu o próprio Pomini.
É um mea-culpa coletivo que inclui governo, setor privado e qualquer um que considerasse o Besnard um patrimônio importante, mas nunca fez nada concreto por ele.
Como a retirada vai funcionar
A empresa contratada para o resgate é a Marfort Serviços Marítimos, selecionada após concorrência emergencial entre cinco empresas cadastradas na Capitania dos Portos. Alexandre Salamoni, diretor da Marfort, detalhou que a operação começa pelos mergulhadores, que já atuam no local desde os primeiros dias do mês de abril. Eles mapeiam e vedam cada ponto de entrada de água no casco. Em seguida, entram as bombas de sucção de alta performance, que vão retirar a água de forma lenta e escalonada.
“Como a estrutura do navio é precária, não podemos simplesmente içá-lo, pois ele não suportaria o peso. Por isso, a técnica de reflutuação é a mais indicada”, explicou Salamoni.
O içamento não está descartado, mas é tratado como hipótese remota.
“Se o cronograma avançar e não obtivermos resposta com as bombas, podemos considerar o içamento, mas apenas em última instância para evitar maiores danos à estrutura”, completou o diretor da Marfort.
São cerca de 60 profissionais envolvidos na operação: equipes de mergulho, ambiental, operadores de guindaste e de balsas. O contrato cobre 180 dias, mas a meta da APS é clara: o Besnard deve estar reflutuando ainda em abril. Em seguida, segue para um estaleiro, com previsão de início de sua restauração para o início de maio.
O dinheiro, quem paga e o ressarcimento
Os R$ 8,6 milhões saem dos cofres da Autoridade Portuária de Santos. A urgência declarada pela Capitania dos Portos permitiu pular a licitação convencional. O risco era real: se as amarras arrebentassem com a subida da maré, o navio poderia ir ao meio do canal e interromper a navegação do maior porto da América Latina.
“Se essas cordas arrebentarem, esse navio pode ir pro canal e pode interromper a navegação, o que geraria um prejuízo gigantesco”, afirmou Pomini.
Ainda assim, o valor expressivo merece acompanhamento público. Pomini garantiu que, após resolvida a situação emergencial, o Porto buscará ressarcimento junto ao IMAR e aos responsáveis. Esse processo vai exigir transparência e fiscalização.
O futuro do Besnard é um sinal de alerta
Aqui está o ponto que mais exige atenção da cidade.
Após o estaleiro, o Besnard volta ao Parque Valongo. Mas em que estado e com que destino? Pomini admitiu que ainda não se sabe. Peritos vão avaliar se o restauro será total ou parcial. Se for viável, a APS vai ajudar a captar recursos do setor privado, com gestão transparente junto ao IMAR e ao Ministério Público.
Sobre o formato final, se museu, memorial ou atração cultural, haverá audiência pública.
“Vamos decidir em conjunto com a comunidade”, disse Pomini.
Isso é democrático, mas também é um risco real. O mesmo vácuo de gestão que levou o Besnard a afundar pode se repetir se não houver uma estrutura clara de responsabilidades depois da restauração.
A boa notícia é que, dentro do projeto de concessão do Parque Valongo, a empresa vencedora da gestão do parque ficará contratualmente responsável pela manutenção do navio e da marina.
“Está no nosso projeto de concessão: a manutenção do Besnard, a construção da marina aqui na frente, toda a manutenção do Parque Valongo”, detalhou Pomini.
Isso muda o jogo estruturalmente, mas só funciona se o poder público fiscalizar o contrato de verdade.
Uma cidade que preserva sua memória não espera o navio afundar
O Besnard não é apenas bonito de ver atracado no Valongo. Ele foi a plataforma científica que colocou o Brasil na pesquisa oceanográfica de ponta. Participou das primeiras missões brasileiras à Antártida. Formou pesquisadores que hoje lideram laboratórios e institutos pelo país. É o tipo de patrimônio que, quando some, não volta.
Fotos: Gustavo Nascimento
E aqui está o incômodo que precisa ser dito: um navio desse calibre não deveria depender da boa vontade de uma associação sem fins lucrativos para sobreviver. Em países que levam a sério sua história científica e marítima, embarcações como o Besnard viram museus, centros de educação, pontos de turismo cultural antes de chegar a esse ponto de abandono.
Santos construiu 400 anos de história portuária, que não pode depender de uma emergência para ganhar lembrança.
A audiência pública que vai definir o destino do navio precisa ser tratada como o que realmente é: uma decisão coletiva sobre o que Santos quer preservar de si mesma.