O baile dança enquanto o jornalismo estaciona
No início do século XX, a vida privada brasileira era essencialmente binária, oscilando quase exclusivamente entre a casa e a igreja. Mas, com a expansão urbana do Rio de Janeiro, a metrópole que serviu como capital federal de 1763 até a inauguração de Brasília, em 1960, os bailes emergiram como a terceira via da vida social.
Eram vitrines de refinamento onde a elite, armada de confetes, serpentinas e lança-perfumes, buscava o senso de comunidade em festas restritas.
Em Santos, a Sociedade Harmonia organizava eventos assim em meados de 1830, criando os primeiros bailes da Vila de Santos, que tinham o papel de educar quem deles participava através do contato físico dentro dos padrões de moralidade da época. Ou seja, todo mundo era ensinado a dançar de maneira comportada.
Cortaremos para o início do século XXI. Em meados de 2001, Fernando Silva, um visionário organizador de eventos, leva uma ideia a Eduardo Conde Bandeira, o então secretário de Turismo de Santos. O que começava ali não era apenas uma proposta de festa para a elite santista, mas uma reconfiguração da força social da cidade.
A arquitetura social fora das capitais brasileiras opera frequentemente sob a seguinte mecânica: o acesso às rodas exclusivas é determinado menos pelo mérito e mais pelo que se pode chamar de capital genealógico.
A meritocracia segue como uma ficção polida que encobre a realidade do “fi de quem?”, um mineirismo que atua como a catraca da sociedade, exigindo um sobrenome herdado ou corporativo como senha de entrada.
Fernando Silva, no entanto, visualizou uma ruptura nessa estratificação. Seu objetivo era arquitetar um baile que funcionasse como uma zona de suspensão social: um espaço onde, uniformizados pelo black tie, todos os participantes tivessem acesso à mesma gastronomia refinada e ao mesmo entretenimento de alto calibre.
A intenção era fabricar o tipo de memória duradoura que geralmente é privilégio da elite, fomentando a troca social e a conexão humana forjada não pela utilidade, mas pela pura sociabilidade de uma festa. Em um mundo que sofre cada vez mais de uma epidemia de solidão, digamos que isso é visionário.
Em um toque final de engenharia cívica, a arrecadação do Baile da Cidade de Santos não serviria ao lucro privado, mas seria canalizada para o Fundo Social de Solidariedade, garantindo que a efemeridade da festa se convertesse em impacto tangível para as instituições locais. E assim aconteceu, por 16 edições que, desde o início, contam com a organização brilhante de Silva.
A mais recente, em 24 de janeiro de 2026, no Santos Convention Center, contou com show de Alexandre Pires e cardápio assinado por Dário Costa e operação de cozinha liderada pela chef Isabela Sato.
Inspiração em 1930
Sob a conceituação de Silva e sensível execução da artista Mônica Figo, o baile da cidade de 2026 evocou as areias de Santos na década de 1930.
Crédito da imagem: Mônica Figo para o Baile da Cidade de Santos
A estética da festa resgatou as barracas de lona listrada usadas outrora para a troca de roupas, estruturas que são as avós das barracas de praia. Ou, como mais recentemente a cidade têm chamado, os beach clubs.
No entanto, enquanto Santos se decorava com a geometria colorida dessas lonas, o Brasil daquela época navegava por uma transição, em que a estética servia de fachada para uma ruptura institucional. A imprensa daqueles tempos não ocupava a posição passiva de observadora; ela era, simultaneamente, protagonista e arma política, antecipando a dinâmica de poder e de narrativas.
Crédito da imagem: Francisco Carballa
Getúlio Vargas foi um dos pioneiros a compreender que o jornalismo não servia apenas para informar, mas para construir uma imagem de liderança, manipulando a opinião pública com a mesma destreza com que o Trumpismo ou o Bolsonarismo, em nossa era, transformaram a mídia em inimiga e em palco.
Há uma ironia trágica no destino desses comunicadores. É fascinante notar que muitos dos jornalistas que pavimentaram a ascensão de Vargas em 1930 acabaram presos ou exilados por ele apenas dois anos depois, durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Eles descobriram, tarde demais, que haviam alimentado o público com o “vape político”, apenas para se tornarem as primeiras vítimas da fumaça do novo regime.
Para situar o papel do jornalista nesta edição do baile da cidade de Santos, é preciso desviar o olhar do palco e olhar para o subsolo, palavra que gostaríamos de usar como metáfora. O subsolo não é uma figura de linguagem, é um lugar. Segundo os profissionais que lá estiveram, a “imprensa operária” foi alocada no estacionamento.
Em um momento em que o jornalismo enfrenta uma crise de relevância e de confiança – e luta para manter sua comunhão com o público -, o deslocamento físico da imprensa para a zona de escape junto aos automóveis serve como uma imagem para pensarmos nesse papel essencial para o funcionamento do motor cívico.
O que jornalistas merecem?
O questionamento sobre quem detém o direito de narrar o presente é tão antiga quanto o sonho do túnel Santos-Guarujá. Na década de 1930, o mesmo período histórico que emprestou sua estética de lona listrada para a 16ª sexta edição do baile da cidade, os jornais impressos tremiam diante do rádio, travando batalhas territoriais sobre quem possuía o direito das notícias de última hora e dos placares esportivos.
Corta para janeiro de 2026. A sanção da lei 15.325, em 6 de janeiro, marcou a primeira regulamentação federal do exercício profissional dos influenciadores e criadores de conteúdo que exploram economicamente a produção digital.
No ecossistema do baile, essa distinção já se manifesta, com influenciadoras como convidadas e a imprensa tradicional fora das mesas.
Focar na rivalidade entre jornalistas e influenciadores é, esteticamente falando, tão cafona quanto fumar em ambiente fechado. No entanto, compreender como essas atividades moldam o imaginário urbano e qual o papel de cada um, é vital.
O que está em jogo é a narrativa: a conexão social mantida não pela profundidade da informação, mas pela presença constante e pela validação mútua. Influenciadores e jornalistas ocupam papeis distintos nessa conversa.
Para tornar tudo mais complexo, uma tendência desponta: o papel do newsfluencer, profissionais que funcionam como uma ponte entre o jornalismo tradicional e a criação de conteúdo nativo da internet, frequentemente alcançando públicos mais jovens que a televisão ou jornais impressos não atingem. Seriam os newsfluencers convidados a sentar à mesa com o menu assinado ou direcionados ao estacionamento?
O apresentador de TV Claudio Abreu publicou um vídeo em seu perfil do Instagram, destacando que, sem a imprensa, o baile seria um evento sem testemunhas.
Sua declaração não é um ressentimento pelo “não-convite”; e sim um apelo.
Em um mundo onde a realidade desordenada e a disseminação de informações falsas é cada vez mais mediada por telas, os critérios de quem merece acesso e quem merece um lugar digno para se alimentar e trabalhar precisam ser transparentes. Caso contrário, a cidade corre o risco de celebrar sua própria imagem enquanto estaciona aqueles que a revelam.
Foto: PMS/Henrique Teixeira
A conversa aberta
A resposta oficial da Prefeitura à indignação dos poucos veículos que mencionaram o fato chegou da seguinte forma:
“A Prefeitura de Santos informa que a mudança na área de alimentação do Staff e da Imprensa foi uma decisão da empresa organizadora, visando facilitar a logística do evento beneficente. A mesma pede desculpas por transtornos e reafirma que providências serão promovidas para a próxima edição para o maior conforto dos profissionais.”
Ou seja, houve um pedido de desculpas protocolar e a promessa de ações futuras, sugerindo que o conforto dos profissionais será, em algum momento, elevado à categoria de prioridade. Uma ótima conversa a ser aberta.
Nenhum profissional de imprensa deseja um convite, mas sim, uma infraestrutura confortável para trabalhar.
No entanto, para além de focar no que os profissionais merecem, na seção de comentários do Instagram do jornal BoqNews, o vereador Sérgio Santana, canalizando o espírito de vendetta que tem caracterizado a retórica política desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, emitiu o comentário:
“Agora é hora de se vingar, mostrem como está a cidade de verdade, fale do abandono, zeladoria, obras paradas, ruas esburacadas, pessoas em situação de rua, façam a diferença”, comenta o vereador.
Não como um ato de jornalismo cívico, mas como uma retaliação pela carne dura. Coube a uma mulher, Aline Porfírio, injetar uma dose de sanidade nos comentários do mesmo post:
“Pelos comentários vemos que as pessoas não sabem o papel da imprensa, muito menos o respeito com todo e qualquer profissional. Lamentável”.
Aline observa que a sociedade parece ter desaprendido o respeito básico pela função da imprensa. A sugestão de Santana, contudo, confirma inadvertidamente o diagnóstico de Aline. O código de ética do jornalismo foi arquitetado precisamente para impedir que a reportagem se tornasse uma arma de vingança pessoal ou política, distinção vital em um ecossistema de mídia que atualmente confunde qual o papel de jornalistas, influenciadores e políticos.
Não se pode deixar de fora a confusão dos próprios jornalistas, que não devem aspirar a serem juízes nem carrascos. Sua função, mesmo quando relegados e relegadas ao estacionamento, é iluminar os fatos para que o público, e não egos feridos, possam pensar de maneira crítica.
Convém lembrar que a própria imprensa não pode perder de vista a escala vertiginosa do Baile da Cidade: trata-se de uma reunião de 1.800 pessoas, sustentada por uma logística labiríntica que não exige apenas um bastidor, mas uma constelação deles. A alocação da imprensa no estacionamento, à parte o juízo moral que cada um possa acalentar sobre o fato, não constitui exatamente um precedente inédito e nem uma minimização intencional.
Embora a busca por condições de trabalho civilizadas permaneça um direito inalienável de qualquer ofício, incumbe também ao jornalismo a tarefa de iluminar a vasta cadeia econômica que o baile põe em marcha, para além de sua óbvia função social.
É um exercício de lucidez recordar os 400 profissionais diretamente envolvidos, isso sem mencionar a teia invisível que abastece o evento e seus convidados: do modesto produtor de tomates à frota de transportes, passando pelo exército de profissionais de beleza, locadoras de trajes, costureiras, cabeleireiros, joalheiros e maquiadores, além dos fornecedores imediatos.
Neste vasto ecossistema, a comunicação é apenas um fragmento. Importante, mas ainda um fragmento tão importante quanto os outros.
Elite
Entre o canapé assinado por Dario Costa e o tratamento que os profissionais de comunicação devem receber, há muitas perguntas. A principal delas é entender o papel do jornalismo e o significado da palavra elite.
Uma das melhores que ouvimos até hoje veio de Tanja Faller, profissional alemã que atua na área de financiamento de energia sustentável. Ela diz que ser elite “significa escolher a responsabilidade ao invés do conforto”.
É sempre importante lembrar que grande parte dos jornalistas de Santos não pertence à elite. Mas o dono do jornal sim.
Respeitar quem não pertence a essa classe, oferecendo conforto, dignidade e, crucialmente, menos estratificação nos eventos que cobrem, não é apenas uma questão de etiqueta; é uma estratégia para a cidade.
Sem uma harmonia entre jornalistas, população e quem decide, a compreensão do papel da mídia permanece incompleta. E a sustentabilidade do jornalismo local, que é uma obsessão necessária para a democracia, torna-se uma promessa tão vazia quanto um buraco em uma calçada do Embaré.